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DEU NO ESTADÃO

CRISTINA PADIGLIONE

O Estado de S.Paulo

Captar uma Bahia documental, sem cair nas “armadilhas” que aquele cenário de Dorival Caymmi costuma pregar em quem se dispõe a registrá-la: essa foi a meta estabelecida por José Luiz Villamarim, diretor-geral da microssérie O Canto da Sereia, para a concepção da nova produção da Globo (estreia terça-feira, 8). E que armadilhas são essas Zé? “É o que o (ator) João Miguel fala: você vai se encantando com aquele cenário, aquelas pessoas e começa a fazer muita graça com isso”, explica o diretor. Sem desmerecer a Bahia alegórica vista em outras produções, o diretor cita aquela máxima de que baiano não nasce: estreia. E é sempre o último a falar, sabe como encantar o seu interlocutor.

Daí o propósito de buscar uma Bahia contemporânea, cosmopolita, e tentar escapar da Bahia de Jorge Amado, mais farsesca. Assim como a protagonista da série, Villamarim emendou o expediente atual com Avenida Brasil, novela em que assinava a direção-geral ao lado de Amora Mautner. Era ele o responsável pelo primoroso núcleo do lixão, com Mãe Lucinda (Vera Holtz) e Nilo (José de Abreu), entre outros destroços do Divino.

“Estou atrás de uma coisa mais realista, é isso que tem me interessado muito, tanto aqui como em Avenida Brasil: tudo o que eu fiz no lixão tem um pouco dessa pegada. É lógico que tem a parte dramática, mas tem a pesquisa, tem um tom de emoção com os atores, uma câmera bem solta”, diz. O diretor fala muito em interpretação e câmera “orgânica”, o que significa deixar o ator à vontade, mergulhado no resultado de um intenso processo de pesquisa, e a lente à mercê de sua atuação.

Nesse contexto, o ator não é escravo da marcação e se liberta do gesso que a televisão muitas vezes lhe impõe, com ditaduras de iluminação e fotografia. “Ele come de fato, caminha de fato, e a câmera vai junto com ele, sem aparecer demais”, sem ocupar o lugar principal, digamos. É um processo que deu resultado em Avenida Brasil, permitindo, inclusive, que o elenco pudesse criar improvisos em cena e se aproximasse de gestos da vida real.

“A Sereia não é nenhuma das cantoras baianas, mas nós temos as Ivetes, as Cláudias, as Danielas de verdade. Assim como o Tuta Tavares (Marcelo Médici) é um publicitário, como tantos publicitários conhecidos da Bahia, onde tem Nizan (Guanaes), Duda (Mendonça) e outros”, fala o diretor.

No set, uma equipe “híbrida”, como diz Villamarim, mescla gente de cinema e TV, de roteiristas como Patrícia Andrade (2 Filhos de Francisco) ao diretor de fotografia Walter Carvalho, que tem ajudado muito a alcançar o que Nelson Motta, autor da obra original, chama de “noir baiano”. “Estamos fazendo um policial brasileiro, não quero beber na fonte americana. Por isso escalei o Marquinhos (Palmeira) para fazer o detetive, ele tem uma cara brasileira mesmo.”

Entre uma cena e outra, Villamarim conta que conversou muito com Carvalho, a quem chama de “Waltinho”, sobre a “querência” despertada por um local ou por uma prosódia, como acontece em Salvador. “A gente conversou muito sobre o que é esse Brasil.”

A câmera, uma Alexia digital – a melhor que existe hoje, segundo o diretor -, também conspirou a favor da fluidez do ator em cena. Ela elimina a “dureza” das câmeras analógicas e “amacia”, como ele diz, a imagem, lhe emprestando uma textura de “veludo”. “Não quero pensar que quero este determinado quadro, não é o quadro que me interessa, é o que vai ter de verdade nessa cena, mas é claro que tem uma fotografia caprichadésima, uma luz, a gente tem a paleta da cor, que tem um peso importante: vamos fazer uma minissérie quente.”

Não que ele queira reinventar a roda. Sabe que nada assim tão inédito pode ser feito, mas persegue a ideia de fazer um produto “com frescor”, de “cara nova”, aproveitando os recursos técnicos que a televisão dispõe hoje.

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Comentários

vangelis on 6 Janeiro, 2013 at 17:43 #

“Daí o propósito de buscar uma Bahia contemporânea, cosmopolita, e tentar escapar da Bahia de Jorge Amado, mais farsesca.”

Que diabo será isso?

– Eu hein!!!


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