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Postado em 16-02-2013
Arquivado em (Artigos) por vitor em 16-02-2013 00:27


Fernando Lyra:coragem, bom humor e competência

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ARTIGO DA SEMANA

A morte de Lyra e a “topada” de Dilma

Vitor Hugo Soares

Um sábio chinês disse no passado: “há indivíduos cuja morte pesa menos que uma pena para a humanidade. Há outros, porém, cujo desaparecimento tem o peso de toneladas”.

Este pensamento oriental segue atualíssimo. Para comprovar, basta olhar ao redor no Brasil e no resto do planeta. Em sua segunda parte, se encaixa com perfeição ao perfil e à história política e humana do ex-parlamentar e ex-ministro da Justiça, Fernando Lyra. Um brasileiro exemplar, nascido em Pernambuco, que morreu quinta-feira, 14, depois de largo e complicado período de internamento em hospitais de Recife e São Paulo.

Muitos conheceram Fernando (assim ouvi muitas vezes o ex-deputado Chico Pinto chamar com afeto e admiração o amigo e companheiro de grandes combates no extinto MDB). Outros com ele conviveram mais prolongada e intensamente. Alguns irão, seguramente, falar sobre esta figura humana verdadeiramente plural e admirável, como definiu em linhas brilhantes e emocionadas o senador do PDT e conterrâneo, Cristóvão Buarque, no artigo publicado no Blog do Noblat.

Preciso esclarecer e contextualizar este escrito. Nasci no lado baiano do Rio São Francisco. Passei a infância e parte da juventude em cidades de onde podia ver Pernambuco (e ouvir através das ondas potentes da Radio Jornal do Comércio, falando para o mundo) na outra margem do rio da minha aldeia. Por sentimento, verdade e reconhecimento pessoal e profissional, não me sentiria bem se deixasse de fazer este registro póstumo.

Afinal, além do destemido e digno combatente político contra a ditadura durante décadas, foi Fernando Lyra quem ao chegar ao poder, na condição de ministro da Justiça, por escolha de Tancredo Neves, aplicou o golpe mortal na censura que durante décadas amordaçou a imprensa e a liberdade de expressão no Brasil.
Portanto, sem poder me considerar seu amigo, como sempre almejei, segui de perto a sua palavra ardente e seus discursos candentes. Testemunhei exemplos e ações. Acompanhei o bom combate de Fernando Lyra.

Jornalista profissional (chefiando durante quase duas décadas primeiro a redação, depois a sucursal do Jornal do Brasil em Salvador), amigo pessoal do ex-prefeito de Feira de Santana e ex-deputado Chico Pinto (outro símbolo autêntico da resistência no velho MDB de Ulysses e Tancredo), não raramente estive ao lado do grande político pernambucano. Principalmente quando de suas frequentes visitas a Salvador e Feira da Santana, onde ele sempre foi admirado, aplaudido e considerado grande amigo da Bahia.

Algumas vezes participei diretamente de seu combate contra a violência e a intolerância. Até na cela de um quartel do Exército, em Salvador, passei temporada por causa disso. Sinto honra e orgulho de poder falar destas coisas e sobre este homem de combate permanente na construção da democracia em seu país, mas que nunca deixou de sorrir, sempre manteve incrível bom humor nos palanques e na vida. Morre sem perder a ternura, jamais.

Na nota oficial de governo sobre a morte de Fernando Lyra, a presidente Dilma Rousseff assinala: “a democracia brasileira perdeu um de seus mais expressivos defensores”. Linhas adiante, destaca: “Primeiro ministro da Justiça da redemocratização, Lyra foi o responsável pelo fim da censura oficial, passo fundamental na conquista da liberdade de expressão no País”.

Mais da nota: “Exímio articulador político, Fernando Lyra foi um dos expoentes da formação da Aliança Democrática. Teve atuação relevante na Assembléia Nacional Constituinte e representou com brilho os eleitores de Pernambuco na Câmara dos Deputados por 28 anos”. E a conclusão da mensagem assinada por Dilma Rousseff: “Em nome de todas as brasileiras e de todos os brasileiros, apresento meus votos de pesar a sua mulher, Márcia, suas três filhas, familiares e amigos, neste momento de dor”.

