Minha prima Ana Maria Vieira (jornalista das melhores da Bahia, modéstia às favas) ligou esta semana com uma notícia triste. Dessas que ficam cada vez mais encostadas uma na outra, à medida que o tempo nos escorre entre os dedos da mão cheia de areia fina na praia.
 Aninha falou com Margarida, a quem deu o recado: “Diga a meu primo que Cecília, a mãe de Janinho, morreu”. As duas conversaram um pouco  e Ana desligou sem falar comigo, que seguia “num banho demorado”, reclamou Margarida, antes de transmitir a “má nova”.

Passei dois dias ligando, para Glória e Paulo Afonso, sem conseguir falar com Janio Ferreira Soares (o Janinho de dona Cecília), secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, cronista da melhor cepa, um dos textos mais ricos e envolventes deste Bahia em Pauta e da página de Opinião do jornal A Tarde (desde que aceitou, com grande alegria para mim, o convite que lhe fiz para ser colaborador quando eu editava Opinião no jornal baiano).

Por insistência de Margarida, decidi disparar um e-mail na noite de sábado  (8):

“CECÍLIA URGENTE

Janio:

Tenho tentado falar por telefone com vc, mas não consigo. É que tive uma notícia aqui dessas de estremecer, mas me recuso a acreditar. Preciso de confirmação: Dona Cecilia, sua mãe, minha “prima Ceci”, teria morrido. Verdade? Espero que tudo não passe de mais um desses boatos que saem de Glória (desde meu tempo de menino) entram pelo Raso da Catarina e ninguém mais consegue deter.)

Se verdade for, querido amigo, receba meu abraço -e de Margarida- de conforto (se é que isso vale de alguma coisa numa hora dessas). E guardemos com saudades e admiração a memória de Cecília.

Abraços tb a todos os seus, que são tb os meus.

Vitor Hugo e Margarida

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Este domingo, 9, de uma semana de perdas e danos para o BP e para o país , recebi a resposta de Janio:

“CECÍLIA

Vitor, querido, desculpe não ter lhe avisado, falha imperdoável, mas eu sou péssimo pra essas coisas. Nossa Ceci partiu na última terça em Recife, onde estava internada há exatos 40 dias. Passei todo esse tempo ao lado dela e confesso que, não fosse pelo fato em si, foram dias belíssimos, bem parecidos com os das histórias de Pedro Malazartes que ela contava sob os tamarineiros de Glória.
Mesmo sob efeitos de remédios e debilitada, seu humor e doçura estavam afiadíssimos e eu os aproveitei o quanto pude. Infelizmente seu coração de 89 anos (completados na própria UTI) não resistiu.
Pode até parecer piegas, mas sabe aquela leveza de quem se vai sabendo que cumpriu o seu papel não só com filhos e parentes, mas com toda uma geração? Pois foi assim. Só sinto ela ter partido sem comer o pirão de espinhaço de bode que ela tanto implorou nos seus delírios noturnos. Mas com certeza ela deve ter levado o gosto. Grande e fraterno beijo pra você e Margarida”.

Depois destas palavras, o que dizer mais? O que fazer?

(Vitor Hugo Soares, editor, no próprio nome e em nome do BP)

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Resta, talvez, republicar, como tributo, o texto que Janio escreveu sobre a “prima Cecília”, sua mãe, quando Dilma Rousseff em arroubo de palanque antes de ser eleita a primeira mulher presidente do País, andou dizendo que seria “a mãe de todos os brasileiros”. Texto primoroso, replicado, na ápoca, no Blogbar do poeta paulista, Luiz Fontana. (VHS)

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OPINIÃO / MÃES
Prefiro dona Cecília
Janio Ferreira Soares

Na frente em todas as pesquisas e muito próxima de ser a primeira mulher a presidir o País, Dilma Rousseff anda dizendo que será a mãe do povo brasileiro.

Não sei você, mas desde já agradeço a nobre intenção genitorial da candidata e adianto que estou muito satisfeito com os préstimos maternais de dona Cecília, quase noventa de idade e sempre com um lindo sorriso emoldurado por vasto cabelo preso em coque, que além de todos os cuidados possíveis ainda me recomenda diariamente a dezenas de santos e, de quebra, faz um bife cozido com batatas que eu duvido que a pretendente a mãe do Brasil seja capaz. Portanto, caso realmente insista nessa onda de consanguinidade, concedo à dona Dilma, no máximo, a chance de ser minha madrinha de crisma ou minha comadre de fogueira de São João.

Nunca simpatizei com políticos que se arvoram protetores do povo. Além de soar canhestro, essa pseudo-paternidade dá a impressão de que somos um bando de crianças sempre na dependência de alguém para trocar nossas fraldas e colocar papinha de maizena na “boquinha do neném!”. O que eu espero de um presidente é que ele aja de modo constitucional e republicano, e que assegure os meus direitos.

Que não permita que ladrões invadam o meu quintal e roubem minhas mangas e galinhas; que me guarde dos censores travestidos de democratas que salivam ávidos com a possibilidade de voltar a controlar o que meus olhos vêem e minha mente anseia; que, em hipótese alguma, admita a violação dos meus segredos, sejam eles fiscais ou sentimentais (não quero ninguém sabendo detalhes daquele verão de 86 na Ilha de Itaparica); e, caso isto aconteça, que ele jamais se comporte como um militante partidário, mas sim, como alguém que jurou me proteger contra as mazelas da ditadura.

Agora, se você quiser mesmo chamá-la de mamãe – ou de vovó -, um lembrete: como família não se escolhe, no almoço dominical prepare-se para tomar a benção e beijar as mãos dos titios Renan e Zé Dirceu, além de beber “gualaná” no colo do vovô Sarney. A sobremesa? Tia Erenice faz um pudim!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura , Turismo e Esportes de Paulo Afonso, no lado baiano do Vale do São Francisco.

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Comentários

Olivia on 9 dezembro, 2012 at 22:31 #

Não vou escrever mais nada, Vitor já disse tudo. Um beijo, querido Janinho.


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