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OPINIÃO POLÍTICA

Instabilidades da política

Ivan de Carvalho

Ainda é muito recente para deixar de ser mencionada a surpreendente (para os desatentos) e espetacular queda do império comunista construído a partir da revolução de 1917 na Rússia. Sem prévia sinalização, Mikhail Gorbachev, o líder máximo do grande império militantemente ateu, sai do Kremlin, é cercado por populares e jornalistas na Praça Vermelha e começa uma conversa espontânea com a óbvia determinação de pronunciar, em russo, a propósito de alguma coisa, uma pequena e gigantesca frase mágica: “Graças a Deus”.

Pronto. Ali fora posto abaixo, politicamente, um dos dois pilares do marxismo – o “materialismo histórico”, com seu corolário, o ateísmo. Qualifiquei de surpreendente para os desatentos a queda do grande império soviético porque atentos observadores já teriam notado no livro do profeta Isaías, no Antigo Testamento, a frase que terá parecido enigmática quando foi produzida: “E quebrou-se o martelo de toda a Terra”. Mas, no tempo próprio, seu significado tornou-se claro, principalmente para bons entendedores, aos quais meia palavra basta – a ausência de referência à foice não desqualificava a profecia.

Para quem não foi atento ou não foi informado. O estigmatizado italiano Giorgio Bongiovanni encontrou em Assunção, no Paraguai, a rainha Sofia, da Espanha. Mostrou a ela os estigmas de Jesus crucificado. Em 27 de outubro de 1990, em Madri, a rainha Sofia apresentou Bongiovanni a Gorbachev, presidente da União Soviética e a sua mulher, Raissa. O estigmatizado pede a Gorbachev permissão para dar a conhecer a Terceira Mensagem de Fátima na URSS. Mais tarde, o italiano vai à URSS e tem acesso a rede nacional de televisão. Gorbachev, em outra ocasião, também recebe em Roma o papa João Paulo II e o apresenta, publicamente, como “o santo padre”. Foi assim destroçado o ateísmo oficial soviético.

Demonstrada, em um único exemplo, a instabilidade natural da política (apesar de restar o mistério da profecia multimilenar de Isaías para o caso citado), vale uma referência para o que parece ser, de longe, o fato político mais importante na Bahia neste início de ano – a posse e início da administração do democrata ACM Neto à frente do governo de Salvador.

A perspectiva é a de que ele exercite integralmente seu mandato de quatro anos e, chegando com boa aprovação ao final, busque a reeleição. Aí, sim, cumpriria apenas uma parte do mandato para disputar uma outra eleição majoritária em 2018. Preferencialmente para governador, mas, por conta mesmo das instabilidades da política a que estamos nos referindo, eventualmente a senador, para buscar o governo mais adiante. Mas isso já jogaria as coisas para 2022 e é querer especular além dos limites razoáveis.

De qualquer modo, ainda por conta da instabilidade da política, é improvável, mas não se pode descartar absolutamente uma candidatura de ACM Neto a governador em 2014. Se o governo Wagner estiver com muita dificuldade político-eleitoral, se o governo Dilma Rousseff tiver fortes dificuldades na economia em 2013 e 2014, se Lula estiver bem menos popular que hoje, se a coalizão governista estadual liderada pelo PT escolher um candidato política e eleitoralmente difícil.

No entanto, se Neto – que começou bem na posse e seguiu bem ontem, no primeiro dia efetivo de governo – eventualmente quiser partir para o grande desafio da candidatura a governador em 2014 (já disse isso antes neste espaço) terá que convencer o eleitorado da capital (e até do estado) de que é responsável, de que estará deixando a cidade em mãos competentes. Esse é um ponto crucial.

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