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OPINIÃO POLÍTICA

As piras humanas na China

Ivan de Carvalho

Começara, na década de 60 do século passado, a Guerra do Vietnam. O governo americano, sob a presidência de John Kennedy, começou a mandar “assessores militares” para orientar o exército do Vietnam do Sul, país aliado sob assédio dos guerrilheiros vietcongs, rebeldes treinados, armados e apoiados sob diversos aspectos pelo Vietnam do Norte, a metade comunista das duas em que se dividira – seguindo o esquema da Guerra Fria – o Vietnam com a derrota dos colonialistas franceses.

Para os ocidentais, ainda era um conflito lá no fim do mundo. Mas então soldados foram acrescidos aos assessores e monges budistas começaram a jogar gasolina nas próprias vestes e neles mesmos dentro delas, após o que ateavam fogo, criando fogueiras em praça pública. Isto acontecia principalmente em Saigon, capital do Vietnam do Sul e, apesar de ser autoritário o regime do país, não era totalitário e a imprensa estrangeira tinha liberdade para a cobertura local. As tochas humanas passaram a aparecer na televisão e nas fotografias publicadas em jornais e revistas do mundo inteiro.

Daí em diante, a luta armada só fez ampliar-se – com o progressivo envio de um contingente que chegou a 500 mil soldados americanos e o ingresso no conflito do exército do Vietnam do Norte – até a derrota final americana (mal disfarçada por um acordo em que o inimigo levava todos os bônus) e a queda de Saigon e do Vietnam do Sul.

Analistas militares e políticos estão de acordo que, além da configuração geográfica e do terreno desfavoráveis, o outro grande fator que levou à primeira e até hoje única derrota norte-americana em conflitos bélicos foi a cada vez mais ampla e intensa oposição de opinião pública americana ao conflito. Os EUA, pagando o preço de serem uma democracia, perderam a guerra internamente, na opinião pública de seu país, antes de a perderem no campo de batalha.

Na China, naquela época como hoje, as condições são diferentes. Porque a China não tem uma democracia, mas seu oposto, um regime totalitário. Assim, as tochas humanas em que nos últimos dias vêm se transformado monges tibetanos, que defendem a libertação do Tibet, brilham muito menos que as que brilharam em Saigon.
Desde que, na quinta-feira, começou o 18º Congresso do Partido Comunista Chinês, pelo menos sete monges – o último, com apenas 18 anos – praticaram a autoimolação pelo fogo. Com isso eles querem mandar ao novo comando do PCC e da China (o presidente Hu Jintao passa a presidência a Xi Jinping) a mensagem de que devem resolver o problema do Tibet, anexado à força.

Desde março de 2011, foram registrados 70 casos de autoimolações pelo fogo, a maioria envolvendo monges budistas. Apesar de acusado pelo governo chinês de estimular os sacrifícios, o Dalai Lama, exilado na Índia, já se declarou, não de agora, oposto a atos extremos contrários ao caráter sagrado da vida.

A realização do 18º Congresso do PCC exacerbou as “medidas de segurança”. Em Pequim, os táxis têm de transitar com as janelas fechadas para evitar que algum passageiro lance panfletos nas ruas. A Internet, especialmente o Google, ficou praticamente inacessível. O governo não quer que os chineses saibam sobre as disputas no PCC e o enriquecimento bilionário, por corrupção, da família de Xiabao, importante liderança do PCC que há pouco tempo caiu em desgraça. Isso daria uma idéia da amplitude da corrupção no sistema, como no Ocidente mostrou, detalhadamente, reportagem do The New York Times sobre o caso Xiabao.

Ah, o governo teme uma autoimolação no centro de Pequim, porque teria a visibilidade que as do Tibet não têm – especialmente para as câmeras. Extintores de incêndio foram levados para a Praça da Paz Celestial, apesar de, por causa da vigilância extrema, ser muito difícil que um tibetano possa ter acesso à praça. Quanto aos dissidentes, mesmo os “tolerados”, foram proibidos de dar entrevistas e muitos removidos para longe da capital.

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