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OPINIÃO POLÍTICA

A expulsão de Deus

Ivan de Carvalho

Esta é, que me recorde, a segunda vez que concordo com José Sarney. Confesso que dele discordei até mesmo quando, na Presidência da República, proclamou a patacoada da “moratória da dívida externa”, assim como quando, no mesmo cargo, lançou o tão aprovado e em seguida tão reprovado e fracassado Plano Cruzado, que funcionou, em 1986, como uma espécie de estelionato eleitoral.

Mas concordei quando Sarney, na presidência do Senado, criticou as arbitrariedades do presidente-ditador da Venezuela, Hugo Chávez, contra a imprensa (confiscando, à força, na ocasião, a principal rede de televisão do país) e, por isto, criou dificuldades para o Senado brasileiro aprovar o ingresso da Venezuela no Mercosul, o que só aconteceu bem mais tarde.

Agora, concordo com José Sarney, o imortal – ele mesmo contou, numa reunião em que estava a presidente Dilma, no Palácio da Alvorada, uma piada segundo a qual, quando Hebe Camargo chegou ao céu, São Pedro a cumprimentou: “Olá, pode entrar, mas o Sarney, não vem nunca?”. É, os imortais tem certas prerrogativas.

Mas, voltando ao caso, concordo por sua declaração de ontem, de que deve-se à “falta do que fazer” o pedido de procurador da República no Estado de São Paulo para que o Judiciário determine, liminarmente, a retirada da expressão “Deus seja louvado” das cédulas de dinheiro. O pedido é de que no prazo de 120 dias as cédulas passem a ser impressas sem a expressão, nelas introduzida em 1986, quando Sarney era o presidente da República. Sarney acrescentou que tem “pena” dos ateus.

Sinceramente, não sei se Deus está muito à vontade com essa referência a Ele no dinheiro, à moda norte-americana, onde o dólar traz a inscrição In God we trust (Em Deus nós confiamos). Lá, uma pesquisa Gallup mostrou que 90 por cento dos americanos gostam da referência a Deus nas cédulas.

Há alguns meses, o então presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, defendeu a retirada do crucifixo que está numa parede do salão em que se reúne o plenário do Supremo Tribunal Federal. Os argumentos básicos, tanto naquela ocasião quanto agora, são de que a Constituição estabelece que o Estado brasileiro é laico e que falar em Deus é discriminar “outras” religiões.

Ora, o Estado brasileiro é laico, mas não é ativista ateu. E a Constituição foi promulgada, segundo reza – reza é bem apropriado – o seu preâmbulo, “sob a proteção de Deus”. Então, se os constituintes invocaram a “proteção de Deus” para a Constituição, para todo o sistema que dela flui também está automaticamente invocada essa proteção. Se o crucifixo no Supremo é inconstitucional, a própria Constituição é também inconstitucional – só falta do que fazer não é inconstitucional.

Além disso, tenho a impressão de que esse pessoal que quer atropelar tradições e expulsar Deus de tantas lugares não tem visão periférica. Pois, se olhar para o mundo, verá que na Inglaterra, um país laico, a rainha é a chefe da Igreja Anglicana. A liberdade religiosa na Suécia é total, mas lá há uma igreja oficial, a Luterana Sueca. A bandeira de nove países europeus com liberdade religiosa plena exibem a cruz.

No Brasil, seria muito complicado. Não basta tirar o crucifixo do STF (e de tantos outros lugares públicos) e o “Deus seja louvado” do dinheiro. Teriam de mudar a história do Brasil para tirar a Ilha de Vera Cruz e a Terra de Santa Cruz, bem como mudar nomes de vários Estados (Espírito Santo, São Paulo, Santa Catarina, e de capitais como Salvador, Belém, São Paulo, São Sebastião do Rio de Janeiro, Natal, São Luís, além de uma infinidade de outras cidades, a começar aqui pertinho em Feira de Santana. Claro que o Cristo Redentor seria intimado para sair do Corcovado).

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