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OPINIÃO POLÍTICA

O hospital e a festa

Ivan de Carvalho

Aparentemente insensíveis ao ataque feroz da seca, as prefeituras de numerosos municípios do semiárido nordestino, inclusive e principalmente baiano, insistiram em promover festas juninas sempre que a ocasião se apresentava.

Nem sempre a decretação de estado de emergência foi obstáculo suficiente para impedir que dinheiro público fosse conduzido para a montagem de estruturas e pagamento de altos cachês a artistas e bandas para que os jovens das cidades balançassem o esqueleto e intensificassem a paquera, os comerciantes incrementassem seus negócios e o índice de satisfação da população das cidades com os prefeitos subisse e lhes aumentasse a chance de reeleição ou de eleger o sucessor.

Enquanto isso acontecia nas cidades – menos atingidas pelos efeitos da seca e mais socorridas com sistemas de abastecimento de água e carros-pipas alugados pelo poder público – nas zonas rurais a devastação era quase total. Geralmente, havia água para as pessoas beberem, mas os animais morriam, quando não de sede, de fome, isso depois do colapso da agricultura.

Numa situação assim, como entender que os parcos recursos municipais – cuja dolorosa escassez não param os prefeitos de lamentar – fossem desviados do combate aos efeitos da seca para bancar festas juninas, assim como carnaval (mais um está chegando) e micaretas e para rechear as contas bancárias de algumas bandas e artistas mais conhecidos?

Ressalvo que não estou me referindo a coisas como o carnaval de Salvador e algumas outras festas. As juninas em Cruz das Almas, Senhor do Bonfim, a micareta de Feira de Santana – cuja tradição faz delas uma atividade econômica efetivamente relevante, inclusive como atração turística e, portanto, capaz de dar ao município o retorno do que gasta, sempre que o que for gasto o seja corretamente. Sem maracutaias.

Mas se estou escrevendo sobre essas coisas assim aparentemente fora de hora é por ter sido provocado pelo que aconteceu na cidade de Sobral, onde nasceu o governador do Ceará, Cid Gomes.

O Estado do Ceará – digamos, o governo Cid Gomes – construiu em Sobral o Hospital Regional do Norte (do Ceará). E então resolveu fazer uma festa de inauguração. E para fazê-la em grande estilo, contratou a baiana Ivete Sangalo.
O cachê da baiana é alto. No caso, foi de R$ 650 mil. Então o Ministério Público Federal do Ceará ingressou com ação na Justiça Federal, acusando o governador de “violar o princípio da moralidade administrativa” ao desviar dinheiro público de sua finalidade.

Pediu que Cid Gomes devolvesse os R$ 650 mil do próprio bolso. Como era previsível, a juíza federal Elise Avesque decidiu que a Justiça Federal não tem competência para julgar o caso, pois não houve dinheiro federal no pagamento do cachê. O Ministério Público estadual omitiu-se, obviamente.

Bem, houve dinheiro estadual. Se o governador houvesse resistido à tentação de fazer festa de propaganda em sua cidade natal e principal base política, ele poderia usar os R$ 650 mil para dotar o novo hospital de equipamento sofisticado de que ainda não disponha, para dar treinamento especial a uma parte do pessoal para usar esse equipamento, para aumentar o número de leitos de UTI, essas coisas. Enfim, vai ver como funciona o SUS no Ceará. E em tantos outros lugares. Mas, não. Tinha que dar o dinheiro para a bela e carismática Ivete, cujo talento lhe permite, se quiser, ganhar dinheiro de sobra sem precisar ser paga com o dinheiro público.

Aliás, há muito que a sociedade brasileira – o contribuinte, basicamente – já deveria estar questionando a sério se o Estado, por intermédio de políticos, deve continuar enchendo os bolsos e bolsas de um monte de artistas melhores e piores, ao invés de gastar o dinheiro público para prover as necessidades do público.

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