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ESQUECENDO ELEIÇÕES

Antônio Risério*

Despachei e-mail para meu querido amigo Caetano Veloso: pela primeira vez , depois de anos, fechamos numa eleição com os mesmos candidatos: Marcelo Freixo no Rio de Janeiro, Fernando Haddad em São Paulo, Neto em Salvador. Afora isso, vibrei com a virada de Fruet em Curitiba (tinha inclusive feito uns trabalhos de pré-campanha para ele, com Giovanni Soares, no ano passado).

Na verdade, torci total pela vitória de Freixo, chama inovadora na velha paisagem político-eleitoral do Rio. Fui para São Paulo mergulhar de corpo e alma na campanha de Haddad, figura que, como a nossa hoje presidente Dilma, conheci em 2006 na campanha da reeleição de Lula. E defendi a que a vitória de Neto seria melhor para a nossa cidade do que a de Pelegrino, sujeito mentalmente limitado, incapaz até de voos rasteiros. Há tempos não concordávamos assim. Eleitoralmente, eu e o poeta-pensador. Conversávamos sobre eleições, mas geralmente em posições diversas.

Mas não quero fazer análises, me concentrar em papos enviesados (depois do resultado das urnas, é fácil fazer interpretações, mas deixo isso para jornalistas e professores universitários), nem nadar em ressacas eleitoras. Mas algumas coisas merecem ressalte. Por exemplo: em São Paulo, apresentamos e defendemos abertamente um candidato. Mostramos seus feitos, suas virtudes, suas propostas – contra um José Serra em avançado estágio de autodeterioração política e ideológica, usando sucessivas máscaras reacionárias, mentindo para si e para toda a população. Em suma: ostentamos Haddad, vistosamente.

Na Bahia, ao contrário, até tentavam me esconder Pelegrino. Com o seguinte papo o voto não é no candidato – é no “projeto”. Em que projeto, pelo amor de Deus? Até o projeto nacional de Lula foi construído, em grande medida, contra a falta de senso, de realidade, contra a falta de projeto do próprio PT. E o PT precisa aprender isso. Não pode falar de “projeto” porque não o tem,globalmente, como partido. Haddad vai governar, inclusive, contra a intolerância e o sectarismo petistas, tendo de enfrentar a “nefasta” tradição do corporativismo, em áreas fundamentais como as da educação e da saúde pública. Ou seja: em vez de esconder o candidato atrás de um “projeto” trata-se , na verdade, de exibir o candidato para ocultar as graves e grandes deficiências do “projeto”, ok?

Outra coisa: não me venham com a conversa fiada de retorno do carlismo. Não existe carlismo sem Antonio Carlos (carlismo só existe na fantasia de das viúvas políticas de ACM, sejam elas de direita ou de esquerda, ambas ressentidas e revanchistas, sem saber pensar se lhes tirarem o velho do caminho e da cabeça). E, se existisse sem Antonio Carlos, o carlismo já teria voltado há tempos. Graças ao PT local, claro. Com Otto Alencar no papel de guru e vice-governador, com Cézar Borges na função de aliado preferencial, com carlistas ocupando cargos de comando no governo estadual, com Sérgio Carneiro (sim: carlista desde criancinha – e acusado de coisas corruptas no governo do pai João Durval) se destacando entre os quadros petistas.

Mais, como bem viu Paulo Fábio: com Wagner aplicando a “gramática do carlismo” para assegurar sua hegemonia baiana. E não existe carlismo, ainda, porque –como bem sabem antropólogos, travestis, internautas e vendedores de cafezinho – neto não é avô.

Bem. O que espero de Neto é que ele não olhe menos em Luiz Eduardo (homo politicus) do que em Antonio Carlos , que pare de posar de “protagonista da CPI do mensalão”, não pise na bola das trocas de favores e se abra de fato para o diálogo crítico sobre a cidade. Espero, principalmente, que ele cumpra o que está prometendo a si mesmo, como já disse em entrevistas: pensar o futuro da cidade de forma plural, sem boçalidade, numa conversa séria. E é o seguinte. Salvador está caindo aos pedaços. Tem de reconfigurar a sua expansão urbana, reativar a sua memória, diminuir distâncias sociais, recuperar a sua criatividade e reconquistar o seu lugar na vida brasileira. Quem não vir isso, não será prefeito.