O sábio chinês citado no começo deste artigo sintetizaria: “Um peso sem tamanho, o da perda de Fernando”.

EM TEMPO: Antes de receber a notícia da morte de Fernando Lyra, iniciei este artigo com a intenção de falar sobe “as últimas da presidente Dilma na Bahia”, e contar que não foi sem tropeços a mais recente temporada de repouso da presidente da República no privilegiado cenário cinematográfico onde fica situada a Base Naval de Aratu.

Principalmente depois dela sofrer a “topada” que lhe fissurou o dedo grande do pé, logo em seguida à sua chegada à magnífica praia de Inema, na sexta-feira da semana passada. O assunto, mantido no título, fica para ser tratado depois. Se ainda houver atualidade. E sentido.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Janio on 16 Fevereiro, 2013 at 1:42 #

Maravilha, querido Vitor. Estou em Recife e pude sentir de perto a sinceridade das homenagens que todas as tendências pernambucanas prestaram a Fernando Lira. A propósito, a política por aqui anda num nível bem acima da do resto do País. E pode escrever: o tal do Eduardo não está pra brincadeira.
Quanto à topada da nossa querida Dilma em Inema, aquilo deve ter sido trabalho de algum velho Orixá baiano de saco cheio de suas repetidas visitas as nossas costas, que, se para alguns pode parecer prestígio de Jaques Wagner, mais parece consciência pesada pelo encolhimento da Bahia no seu governo (ministérios das Cidades; da Igualdade Racial; Petrobrás; enorme perda de receita da Chesf por conta da redução das taxas de energia…). Aliás, tenho um amigo que anda querendo fazer um movimento do tipo: “Dilma, no próximo feriado vá pra Porto de Galinhas (ou Fernando de Noronha, ou Gramado, ou pra Tonga da Milonga do Kabuletê) e devolva a Bahia o que lhe é de direito”. Faz sentido.


Mariana Soares on 16 Fevereiro, 2013 at 11:12 #

Artigo e comentario de Janio sensacionais!
Essa gente do “Sul Maravilha” se acha e não perdem a oportunidade de “esnobar” os nordestinos, mas não saem das nossas terras lindas e maravilhosas!
Quanto a perda e história de Lyra, nada a acrescentar, apenas lamentar a sua saída de cenário.


Olivia on 16 Fevereiro, 2013 at 15:15 #

Um homem exemplar, mesmo. Tb tive a grata oportunidade de conhecer Lyra. Aguerrido combatente do grupo dos autênticos do MDB.


Carlos Volney on 16 Fevereiro, 2013 at 23:24 #

Grande Vitor, que oportuno é o seu artigo.
Sob minha ótica, Fernando Lira é dessas raras figuras que engrandecem e dignificam tudo o que fazem, como fez com a atividade política. E uso o verbo no presente porque ele será sempre atual, malgrado a ausência física doravante.
Fernando Lira será sempre exemplo de que ninguém precisa se corromper ou apoiar corruptos sob qualquer pretexto, muito menos para justificar atos ou atitudes infames a fim de manter o poder, como sói acontecer em nossa Pindorama.
De resto, sem qualquer intenção de lhe agradar, voce para mim é como ele. Você, Bob Fernandes, Janio de Freitas, Claudio Leal e poucos outros que tais.


Gracinha on 17 Fevereiro, 2013 at 2:44 #

Vitor, muito belo seu artigo. Parabéns!
Gostei muito também do comentário de Jânio – verdadeiro primor.


Graça Azevedo on 17 Fevereiro, 2013 at 10:13 #

Queria ter escrito algo sobre o artigo de VH falando de Fernando Lyra e não encontrava as palavras. Volney fez isso por mim. E concordo com absolutamente tudo dito por ele com ênfase no último parágrafo!


Carlos Volney on 17 Fevereiro, 2013 at 15:17 #

Obrigado, Graça. Você sempre generosa comigo!


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