======================================================

OPINIÃO POLÍTICA

Os ingleses outra vez

Ivan de Carvalho

Lá vêm os ingleses outra vez. O jornal Financial Times, no seu blog Beyond Brics, qualificou os dois principais agentes da equipe econômica brasileira – o ministro da Fazenda, Guido Mantega e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de “profissionais do jeitinho brasileiro”.

Depois de uma breve explicação sobre o significado de “jeitinho brasileiro”, o Financial Times afirmou que as duas autoridades estão usando artifícios pouco usuais, ainda que legais, na condução da política econômica e financeira do Brasil. “Com crescimento ainda lento e preços subindo mais do que esperado, o presidente do Banco Central e o ministro da Fazenda também estão ficando profissionais do jeitinho, embora de forma legal”.

É evidente que à conta do jeitinho brasileiro, ainda que não haja explicitado, o jornal inglês creditou as recentes cambalhotas financeiras feitas pelo governo para dizer que atingiu – sem haver atingido, na realidade – a meta de superávit primário, destinado ao pagamento do serviço da dívida pública.

De acordo com o jornal inglês, Mantega pode ser considerado um “expert” no jeitinho, pois passou os últimos anos “brincando” com impostos para tentar gerenciar o crescimento econômico e o câmbio. Uma dessas brincadeiras certamente consistiu nas desonerações temporárias de certos produtos (a exemplo do IPI nos automóveis e eletrodomésticos) para, ao lado do crédito fácil e a longo prazo, induzir ao consumo.

Outro exemplo do “jeitinho brasileiro” na economia está sendo dado agora e foi citado pelo jornal britânico. O governo federal pediu às prefeituras de São Paulo e do Rio de Janeiro (cujos prefeitos, o primeiro do PT e o segundo, do PMDB, atenderam) para adiarem o aumento que ia ser aplicado nos valores das tarifas dos ônibus. O objetivo do adiamento para meados do ano é evitar o impacto que esse reajuste de tarifas teria sobre a inflação ela superaria os 0,80 por cento previstos para janeiro, atingindo ou ultrapassando 1 por cento e ficaria muito perto de 6,5 por cento no acumulado dos últimos 12 meses, o que, presume-se, deixaria os investidores desconfiados.

Claro, adiar o aumento das tarifas dos ônibus em São Paulo e no Rio de Janeiro por uns meses é legal, mas se enquadra na filosofia do “jeitinho brasileiro”. Em São Paulo, a tarifa está em R$ 3,00 há dois anos e se fosse reajustada para corrigir toda a inflação do período, iria para R$ 3, 36. No Rio, uma correção de 5,5 por cento e a nova tarifa de R$ 2,90 já haviam sido anunciadas para entrar em vigor a primeiro de janeiro, mas o ministro da Fazenda, arrancando alguns dos últimos fios de cabelo, pediu o adiamento ao prefeito Eduardo Paes. Em tempo: na capital baiana a prefeitura mexeu nas tarifas em junho passado.

O que o Financial Times e, um pouco antes dele, a revista The Economist vêm apontando é um artificialismo financeiro e econômico, praticado dentro da lei, mas com o propósito evidente de driblar a realidade, que certamente estará esperando na próxima esquina para dar o bote. A revista chegou a sugerir, em editorial, a demissão do ministro Guido Mantega como, digamos, um “jeitinho” para a presidente Dilma Rousseff recuperar a confiança dos investidores e conseguir um segundo mandato. The Economist chegou a chamar a economia brasileira de “criatura moribunda”, ao se referir ao crescimento do PIB em apenas 0,6 por cento no terceiro trimestre do ano passado, metade do que previra Mantega.

Mas vamos – embora admitindo como verdadeiras as acusações das duas publicações britânicas – ser francos. Em matéria de “jeitinho”, o Financial Times e a The Economist inglesas deveriam estar muito mais preocupadas com a economia americana, onde, nos últimos anos, outra coisa não se faz a não ser aplicar “jeitinhos” sucessivamente superados pela realidade, que leva o governo a novos jeitinhos, não havendo a menor garantia de que tudo vai acabar bem

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos