Gabrielli (com Wagner):ponte de cifras
astronômicas e poucas explicações

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CRIATIVIDADE DE COMISSÁRIOS ATRAVESSA A PONTE

Claudio Leal

Não é o caso de pensar mal: na semana de novo apagão no sistema ferryboat, o governo da Bahia anuncia licitações e um cronograma de atividades para viabilizar a bilionária ponte Salvador-Itaparica, agora pernosticamente amarrada ao objetivo de criar “um novo dinamismo no eixo litorâneo sul”, sob a liderança do secretário do Planejamento, José Sérgio Gabrielli, pré-candidato petista à sucessão de Jaques Wagner. Sem qualquer covardia, o português do romancista João Ubaldo Ribeiro costuma ser mais preciso: apesar das estonteantes intenções, a ponte esboçada por grandes empreiteiras pode transformar a Ilha de Itaparica em uma “patética Miami de pobre”. Outras fatias paradisíacas entrarão no balaio do “projeto indutor de desenvolvimento econômico e social, que é o Sistema Viário Oeste (SVO)” – sem mais pormenores, convém esquecer as ambições de empreiteiros no acesso a resorts de luxo, por ora limitados à vida de prancheta.

Nessa nova etapa, o projeto com cifras megalômanas – orçado em R$ 7 bilhões ao melhor sabor latinoamérica – abandona a camuflagem da expansão urbana de Salvador ou o bom-mocismo das facilidades viárias aos moradores de Itaparica, para adotar a roupagem do economês. Manobra de jogador experiente, sem dúvida. Começa a ruir, porém, a arrogância inicial do ex-comissário de infraestrutura João Leão, para quem “os escritores estão de um lado e o povo está de outro”: o professor Gabrielli anunciou “a publicação de editais para contratação de estudos de engenharia e de impactos ambientais”. Os perigos para o meio ambiente eram minimizados pelo governo Wagner e por construtoras, ambos apressados em banhar vigas de concreto na Baía de Todos os Santos, muito embora desaconselhados pelas cautelas legais e por estudos obrigatórios de correntes marítimas e dos danos ao ecossistema.

Antes dos comissários deitarem concreto, movidos pelo espírito progressista que em 1933 demoliu a Igreja da Sé, há tempo para perguntas inadiáveis, além de dezenas de outras cabíveis ao sonho de petistas e empreiteiros:

1. Por que contratar uma consultoria internacional, de 40 milhões, a McKinsey & Company, para realizar a “modelagem econômica e financeira” do projeto?

2. Não é da competência estratégica e vital do Estado estimar, razoavelmente, a viabilidade financeira de seus próprios projetos?

3. Haverá consulta popular (uma bandeira do PT) sobre a legitimidade do projeto bilionário numa capital de carências assombrosas de infraestrutura, a começar pela urbanização e pelo saneamento de bairros populares?

4. Qual será o impacto ambiental sobre a Ilha de Itaparica e as cidades banhadas pela Baía de Todos os Santos, desde sempre ameaçadas pela expansão imobiliária predatória que já abocanhou a orla de Salvador?

5. O que pensa o prefeito ACM Neto a respeito da ponte Salvador-Itaparica?

6. Na Bahia, ainda há jornais e jornalistas dispostos a molestar comissários pouco empolgados com explicações?

7. Qual o impacto da ponte sobre o centro de Salvador, devastado por carros pesados, pela poluição, pela violência e pela ausência de conservação?

8. Por que não há empenho governamental para recuperar o centro histórico de Salvador, o maior atrativo da primeira capital brasileira?

9. Embarcações modernas e gerentes competentes não resolvem o abacaxi da ligação marítima Salvador-Itaparica?

10. Afinal, qual o objetivo que move o projeto do governo do Estado, depois de tantas mudanças de argumentos?

Que seja concedida a licença de perguntar.

Claudio Leal é jornalista.

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Comentários

porumabahialimpa on 31 Janeiro, 2013 at 6:57 #

CLAUDIO
PARABÉNS PELA MATERIA,GOSTARIA DE LEMBRAR QUE JOSE SERGIO FOI COLOCADO NA SEPLAN PARA ¨”TURBINAR”O GOVERNO AI EU PERGUNTO CADÊ A TURBINA???QUAL A CONTRIBUIÇÃO QUE JOSE SERGIO APRESENTOU ATE AGORA??VERGONHA!!!!


Viver, amar e desconfiar « O Purgatório on 31 Janeiro, 2013 at 7:03 #

[…] – pela cidade com tantos espaços caindo aos pedaços. Desconfio quando decidem construir ponte até a Itaparica de João Ubaldo, mesmo sem serem capazes de operar com o mínimo de eficácia um […]


Maria do S. M. Fonseca on 31 Janeiro, 2013 at 13:49 #

Muito bem Claudio, fez todas as perguntas que “nosoutros”, nao jornalistas, gostariamos de fazer! Parabens pela materia!


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