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OPINIÃO POLÍTICA

De volta ao começo

Ivan de Carvalho

O tumulto político tomou conta do Egito, cujo regime autoritário liderado por Hosni Mubarack foi derrubado pelo movimento a que se convencionou chamar de Primavera Árabe. Este era um movimento claramente reivindicador de liberdade e democracia e prevaleceu em um primeiro momento. Mas dificuldades já eram previstas por qualquer pessoa atenta à conjuntura do Oriente Médio e tivemos oportunidade de, neste espaço, chamar a atenção para os riscos envolvidos na Primavera Árabe, seja no Egito, seja em outro país e no conjunto da região.

Para o mundo como um todo, a questão crítica é a rivalidade entre alguns Estados árabes e até muçulmanos não-árabes (caso principal, atualmente, do Irã, como já foi do Iraque) e a facilidade com que os governos desses Estados nada democráticos conseguem manipular a opinião pública e as populações de seus países como instrumentos na hostilidade permanente que mantêm contra Israel.

Voltando ao caso egípcio, onde ontem o Palácio Presidencial estava cercado por tanques após conflitos entre populares favoráveis e contrários ao governo que resultaram, na noite passada, em cinco mortes e mais de cem feridos. Na anterior, foram dois mortos e cerca de 160 feridos nos conflitos ocorridos no Cairo. Pelo menos em outras três principais cidades do país houve grandes manifestações da oposição, geralmente confrontadas por partidários do governo.

A Primavera Árabe no Egito (como, de resto, em outros países em que o movimento venceu ou está em curso) tem caráter laico e seus objetivos são a liberdade e a democracia, esta, um regime a que os árabes não estão acostumados. Não têm disso a menor tradição, exceto quanto ao Líbano, que foi democrático e onde houve liberdade até que a Síria se imiscuiu em sua política interna e bagunçou o país, no interesse da ditadura vitalícia e hereditária dos Assad.

Mas, com uma modesta vantagem de votos, Mursi, o candidato a presidente da Irmandade Muçulmana – uma organização política islâmica que era clandestina durante o regime autoritário do ex-presidente Hosni Mubarack – foi eleito presidente após a vitória da Primavera Árabe egípcia. As eleições foram duvidosas, porque somente às vésperas do pleito o principal adversário de Mursi assegurou na Justiça o direito de disputar o pleito. Assim, ele fez uma campanha “na dúvida” de que seria ou não candidato e isso é uma situação destrutiva para qualquer candidatura. Mesmo assim, perdeu por pouco.

Mursi assumiu uma porção de compromissos formais e públicos após eleito e começou a desrespeitá-los metodicamente, a cada oportunidade que aparecia. A última coisa que fez foi um golpe de estado mediante a edição de decretos em que assumiu plenos poderes e até, em um deles, colocou-se acima e a salvo de qualquer decisão judicial – juntamente com os seus decretos ditatoriais. Alegou que os superpoderes seriam provisórios, temporários, mas continua desfrutando de todos eles e pretende prosseguir assim por um bom tempo.

O golpe por decreto não foi aceito pelos que fizeram a Primavera Árabe no Egito, os protestos começaram e se ampliaram rapidamente, exigindo a imediata revogação de todos esses decretos e o adiamento de um referendo que pretende aprovar uma Constituição feita por uma Assembléia Constituinte eleita sem respeito às leis eleitorais e que as oposições ao partido da Irmandade Muçulmana, vendo que nada podiam fazer, abandonaram. Entre outras coisas, a nova Constituição institui a sharia (lei muçulmana) em um estado que se pretendia laico e é totalmente omissa quanto aos direitos das mulheres, que a sharia limita severamente.

As minorias no país se consideram ameaçadas, entre elas a cristã – no Egito existem mais de três milhões de cristãos, quase todos da Igreja Coopta. O outro grande problema é que, com a Irmandade Muçulmana no comando, o Egito pode voltar a hostilizar Israel, coisa que não faz desde a assinatura de um tratado de paz entre os dois Estados, na década de 70 do século passado.

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