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OPINIÃO POLÍTICA

Raios e apagões

Ivan de Carvalho

A presidente Dilma Rousseff disse ontem que é “ridículo” afirmar-se que o país corre o risco de sofrer racionamento de energia elétrica.

Ela, que já foi ministra das Minas e Energia durante a maior parte do primeiro mandato presidencial de Lula da Silva, poderia talvez ter acrescentado que este risco existia caso o Brasil continuasse apresentando um crescimento do Produto Interno Bruto similar ao dos últimos anos da década passada.

Felizmente, se é que podemos dizer assim, isso não aconteceu. Por conta da crise financeira e econômica global e por causa de algumas causas genuinamente internas, o crescimento do PIB desabou e – apesar de “medidas pontuais” desesperadamente repetidas e que já deram sinais de completa fadiga – tornou-se insignificante no terceiro trimestre deste ano. As perseverantes previsões otimistas do ministro da Fazenda, Guido Mantega, já estão sendo objeto de brincadeiras e piadas na mídia internacional.

Já houve uma experiência anterior de severo racionamento de energia. Durou de 1º de julho de 2001 a 27 de setembro de 2002, durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Todo consumo que ultrapassasse o estipulado pelo governo para cada consumidor, segundo um cálculo que levava em conta o consumo médio anterior, gerava uma sobretarifa.

Então, os consumidores foram forçados a gastar menos para ajudar o país e defender os próprios bolsos. Mas este último objetivo, pelo menos, não conseguiram satisfazer. Isto porque, após obrigá-lo a consumir menos energia para não pagar demais, o governo, bem depois de encerrado por generosas chuvas o racionamento, resolveu obrigar os consumidores a pagarem mais porque haviam consumido menos.

É que as empresas de distribuição de energia haviam faturado menos, por venderem menos energia (que não tinham para oferecer, por causa da geração insuficiente por falta de água nas hidrelétricas) e precisavam recuperar seu prejuízo, melhor dizendo, seus lucros cessantes. Foram buscá-los, com a pressurosa ajuda do governo, nos bolsos dos consumidores, mediante a imposição de uma sobretaxa para compensar o consumo reduzido a que fora obrigado.

Depois do racionamento, o país lançou-se em um apressado programa de compra e montagem de usinas térmicas de geração de energia, usando óleo como combustível. Essas usinas e principalmente – como já assinalado – o nível inexpressivo de crescimento do PIB é que permitem à presidente Rousseff considerar “ridículo”, no momento, dizer que há risco de racionamento.

Mas os apagões, eles continuam. Enquanto ontem ela descartava a hipótese de racionamento, da qual o PSDB falara nos últimos dias, moradores de dezenas de bairros do Rio de Janeiro ficaram sem energia na quarta-feira, em alguns casos por mais de 12 horas seguidas. Problemas semelhantes já ocorreram várias vezes neste mês.

Em quase todos os casos de apagões nos anos recentes, o governo sempre atribuiu a culpa a algum raio que atingira, ora uma subestação de não sei onde, ora uma linha de transmissão, causando uma sobrecarga que acionava os sistemas automáticos de desligamento como proteção da rede. Pois agora a presidente da República diz (disse ontem) que não tem nada disso. Quando uma interrupção do fornecimento de energia for atribuída à queda de um raio, “vocês gargalhem”, sugeriu aos jornalistas. “Raio cai todo dia. Um raio não pode desligar o sistema”.

Então, o que houve realmente em cada uma das vezes em que se disse que um raio foi responsável por um apagão? “Se cai (o sistema), é falha humana. Não é sério dizer que o sistema caiu por causa de um raio”, garante a presidente. Quais foram os responsáveis pelas falhas? E quem não foi sério ao invocar a teoria do raio?

O caso merece uma investigação. Mas, séria.

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