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OPINIÃO POLÍTICA

Dilma dá a partida

Ivan de Carvalho

De um modo muito informal, mas nem por isto menos real, a campanha para as eleições presidenciais de 2014 já começou. Alguns lances, mais ou menos discretos ou, digamos, não espalhafatosos já vinham sendo feitos, sem uma data inicial bem definida, mas o chutão que deu um início notoriamente oficial ao jogo – afinal, estamos vivendo a sociedade do espetáculo, às vésperas da Copa da Fifa e correndo para as Olimpíadas – foi o pronunciamento da presidente Dilma Rousseff por uma rede nacional obrigatória de rádio e televisão, que convocou com dois objetivos:

Um, declarado, de anunciar a redução do preço da energia elétrica quando as oposições advertem para apagões e risco futuro de racionamento. É verdade que o governo e principalmente seu setor de energia elétrica andou tremendo nas bases, embora negando os riscos enquanto os apagões se sucediam e até conseguiam surpreender a presidente da República numa solenidade de entrega de casinhas no Nordeste.

Mas nos últimos dias – últimos mesmos, não penúltimos – as chuvas resolveram descer das nuvens, caindo onde não deviam (em Salvador, por exemplo), mas também em regiões onde, se persistirem com a intensidade conveniente no resto de janeiro, em fevereiro e em março, deverão recompor os níveis de água dos reservatórios das hidrelétricas. Isso e as poluentes termelétricas funcionando a toda intensidade podem afastar os fantasmas que assustavam ante previsões que, ao contrário de 2012, estimam um crescimento maiorzinho do PIB – entre 3,3 por cento, o percentual estimado pelo Banco Central e os 4,5 por cento que já viraram quatro por cento do ministro da Fazendo, Guido Mantega. Bom lembrar que no ano passado esse ministro previu também quatro por cento ou mais para o crescimento do BIB, que ficou em um por cento, minimizando apagões e evitando o racionamento de energia elétrica.

O outro objetivo de Dilma Rousseff – ao usar seus poderes de presidente da República para convocar rede nacional obrigatória de rádio e televisão para tratar de assuntos de relevante interesse público – foi o de executar um ato de propaganda política pessoal de máxima amplitude, usando a redução do custo da energia como um pretexto. Na verdade, ela até poderia dar uma declaração aos jornalistas, seu ministro das Minas e Energia dar uma entrevista coletiva para explicar melhor e o setor de comunicação do governo divulgar uma nota detalhada sobre o assunto.

Isso e mais a cobertura normal da mídia resolveria tudo, em relação à informação do público e das empresas sobre o preço da energia. O que somente a rede nacional obrigatória de rádio e tevê e um pronunciamento de conteúdo político ostensivo e eleitoral disfarçado era a propaganda da presidente à reeleição, em um momento em que três outros nomes aumentam a intensidade de seus movimentos: o tucano Aécio Neves, o socialista (aliado do governo) Eduardo Campos e a ex-senadora e ex-candidata a presidente Marina Silva, apressando os preparativos para fundar um novo partido.

A presidente deu um passo perigoso – para ela ou para o país, ou até para os dois – ao usar um instrumento do Estado à sua disposição para o serviço da nação e colocá-lo claramente a serviço da propaganda política de seu governo e, para dar às coisas nome próprio, de sua candidatura à reeleição. Justiça seja feita, até aqui a presidente Dilma Rousseff não havia adotado iniciativa comparável e terá sido, muito provavelmente, mal aconselhada, deixando-se levar a fazer a coisa errada por parecer ela vantajosa. Isso aconteceu muito na mídia da Venezuela (que foi quase toda confiscada ou controlada pelo governo) antes de Hugo Chávez fazer sua quarta cirurgia em Cuba e o pior é que, depois que aconteceu, continua acontecendo.

Aqui aconteceu agora. Há um grande risco de continuar.

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Comentários

jader on 25 Janeiro, 2013 at 8:02 #

Dilma na TV. PSDB sentiu o baque!

