Carnaval baiano no traço imortal de Lage

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Crônica da Quarta-Feira de Cinzas

Gilson Nogueira

A mortalha do Filhos da Pauta está dobrada dentro de um saco de plástico preto na gaveta do meu guarda roupa. Entendo que o detalhe da cor do saco protetor da roupa do bloco de carnaval dos empregados da Tribuna da Bahia da Salvador de um dos anos da década de 1970 representa, por obra do destino, dois lutos. O primeiro, fixado na ausência, mais que sentida, hoje, de alguns colegas de profissão que moram no Céu e cujos rostos fazem parte dos desenhos da fantasia feitos pelo saudoso Hélio Lage, o maior cartunista de todos os tempos da terra de Ederaldo Gentil, Batatinha, Nelson Rufino, Edil Pacheco, Walmir Lima e de outros bambas do samba soteropolitano.

O segundo, pela morte do Carnaval de Salvador, hoje tido como o major do mundo, mas que, na verdade, não passa de uma jogada midiática de artistas de arribação, música descartável e de coreografias sem graça, como ter que suportar o “humor “ e declarações chulas de “celebridades” tão verdadeiras quanto loção para barba adquirida em feira paraguaia,na cidade baixa.

No fundo da memória, lembranças de um tempo em que brincar carnaval era a glória do povo no extravasamento coletivo da alegria baiana, representada, no meio da rua, pela confraternização de pobres e remediados, sem voz de comando para sorrir, beijar e abraçar vinda de cima de possantes caminhões dos trios “elétricos”, verdadeiros dinossauros da opressão da grana que destrói coisas belas, como cantou ele, o iluminado Caetano, em Sampa.

Mesmo assim, o folião desloca-se para as avenidas, ruas e praças a fim de deixar-se possuir pelas forças do Deus Carnaval, aquele sem cor e cara que desperta, ano a ano, dentro dele, para curtir, junto, a vida. E no embalo da ilusão, comove-me, deixa-me em estado de exaltação ao ser humano pelo que ele tem de melhor, a capacidade de perdoar e, desse modo, construir a obra de Deus, ao ver a criança sacudir com o pai o chocalho do sonho.

No silêncio de um jardim onde dançam samambaias, bem-ti-vis anunciam a chegada ameaçadora de um gavião peregrino e periquitos brincam de fazer zoada, sob o sol inclemente da capital do berimbau, sorrio em dose dupla com a piada de Lage ilustrada com uma gostosona de biquíni enfiada no pescoço do sujeito de bermuda: “ Sou o diretor deste respeitável clube e queria comunicar ao distinto sócio que é proibido carregar minha mulher nos ombros!!!”

Logo abaixo do traço mágico do gênio, o texto tribunesco de algum jornalista retado do meu tempo de repórter da TB Com um megafone na mão direita, o leio:

“ Um dia o coração malandro pifa, que não é de ferro, e aí a transação é bem diferente: defunto só tem direito a reza. Com a gente vai ser no meio de uma frase, escrevendo uma nova manchete ou um furo: a mãe que matou o filho e chupou o sangue ou a chegada de Nixon a Marte, tomando coca-cola. Talvez a convocação de Baiaco para a seleção brasileira ou o acordo entre as nações garantindo a paz mundial. Mas o que interessa depois da morte? Bom mesmo é estar vivo e saber viver da melhor maneira. É desbundar no anonimato, sem pauta, sem tempo, sem compromisso. E depois, qualquer tempo depois, essas coisas estarão sempre acesas, nunca morrerão, porque é Carnaval. A conversa tem que ser outra, mesmo porque agora só resta a opção de se entregar e se perder na cidade – que se arrumou de luzes e cores – e curtir adoidado. Por isso, estamos aí, legais, os FILHOS DA PAUTA, que é muito mais que um bloco: é a nossa necessidade de também botar pra fora a notícia que a vida não nos permitiu escrever. Seja o que Deus quiser.”

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador da primeira hora do Bahia em Pauta

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Comentários

Mariana on 13 Fevereiro, 2013 at 14:50 #

Lindo! Emocionada!


luís augusto gomes on 13 Fevereiro, 2013 at 18:12 #

Caro Gilson, a depender do ano, minha cara está na sua mortalha. A minha, tristemente, se perdeu. Luís Augusto


gilson on 13 Fevereiro, 2013 at 18:49 #

Caro Luís, sua cara inteira está na mortalha, que considero uma relíquia.
Viajo, quando a vejo ( a mortalha ), como agora, entre sorrisos e lágrimas.
Segure o bloco!


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