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‘Let’s go’

Caetano Veloso

Por algum motivo, estranhei os autdoors de Salvador. Vindo do aeroporto, já me habituei a ver dezenas desses cartazes gigantes (que no Brasil ficaram com o nome de “outdoor”, embora os de língua inglesa não os chamem assim). São fotografias de cantores alardeando shows e bailes, são anúncios imobiliários, é propaganda política, são reclames de eletrodomésticos ou de carros. Como em toda parte. Desta vez, senti inveja da São Paulo do “Cidade Limpa”: como ficaria Salvador sem esses gritos visuais? Mas havia algo nas próprias imagens exibidas que me causava entranheza. Uma combinação do uso de photoshop com o material em que as figuras são impressas, a disposição gráfica e o tipo das letras, a textura brilhante do papel (seria plástico?), sua aparente finura, tudo me deu a impressão de provincianismo melancólico. Estaria eu de fato adentrando a cidade de Nizan Guanaes e Duda Mendonça? Teriam sido os autdoors baianos sempre assim esquisitos e eu é que tinha uma receptividade especial que desta feita não se faz presente? Pode ser. Mas duvido.

O lugar está extraordinariamente bonito na luz. As cores estão tão puras que dá vontade de fazer um filme todo baseado na interferência da cor sobre as relações humanas. Os outdoors estão sobrando. Mas há algo neles além disso. Eu preferiria me livrar deles, mas sinto que, já que existem, poderiam ser bem melhores. No Rio e em Nova York são melhores (falando em Nova York, volto a conversar com Sergio Flaksman sobre a grafia do nome da cidade norte-americana: já aceitei “Nova York”, dadas a consagração da forma e a volta do “k” e do “y” à escrita do português, mas já perguntei como ficaria “novaiorquino” — e agora fico sabendo da existência de um município no Maranhão chamado Nova Iorque, com o nome da velha cidade inglesa grafado assim, como eu e o “Jornal do Brasil” fazíamos até pelo menos o início dos anos 00. Mas Sergio certamente nem lê esses artigos meus aqui).

No quarto do hotel onde estou hospedado vejo uma revista que se chama “Let’s Go, Bahia”. Há dois números expostos sobre a mesa. Na capa de um, vê-se Jorge Amado vestido com o fardão da Academia Brasileira de Letras, olhando-se no espelho. No outro, Luiz Caldas com uma camisa vermelha. Não tive tempo de abrir as revistas para ler. Mas já vi que tem uma entrevista com Sérgio Gabrielli numa delas.

A Bahia é um lugar gozado. Aqui a gente sente tudo que se relaciona com os conceitos de “colonial” e “pós-colonial”. Mas as sementes lançadas por Edgard Santos nos anos 50 e 60 ninguém conseguiu matar. Vejo frutos de seus arbustos em Wagner Moura e João Miguel; no Olodum e em Ivete Sangalo; mais que tudo, na(s) orquestra(s) Neojibá. Pareceu-me que nada há disso nos outdoors. Estes parece que sucumbiram às forças que tentam empenhadamente desfazer o plantio do Reitor.

O cantor e compositor Paquito (que me impressionou nos anos 80 por liderar uma banda de rock chamada Flores do Mal e conhecer minuciosamente a tradição do samba brasileiro) não gosta de carnaval. Escreveu um artigo apavorado com a promessa (ameaça?) feita pelo prefeito eleito, ACM Neto (Mini Me?), de fazer dois carnavais no ano da Copa. Paquito reclama — com razão — do barulho: ele mora no Campo Grande, então um carnaval por ano já é, para ele, catástrofe suficiente. Ele brande a realista estatística: 70% do povo de Salvador não gostam de carnaval. Ou pelo menos não se interessam por ele. Mas 30% de uma população de 3.000.000 (?) gostarem de ir pular na rua ao som de música amplificada eletronicamente é muita coisa. É força grande. O novo prefeito — e os futuros prefeitos — tem de encontrar os meios e modos de resolver a equação.

Antes dos caminhões eletrificados, o carnaval já era um estorvo para quem não gostava. Batuques pela noite afora impediam moradores do rés do chão de dormirem fundo. Fanfarras e gritos perto da janela enervavam pais de família pouco momescos e senhoras carolas. A chegada dos trios elétricos aumentou os decibéis. E o desenvolvimento de banda de rock inglês que os caminhões de trio atingiram leva o incômodo até os andares mais altos das torres residenciais do Corredor da Vitória. Sabemos que o carnaval baiano é uma glória de energia e propicia empregos sazonais em escala importante. Mas temos de organizar o movimento de modo a deixar menos infelizes os cidadãos não engajados.

No show de Baby na Concha Acústica, havia cambistas vendendo “cortesias” a quem estava na fila para comprar ingresso. Será uma outra marca de atraso? Não sei. A Bahia me encantou mais nesses dias do que em outros recentes. Mas estou triste e preciso ver o que está errado e deve ser consertado.


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