Na posse de Joaquim Barbosa, a pluralidade como marca

Djavan na posse:trilha sonora
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ARTIGO DA SEMANA

Trilha musical para Joaquim Barbosa

Vitor Hugo Soares

A presença do cantor e compositor Djavan, na grande e expressiva festa de quinta-feira (à tarde e à noite no Planalto Central), me oferece de súbito a solução para a dúvida que me assalta: a escolha da melhor e mais apropriada trilha musical para ornamentar as linhas deste artigo semanal, sobre a posse do ministro relator do processo do Mensalão, Joaquim Benedito Barbosa Gomes, na presidência da Suprema Corte de Justiça do Brasil.

Sou daqueles convencidos de que grandes e significativos momentos da história de um país pedem grandes canções. Assim como nas trilhas sonoras de filmes marcantes ou das grandes novelas de TV. Em geral, acompanhando ou fazendo a marcação dos passos, palavras, ações e reações de personagens fortes e emblemáticos.

Diante do aparelho de televisão, em Salvador, acompanho a chegada da presidente Dilma Rousseff , com atraso “e cara enfezada” (como se diz lá no meu sertão do Vale do São Francisco). Vacilo entre duas canções para a minha trilha.

Uma delas, “Tanto Mar”, que Chico Buarque de Holanda escreveu, há décadas, para celebrar com os lusitanos, do outro lado do oceano, a Revolução dos Cravos que mudou a face de Portugal e reapresentou a nova cara e novo jeito de Lisboa para o mundo.

Enquanto o estalo não vem, sigo o bailado nervoso da gente do cerimonial para acomodar as coisas e as pessoas em seus devidos lugares. É a dança sutil dos emblemas e signos do poder, complicada e sempre sujeita a “ruídos de comunicação”, como alertava o mestre da teoria e da prática do jornalismo brasileiro, Juarez Bahia, quando no comando da Editoria Nacional do Jornal do Brasil, antes da precoce e inesperada partida.

A lembrança de Bahia não é casual neste artigo, esclareço. Tem muito a ver com a incrível semelhança – física, de caráter, de comportament e história pessoal de vida – do notável homem de comunicação nascido na baiana Feira de Santana, e o magistrado de Paracatu, interior de Minas Gerais, centro e razão das comemorações desta semana na capital do País. Obra e imagens de Juarez Bahia andam espalhadas por aí, além da memória dos que o conheceram de perto e o admiram. Quem quiser, basta conferir. Sugiro a Internet.

Na tela da TV segue o bailado no palácio do STF. Observo a pluralidade raramente vista em tamanha dimensão, e com tal amplitude, em cerimônias do gênero: o movimento dos personagens principais e dos coadjuvantes misturados no plenário e no grande salão do STF: artistas, juristas, magistrados, convidados estrangeiros, celebridades de todo tamanho e qualidade, circulando entre “gente comum”. Sintetizando tudo, a emocionante presença de dona Benedita, mãe do ministro empossado, cheio de carinhos e cuidados.

Quase inacreditável, mas muito bonito de ver. No canal fechado de TV Globo News, em que estou sintonizado, uma comentarista destaca a grande participação de artistas que se deslocaram de seus afazeres para comparecer à posse do ministro Barbosa. Entre os nomes, ela cita o cantor e compositor alagoano Djavan (de antigas e profundas ligações com Brasília) e eu grito: “Eureka!”.

A trilha musical para esta data e esta festa está escolhida: “Linha do Equador”. Canto, imaginariamente, trechos da letra e da melodia de uma das mais belas composições de Djavan. Separo, copio e colo com o mouse, o trecho que considero mais simbólico e expressivo nas linhas deste artigo semanal de opinião.

“Céu de Brasília / traço do arquiteto/ gosto tanto dela assim/gosto de filha, música de preto / gosto tanto dela assim / essa desmesura de paixão/ é loucura do coração / minha foz do Iguaçu/ polo sul, meu azul / luz do sentimento nu / esse imenso, desmedido amor / vai além de seja o que for/ vai além de onde eu vou/ do que sou, minha dor / minha linha do Equador”

Que palavras melhores alguém poderia escolher para a trilha musical do ministro Joaquim Benedito Barbosa Gomes, na tarde histórica de quinta-feira, 22 de novembro de 2012, em que um negro de 58 anos de idade, nascido em área rural e pobre de Minas Gerais, assumiu pela primeira vez a presidência da Corte Suprema do Brasil? Seguramente, só as palavras do próprio novo presidente do STF, em trechos do memorável discurso que ele pronunciou no ato da posse:

“É preciso ter a honestidade intelectual para reconhecer que há um grande déficit de Justiça entre nós. Nem todos os cidadãos são tratados com a mesma consideração quando buscam a Justiça. O que se vê aqui e acolá é o tratamento privilegiado”…

“O juiz deve, sim, sopesar e ter em conta os valores da sociedade. O juiz é um produto do seu meio e do seu tempo. Nada mais ultrapassado e indesejado do que aquele juiz isolado, como se estivesse fechado em uma torre de marfim”.

