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OPINIÃO POLÍTICA

Cavalos, jegues e caranguejos

Ivan de Carvalho

A mais nobre e honrosa tarefa jamais atribuída a um jumento em toda a história da humanidade e dos jegues foi a de servir de montaria a Jesus Cristo, naquele dia a que hoje chamamos de Domingo de Ramos, o primeiro dia da semana em que Nosso Senhor seria crucificado. Jesus percorreu as ruas de Jerusalém montado no animal que jamais havia sido antes montaria, e, durante todo o trajeto, Jesus foi saudado intensamente pela multidão, que agitava folhas de palmeira ao longo das ruas estreitas da cidade. Mas o jumento, pode-se afirmar com certeza, não se estressou.

Não se pode garantir o mesmo dos cavalos do Dois de Julho e dos jegues da Lavagem do Bonfim. Os últimos transportam cargas no lombo ou puxam carroças e os primeiros, levam cavaleiros comuns. Não se pode contar que esses cavalos e jegues fiquem livres do estresse pelo sossego e a paz que o jumentinho de Jerusalém certamente desfrutava, por contágio, d’Aquele que o montava.

Mas também o sacrifício imposto a jegues e cavalos na Lavagem do Bonfim e no Dois de Julho não é tão grande como sugere a luta – por intermédio, inclusive, de ações judiciais – para impedir a participação deles nessas duas festas. Não estou dizendo que a utilização de cavalos e jumentos nessas duas festas seja elogiável, mas penso que também não deve ser considerada como crueldade ou “maus tratos”.

Afinal, desde que foram domesticados, a milhares de anos, cavalos transportam cavaleiros e puxam carros e os jumentos, além dessas coisas, mais costumeiramente levam pesadas cargas nos lombos. Os camelos carregam preferencialmente os árabes e os elefantes, os hindus, enquanto as renas (Papai Noel que o diga) e cachorros são especializados em puxar trenós. Mais triste é quando cavalos são usados por humanos para ajudá-los a matar ou espancar e reprimir outros humanos. Gatos e cachorros vadios (aqueles que não encontraram alguém da espécie humana que cuide deles) são simplesmente exterminados pelo poder público ou, no caso dos gatos, em certos lugares como o Rio de Janeiro, para fazer tamborins.

As entidades e pessoas que se preocupam com o estresse e o esforço possivelmente exagerado de cavalos e jegues no Dois de Julho e na Lavagem do Bonfim deviam focar muito mais sua atenção nos badalados rodeios, onde os animais muitas vezes são torturados para que aumente seu desempenho. As tradicionais touradas estão em processo de extinção na península ibérica, mas os rodeios, que incluem requintes de crueldade, vão muito bem no Brasil.

O pleno do Tribunal de Justiça da Bahia decidiu em agosto que, “por questões de ordem cultural”, a participação de cavalos e jegues em eventos como o Dois de Julho e a Lavagem do Bonfim não sofre proibição legal. Mas deu um novo e bom passo ao determinar que haja uma fiscalização para que os animais não sofram maus tratos.

Aliás, nessa questão de maus tratos, ressalvando o enredo da tocante música Assum Preto e o absurdo de prender passarinho em gaiolas (já que eles nascem com asas e nada fazem que devam ficar presos), parece que a questão dos maus tratos só é considerada em relação aos mamíferos e desde que não sejam eles parte da indústria da carne. É hora de ampliar o conceito. Segundo reporta o site da Folha de S. Paulo, uma experiência científica com 90 caranguejos-verdes, muito comuns nas praias europeias, demonstrou que eles sentem dor. Eles não podem reclamar nem gritar. Foram postos em um aquário em que havia um abrigo escuro. Eles amam abrigos escuros. Mas a alguns dos que entraram lá foi aplicado um choque elétrico. Repetiram a experiência mais duas vezes. Depois do terceiro choque, os caranguejos “chocados” – e só eles – não entravam no abrigo escuro. Para eles, o abrigo escuro era a fonte presumida da dor. “Do ponto de vista filosófico é impossível demonstrar de forma absoluta que um animal sente dor”, disse Bob Elwood. No entanto, todos os critérios coerentes com a chamada dor foram reunidos nas experiências, acrescentou.

Você ainda vai jogar caranguejos vivos na água fervente?

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