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ARTIGO DA SEMANA

Em nome de Luiz Gonzaga

Vitor Hugo Soares

Treze de dezembro de 2012 é uma data para não esquecer. Na quinta-feira o país viveu uma espécie de trégua não declarada nos combates da guerra política, jurídica e midiática das últimas semanas. De ponta a ponta, o Brasil foi unificado e pacificado na celebração do centenário de nascimento do pernambucano de Exu, Luiz “Lua” Gonzaga.

Parecia um toque mágico da sanfona que fazia (e continua fazendo, graças aos milagres da tecnologia) um povo inteiro parar para ouvir. Deu-se o reencontro, mesmo que apenas momentâneo, dos brasileiros com a Nação. Com direito a registro jornalístico digno e sem preconceitos ou ofensas desde o Jornal Nacional, da Globo, à Rádio Caraíbas, no sertão seco da baiana cidade de Irecê.

“Foi bonita a festa, pá”, imagino que tenham repetido Chico Buarque e os portugueses ao mesmo tempo, lembranças do 25 de abril da Revolução dos Cravos à parte.

Do Recife inteiro e Salvador, à Feira de São Cristovão e o Leblon, no Rio de Janeiro. De São Paulo, dos nordestinos e de gente de todo lugar, à Brasília sempre nervosa e inconstante da política e do poder oficial, dos burocratas, dos empresários em trânsito e seus lobistas, dos magistrados, mas também do povo herdeiro dos candangos da cidade, para os quais Gonzagão cantou com especial carinho e entusiasmo.

De Fortaleza, no Ceará da gente do Cariri amado pelo Rei do Baião, aos salões e gabinetes de Paris, Barcelona e Moscou, por onde passaram nestes dias de tumultos, desafios e desabafos a mineira Dilma Rousseff, presidente da República, e sua caravana em périplo europeu. Além do conterrâneo do grande homenageado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, personagem mais atacado e cuspido ultimamente em seu país que a Geni, da Ópera do Malandro. Luiz Gonzaga era assim: falava e cantava de tudo e para todos, apesar de sua declarada opção preferencial pelos mais simples e humildes, “meus irmãos nordestinos”, como ele gostava de dizer. < /span>

O fato relevante a ser destacado, no entanto, é que no ambiente de tumulto, recheado de acusações e contra-acusações, documentos “sigilosos” vazados pousando nas redações, intrigas a granel, adjetivos de sobra, substantivos em falta -, abriu-se de repente o espaço para um momento belo e exemplar – embora cada vez mais raro – de entendimento e celebração nacional. Um encontro dos brasileiros com a Nação, mesmo que isso venha a se revelar algo efêmero e sem consequências nos próximos dias, quando acabar a festa que prossegue por todo este fim de semana do ano do centenário de “Lua”.

Ainda assim, que ninguém se engane: permanecerá por décadas e décadas – acima das querelas da política e do poder-, a lembrança dos ensinamentos da vida e das canções espalhados no país que tem em Luiz Gonzaga, doa em quem doer, um de seus símbolos humanos maiores e mais significativos de unidade nacional. “Assunto ainda para um século ou mais”, canta o próprio Gonzagão em “Onde tu tá Neném”, uma de suas músicas mais bonitas e emblemáticas, que escuto no computador enquanto escrevo com emoção estas linhas.

Sobre esta enorme influência e importância nordestina e nacional de “Lua” escreveu quinta-feira Paulo da Costa Lima, da UFBA, na revista digital Terra Magazine. Paulo Lima é músico de pleno conhecimento técnico com direito a verbete em enciclopédia britânica de música. O cantor e compositor Gilberto Gil, um dos mais notáveis e reconhecidos herdeiros da obra de Luiz Gonzaga – convidado especial para o palco da grande festa em Exu, ao lado de Dominguinhos, o discípulo mais querido e admirado do filho de Januário-, também falou sobre a magnitude de Gonzaga e a transcendência de sua vida e obra.

Não é a primeira, nem a segunda ou décima vez que isso acontece, mas o baiano o fez com especial conhecimento e sabedoria em recente Programa do Jô. Foi uma das conversas mais ricas e completas de conteúdo da TV brasileira nos últimos anos. Merece reprise, logo, em homenagem ao artista baiano, ao apresentador, mas principalmente a Luiz Gonzaga.

Devo dizer, antes do ponto final: Venho de uma cidadezinha na beira baiana do Rio São Francisco. Os primeiros acordes musicais de que tenho lembrança na infância, em Santo Antonio da Glória, saiam da sanfona e da voz de Luiz Gonzaga. O Aboio que marcava a abertura e o encerramento de todos os programas de rádio e apresentações do artista pernambucano que começava seu reinado no Brasil.

Na época se construía a Usina Hidrelétrica da CHESF, em Paulo Afonso, então distrito de Glória, onde eu morava. Formigueiro nordestino monumental de operários e engenheiros de umas das maiores obras no Governo Vargas. Imaginem a emoção do garoto na inauguração da usina, já no Governo Café Filho, ouvindo Luiz Gonzaga cantar uma de suas músicas mais célebres: “Olhando prá Paulo Afonso, louvo nosso engenheiro, louvo nosso cassaco, caboclo bom, verdadeiro, e essa usina feliz mensageira, vivendo da força da cachoeira. Meu Brasil vai”…

Isso é Gonzaga!!! Grande demais para caber neste ou qualquer outro espaço que não seja o coração de uma nação inteira, unida em seu nome. Mesmo que por apenas um dia, valeu “Lua”.

Vitor Hugo Soares – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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