Cachoeira: o quarto raio?

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OPINIÃO POLÍTICA

Atração fatal

Ivan de Carvalho

O conteúdo do depoimento prestado em 24 de setembro por Marcos Valério, considerado – ao lado do tesoureiro do PT, Delúbio Soares, o principal operador financeiro do esquema do Mensalão – ao Ministério Público Federal, vazou ontem, estrepitosamente. O jornal O Estado de São Paulo teve acesso ao documento, do qual publicou o essencial, sem esquecer, como convém a um jornal responsável, dos detalhes quase impensáveis, mas que constam do depoimento.

O país político foi incendiado. Em Paris, a presidente Dilma Rousseff, ao lado do presidente francês François Hollande, disse que não pretendia falar sobre o assunto fora do país, mas se sentiu instigada pelas denúncias (sic) a fazê-lo. Considerou “lamentável essas tentativas de desgastar a imagem do presidente Lula”, reiterando: “Acho lamentável”. Ao fim de seu discurso, Dilma obteve o aplauso de seus ministros e assessores presentes.

Dilma recebeu o socorro do presidente Hollande, que observou que Lula “tem na França uma imagem considerável”, de quem defendeu os “princípios da justiça e da igualdade” e conduziu o Brasil a um “desenvolvimento absolutamente excepcional”, completando: “Aqui o presidente Lula é visto como uma referência”.

O PT, no zeloso desempenho do seu dever partidário, derramou-se em contestações, desqualificações e desaforos direcionados a Marcos Valério e elogios endereçados a Lula. O leitor notará isso em todo o noticiário. Mas houve também o outro lado. O PSOL vai avaliar sobre um pedido de convocação de Marcos Valério para depor no Congresso. O presidente do PPS, deputado Roberto Freire, e o líder dessa legenda na Câmara, Rubens Bueno, cobraram a abertura imediata de inquérito pelo Ministério Público Federal para investigar a atuação do ex-presidente Lula “como verdadeiro chefe da quadrilha do Mensalão”. Freire lembrou que o PPS já apresentou, no início de novembro, o pedido à Procuradoria Geral da República. “Diante das declarações dadas ao Ministério Público, não resta outro caminho”, disse.

Mas isso é só o começo do cerco. O líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias, solicitou ontem à Procuradoria Geral da República cópia das declarações atribuídas a Marcos Valério e publicadas por O Estado de S. Paulo. Alegou o senador líder do PSDB na Câmara Alta que a matéria do jornal “traz novos elementos sobre o esquema de pagamentos a parlamentares, conhecido como Mensalão, e que ainda não constitui inquérito”. O procurador geral Roberto Gurgel ainda vai analisar o pedido do senador.

Há mais, porém. PSDB e DEM apresentaram requerimento conjunto na Comissão de Constituição e Justiça do Senado para que Marcos Valério seja convidado a depor na Casa. Os dois partidos declaram “extremamente graves” os novos fatos revelados no depoimento dele à PGR. Dizem os dois partidos: “São inúmeros novos fatos como, por exemplo, o de que o ex-presidente Lula teria atuado a fim de obter dinheiro da Portugal Telecom para o Partido dos Trabalhadores. Além disso, há afirmações do publicitário de que seus advogados são pagos pelo PT”, destacam o PSDB e o DEM, entre outras coisas.

Assinalei ontem aqui o ditado popular de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. E que, contrariando a sabedoria popular, no caso de Lula havia caído – o julgamento do processo do Mensalão, no qual não foi réu, mas colheu um péssimo resultado, e o Caso Rosemary. Aí vem o depoimento tardio de Marcos Valério e é o terceiro raio. Impressionante. Atração fatal.
Mas parece que não basta. Assim que deixou ontem à noite o Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, Carlos Cachoeira afirmou que sua prisão é interesse do Partido dos Trabalhadores. “Eles sabem que sou o garganta profunda do PT”.

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