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Postado em 22-12-2012
Arquivado em (Artigos) por vitor em 22-12-2012 11:13


Dona Cecília, a mãe do cronista

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Meus caros Caetano e Bethânia

Janio Ferreira Soares

Leio que Dona Canô continua internada e talvez passe o Natal no hospital (BP: ela teve alta ontem e foi para casa em Santo Amaro). Sei que pode parecer intromissão de minha parte lhes sugerir algo numa hora dessas, mas o faço por experiência própria. Cancelem todos os compromissos e combinem com minha querida Mabel um revezamento diário na guarda daquela que é a canção mais importante de suas vidas, composta num tempo em que o mundo ainda se permitia acústico.

Vocês devem ter visto uma entrevista de Fernanda Montenegro na Folha de São Paulo, onde ela diz: “É inevitável. A velhice chega, os filhos têm suas vidas, suas casas e suas necessidades. Há uma preocupação de que é preciso dar atenção à famosa terceira idade. É um desassossego para os dois lados”. Ela tem toda razão. De uns tempos pra cá, nos acostumamos ao trivial telefonema para sabê-las bem e elas aprenderam a disfarçar para se dizerem fortes. E o resultado é que continuamos nesse “me perdoe à pressa…, qual, não tem de quê!”, que apenas vai adiando o inevitável encontro que fatalmente acontecerá na frieza de um quarto de hospital, onde o medo e a esperança estarão ali, ó, juntinhos, passeando com as mãos impregnadas de álcool gel.

Minha mãe chamava-se Cecília e, como a de vocês, também usava cabelos em coque e era dona de um sorriso arrebatador. Há menos de um mês ela se foi entre tubos, bips e uma turma de jaleco branco quase tão fria quanto a temperatura antibactérias da UTI. Enquanto lúcida, voltamos a ser crianças nas ruas de Glória, chupamos manga, umbus e tamarindo, tomamos banho de chuva e de rio, comemos um belo pirão de bode e rimos muito de nossos papéis (eu, uma mãe sem o mínimo instinto em sê-la, cuidando de meu lindo bebê com olhinhos neblinados implorando uma mão que apertasse a sua, um pingo de água para umedecer seus lábios, ou uma ajeitada na manta que teimava em deixar seus pés desnudos). A recompensa? Além de uma melhor aceitação da perda, um “eu te amo, meu filho!” daqueles que nunca mais ouvirei igual. Melhoras pra sua mãe e um Feliz Natal pra todos nós.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, lado baiano do Rio São Francisco

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Comentários

Mariana Soares on 22 dezembro, 2012 at 18:02 #

É isso aí, que se dê flores em vida, que se cuide, se ame, que se beije e abrace, que se diga “eu te amo”, que se doe e fique perto, mesmo longe, pois quando as nossas mães se vão, não há nada que tape o buraco que fica. Nada nunca mais é igual!
A dor que fica não tem remédio que cure!
Linda e emocionante sua crônica, Janio! Sei muito bem do que você esta falando!
Feliz Natal! Um abraço bem forte e carinhoso para você!


Celia Kitsuta on 22 dezembro, 2012 at 22:53 #

Lembrei-me de Almodovar, inconsolável, quando mais ou menos aos 50 lhe morreu a mãe: agora sou órfão!


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