“Não se pode falar de instituições sólidas sem o elemento humano que as impulsiona. Se estamos em uma casa de Justiça, tomemos como objeto o homem magistrado. O homem magistrado é aquele que tem consciência de seus limites. Não basta ter formação técnica, humanística e forte apelo a valores éticos, que devem ser guias de qualquer agente estatal. Tem que ter em mente o caráter laico da sua missão constitucional (para que) crenças mais íntimas não contaminem suas atividades.”

“É hora de expurgar tudo o que vem de fora da essência da Justiça, que distorce sua natureza e a desvia de seu fim. Da bajulação à corrupção e à falta de ética. Menos firula e mais eficiência”

Bem-vindo, Joaquim!!!

Vitor Hugo Soares é jornalista- E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 24 novembro, 2012 at 8:27 #

Caro VHS

Esse poeta anda muito distraído, pior ainda, entediado, talvez pelo excesso de desinformação.

Vejamos:

Barbosa foi indicado por Márcio Thomaz Bastos, atendendo ao pédido de Lula para que encontrtasse um negro para o STF.

Lendo o incidente envolvendo jornalista Luiz Fara Monteiro, percebe-se que Barbosa não consegue se livrar deste apanágio, ainda reage ao chutes e solavancos.

Fux e Barbosa, ignoraram o poder legislativo, presente, como manda a tradição na cerimônia de posse. Queiram ou não, Sarney é o presidente do Congresso Nacional e, como nos ensina Montesquieu, esses poderes são iguais, Assim, Dilma, Barbosa e Sarney, se equivalem institucionalmente.

Dona Dilma, ao que parece, estava duplamente contrafeita, afinal um novo escândalo envolvendo sua assessora na capital paulista se avizinha.

Mas…

Fux cantou Tim Maia, Djavan se fez presente, o eterno Milton gonçalvez também…

Ando mesmo entediado, e cada vez mais distraído.

Em tempo, Barbosa é mercurial como gostam de afagar os analistas de plantão, ou apenas tosco como deixa vislumbrar nos seus arroubos de menino emburrado?

Claro, que todos estamos de acordo numa questão, aos mensaleiros o doce repouso em nossas cadeias, tão bem cuidadas pelo PT nos últimos 10 anos, sob direção extremada de Cardozo, o tal ministro perplexo.


Mariana Soares on 24 novembro, 2012 at 9:31 #

Lindo, meu irmão, seu artigo, aliás, como sempre! Esta semana, sem duvida, foi desse homem de fibra, enérgico, destemido, sabedor das leis e do direito!
Sendo ele negro, o que não deveria mais ser tão enaltecido, uma vez que já não deveríamos mais ter este, nem outros tantos, tipos de preconceitos, mas reconheço, com tristeza, que ainda os temos, ficou ainda mais feliz e alegre a festa da sua chegada ao topo do Poder Judiciário!
Da minha parte, me sinto mais alegre e esperançosa nesta carreira que abracei e que, tantas vezes, vejo manchada por muitos dos seus rresentantes.
Foi um dia glorioso! Trabalho perto do STF e de lá da minha janela fiquei espiando, entre um trabalho e outro, me sentindo um pouco parte daquela festa toda! Penso e acredito que dias melhores virão para a justiça deste país!
A música por você escolhida é também uma das minhas preferidas, não só pela sua lindeza, como por dizer muito a mim, que moro nesta cidade há tantos anos, e sei, na minha alma, o que cada um dos seus versos querem dizer.
Amanhã chego aí, para passar uns dias na terrinha, e lhe darei um abraço, para festejarmos esta nova era jurídica, além de matar a saudades…


Graça Azevedo on 24 novembro, 2012 at 14:47 #

Só agora estou lendo o seu artigo, coisa que, em Salvador, é a primeira coisa que faço aos sábados (ando passeando na cidade maravilhosa). Toda história tem a sua trilha musical, a da posse do ministro Barbosa você definiu com precisão e sensibilidade. Valeu VH!


inacio gomes on 24 novembro, 2012 at 22:31 #

. A magistratura está passando por um processo de revolução interna, que se reflete nas características pessoais de seus integrantes. Os juízes, antes advindos da classe dominante, hoje são coletados em sua absoluta maioria, com poucas exceções, da classe média. Em geral, o juiz é aquele que teve que trabalhar para arcar com os seus estudos, ralando o umbigo no balcão ou mesas de escritórios, fábricas ou repartições, buscando e construindo o seu próprio futuro profissional.
O juiz contemporâneo navega pela internet, lê jornais, assiste televisão, vai às baladas, torce por seu time de futebol, tem a sua preferência política e ideológica, se diverte, passeia com seus filhos, vai à academia, discute religião, estuda, paga plano de saúde, é vaidoso, faz supermercado. (Por Morgana de Almeida Richa ( então Vice Presidente da Associação dos Magistados do Brasl)

E, digo eu, tem coragem para julgar o mensalão.


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