Por Altamiro Borges, em seu blog

O PSDB divulgou hoje à tarde uma nota oficial confessando que sentiu o baque com o pronunciamento de Dilma Rousseff em rede nacional de rádio e tevê na noite de quarta-feira. Os tucanos adoram a “liberdade de expressão” dos “calunistas” da mídia. Eles têm orgasmos com as análises “imparciais” de Miriam Leitão, Merval Pereira, Ricardo Noblat e até com os rosnados dos pitbulls da Veja. Mas ficaram indignados com a presidenta, que anunciou à nação a redução das contas de luz e retrucou os “pessimistas” de plantão. A tal “liberdade de expressão” da direita não contempla sequer a presidenta eleita pela maioria dos brasileiros.

Na nota oficial, o PSDB afirma que “o governo do PT acaba de ultrapassar um limite perigoso para a sobrevivência da jovem democracia brasileira. Na noite desta quarta-feira, o país assistiu à mais agressiva utilização do poder público em favor de uma candidatura e de um partido político: o pronunciamento da presidente Dilma Rousseff… Durante os oito minutos de divulgação obrigatória por parte das emissoras de rádio e TV brasileiras, a presidente Dilma faltou com a verdade, fez ataques a seus adversários, criticou a imprensa e desqualificou os brasileiros que ousam discordar de seu governo”.

Na maior caradura, a nota afirma ainda que “o conceito de República foi abandonado. A chefe da Nação, que deveria ser a primeira a reconhecer-se como presidente de todos os brasileiros, agora os divide em dois grupos: o ‘nós’ e o ‘eles’. O dos vencedores e o dos derrotados. Os do contra e os a favor. É como se estivesse fazendo um discurso numa reunião interna do PT, em meio ao agitar das bandeiras e ao som da charanga do partido… No governo do PT, tudo é propaganda, tudo é partidarizado”.

Os tucanos, que minguam a cada eleição, parecem que esqueceram a postura autoritária que adotaram no triste reinado de FHC. Exército acionado para reprimir os grevistas da Petrobras, ações truculentas contra ocupações de terras ociosas, rolo-compressor no Congresso Nacional, submissão do Judiciário e relação promíscua com os barões da mídia. Quem sempre desqualificou os adversários foram os caciques tucanos, que acusaram os que resistiram à privataria das estatais e à retirada de direitos trabalhistas de “dinossauros”. Para usar uma famosa expressão de FHC, os tucanos agora repetem o blablablá dos derrotados.

A reação intempestiva e patética do PSDB ao pronunciamento da presidenta confirma porque a direita teme tanto a regulação democrática da mídia. Ela quer manter o monopólio da palavra nas emissoras de rádio e TV, que são concessões públicas. Ela quer garantir a exclusividade de espaço para os seus porta-vozes na radiodifusão, para os seus “calunistas” amestrados. O PSDB sabe que só sobrevive hoje graças à “turma do contra” da mídia venal. Quando Dilma utilizou um direito constitucional, a direita sentiu o baque!


jader on 25 Janeiro, 2013 at 13:02 #

“E é justamente por isso que a nota de Sérgio Guerra, um texto que parece ter sido escrito por um adolescente do ensino médio em pleno ataque hormonal de rebeldia, é, antes de tudo, um documento emblemático sobre o desespero político do PSDB e, por extensão, das forças de oposição.

Essas mesmas forcas que acreditam na fantasia pura e simples do antipetismo, do antilulismo e em outros venenos que a mídia lhes dá como antídoto ao obsoletismo em que vivem, sem perceber que o mundo se estende muito além das vontades dos jornalões e da opinião de penas de aluguel que, na ânsia de reproduzir os humores do patrão, revelam apenas o inacreditável grau de descolamento da realidade em que vivem.”
Este último parâgrafo diz tudo sobre esta opinião política.O Texto completo está em :
http://www.cartacapital.com.br/politica/nota-de-falecimento/


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