*Antonio Risério antropólogo e escritor

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Comentários

Vinicius Santos on 14 novembro, 2012 at 8:44 #

Texto completamente incoerente de um cara que acha que é o supra sumo da ciência política. Risório se mostrou controverso e sem fundamento.


Jadilson Rodrigues on 14 novembro, 2012 at 14:05 #

“Tem de reconfigurar a sua expansão urbana, reativar a sua memória, diminuir distâncias sociais, recuperar a sua criatividade e reconquistar o seu lugar na vida brasileira. Quem não vir isso, não será prefeito.” Não acredito que ACM Neto faça nada disso pois a ideologia política dele é historicamente contra essa ideia!


Edyneuza Ávila on 14 novembro, 2012 at 15:51 #

E esta reconstrução se dará através de ACM Neto???
Então que fizéssemos um grande barulho eleitoral, mas votar no DEM, em ACM’s, lamentável Sr Anonio


Ricardo Luedy on 14 novembro, 2012 at 16:01 #

Falou e disse!!!!!!!!!


Paulo Mattos on 14 novembro, 2012 at 16:11 #

Falou e disse, só não concordo em relação a São Paulo, pois como ministro da educação não consegui ver nada de novo no cenário, seja operacional ou político.


artur carmel on 14 novembro, 2012 at 16:23 #

Sim, Risério, espero que Neto ouça seus conselhos. Mas, por obséquiop, qual é mesmop o projeto de Neto ?


Ana Maria on 14 novembro, 2012 at 17:21 #

Risério, fomos colegas do Severino V. e, muitas vezes ficávamos VC , Renatinho V. Sampaio e eu, sonhando e vislumbrando um Brasil melhor. Fui viver na Alemanha e hoje em SSA trabalho para o Turismo.Já nos encontramos em algumas ocasiões de seus lançamentos no MAM.(isso para vc se lembrar de mim). Tenho muita admiração por ti desde aquela ocasião pelo seu brilhantismo, pensamento lógico e verdade nas análises sobre a política atual. Seu raciocínio coincide com o meu sobre as últimas eleições nas três maiores capitais da nossa terra brasilis. O Pellegrino sempre foi muito fraco, com campanha fraquíssima (marqueteiro com visão antiga, burro). Em SP o Serra com seu discurso antigo, fraco já era já foi tarde. No RJ seria bom renovar oxigenar, mesmo. Bj


marcos santos on 14 novembro, 2012 at 18:18 #

Maestro,

sabe tudo e mais um pouco, soube resumir tudo…..abrs


José Garcia on 15 novembro, 2012 at 8:42 #

Parece que ontem (14/11), Emiliano José respondeu este artigo. Eu procurei mas não encontrei. Você o tem? Se tiver, seria interessante publicar.


roberto doval on 15 novembro, 2012 at 10:27 #

comentario totalmente lúcido, principalmente no que nos compete em particular que é Salvador. Pelegrino “mentalmente limitado”, é otimo. Parabens


MARIA ALICE COSTA COELHO on 15 novembro, 2012 at 10:47 #

Concordo. reluto um pouco com Neto em Salvador, não pela volta do Carlismo porque a vida não anda prá trás, mas, porque não reconheço nele um lider com postura de prefeito. Pelegrino, nem pensar!
Na verdade a cidade da Bahia está mesmo sem opção. De resto, torci muito pelas mesmas pessoas que você e no pipoca ali, quem sabe daqui a pouco pipoca aqui também. Amo você!


Hercia Azevedo da Silva on 15 novembro, 2012 at 20:08 #

Matéria de teor e de valor crítico para a politica baiana.

Vivo a dizer que nossa mentalidade continua do final da idade média, para o inicio do século XX.
Falamos do capitalismo, do sistema neoliberal, da fragilidade ambiental diante da pulsante mania de consumo de todo povo terrestre.

No entanto, não conseguimos superar um dos maiores problemas que afligem a humanidade. A defesa da razão interior de cada cidadão no mundo globalizado.

A quem diga que todas as guerras, das suas múltiplas formas tem origem nela.

Portanto, na cidade de Salvador aguardamos o início do primeiro capitulo da gestão do minimo prodígio, que diante da razão politica venceu seus adversários com classe e tem pela frente o desafio de fazer diferente de todos que governaram esta cidade.


Albione Souza on 15 novembro, 2012 at 22:02 #

Verdadeira “geleia geral”!


Nell Gonçalves on 16 novembro, 2012 at 10:47 #

É um “calhau”, incipiente, mas, bem redigido…


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