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OPINIÃO POLÍTICA

Oposição de brinquedo

Ivan de Carvalho

Existe, no Senado Federal e na Câmara dos Deputados, uma tradição não escrita e nem sempre seguida, de que, a maior bancada partidária em cada uma dessas Casas legislativas indica o nome para sua presidência. É uma tradição ou praxe, não uma imposição.

O que a Constituição da República (sem precisar falar em repetição que dela fazem os respectivos regimentos internos) determina é que o presidente do Senado e o da Câmara (assim como os demais integrantes das Mesas Diretoras das duas Casas) serão eleitos pelo plenário em votação secreta.

Tratando-se de eleição é óbvio que pode haver concorrência e os concorrentes, necessariamente integrantes da Casa legislativa, podem se apresentar livremente, independentemente de partido ou apoio de quaisquer legendas, bancadas ou de algum número de integrantes. Por mera iniciativa individual o pretendente à presidência da Câmara ou do Senado pode se inscrever e concorrer. E o voto é secreto, livre, leve e solto. Pelo menos pela Constituição e na teoria.

Pois no começo de fevereiro o Senado e a Câmara elegerão cada um sua Mesa Diretora. O PMDB é a maior bancada no Senado e, “pela tradição”, está indicando para suceder o peemedebista José Sarney outro mui ilustre peemedebista, Renan Calheiros, que já presidiu o Senado e foi obrigado a renunciar para não ter seu mandato cassado por se haver envolvido em um escândalo.

Diante desse fato, alguns poucos senadores se manifestam inconformados e intentam lançar um candidato. O PSDB, principal partido das oposições, deu a entender que gostaria de apoiar um peemedebista, que, rebelando-se contra a maioria da bancada do PMDB, se candidatasse. Mas não apareceu ninguém. Então surgiu o senador Randolfe Rodrigues, do PSOL, cuja candidatura os tucanos imediatamente consideraram “isolada”. A bancada de dez senadores do PSDB poderá dar seu voto ao senador Pedro Taques, do PDT, se ele se mantiver candidato até o fim. Do contrário, os tucanos acabariam votando em Renan Calheiros, ainda que docemente constrangidos.

Aliás, Randolfe Rodrigues acusou o PSDB de, ao descartar sua candidatura, estar jogando para desarticular qualquer oposição séria à candidatura de Renan Calheiros como sua parte em um acordo com o PT para que o governador tucano Marconi Perillo, de Goiás, não fosse indiciado na CPI do Cachoeira.

Na Câmara dos Deputados o grande favorito para a presidência é o deputado Henrique Eduardo Alves, do PMDB, que não tem a maior bancada na Casa, mas fez um acordo com o PT. Henrique Eduardo Alves está fazendo sua campanha sob uma bateria de pesadas acusações envolvendo “malfeitos”, segundo a nomenclatura preferida pela presidente Dilma Rousseff para esse tipo de coisas.

O PT e sua bancada na Câmara está firme no apoio, não havendo disposição para levantar questões éticas, o que, reconheça-se, é até coerente com o fato de que seu principal líder, o ex-presidente Lula, haja ganho ontem o Troféu Algemas de Ouro – 2012, prêmio criado pelo Movimento 31 de Julho, grupo anticorrupção que atua na Internet e que, pelo Facebook, mobilizou mais de 14 mil pessoas.

Os analistas não consideram com chances significativas de vencer a eleição de presidente da Câmara o desafiante Julio Delgado, do PSB de Minas Gerais. As coisas poderiam começar a ficar confusas se a oposição unida desse seu apoio a Delgado, mas o PSDB, principal partido das oposições, está quase tão próximo da candidatura de Henrique Eduardo Alves quanto o PMDB, partido dele e o PT, parceiro do PMDB no acordo feito para que o PT tivesse o presidente da Câmara nos primeiros dois anos da Legislatura e o PMDB, nos dois últimos.

E o PMDB nem tem a maior bancada da Câmara, enquanto o acordo entre este partido e o PT é problema deles dois, não do PSDB. Difícil entender o modo tucano de fazer oposição.

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