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A BOCA ABERTA DAS URNAS

Sérgio Costa

Há mais complexidade na urdidura do resultado destas eleições do que supõe o nosso vão impulso de interpretação.Na Cidade da Bahia, o PT de Dilma e Lula teve 54% dos votos em 2010. Jaques Wagner (PT) mobilizou o governo na campanha de Pelegrino. O rejeitado João Henrique deu apoio – ainda que discreto – a ACM Neto. O DEM era um partido em acelerado e franco processo de desidratação… O resultado parecia óbvio, não?

Pois deu Neto na cabeça, com 53,5% dos votos, quase 100 mil a mais do que o seu adversário. Ele venceu as poderosas máquinas federal e estadual, a popularidade de Lula e Dilma, uma campanha publicitária agressiva e a feroz boca de urna. Sai vitaminado da votação. Nacionalmente inclusive.

O PT de Fernando Haddad é o partido do mensalão. Teve, na reta final da campanha, medalhões condenados no Supremo por corrupção. O ex-ministro era um poste inventado pelo ex-presidente. Iniciou a campanha atrás de um experimentado José Serra – ex-prefeito, ex-governador, duas vezes candidato a presidente, teoricamente apoiado pela maior máquina regional do Brasil, o governo de São Paulo. O petista também era superado por um surpreendente Celso Russomanno, candidato que desafiava todas as lógicas políticas tradicionais… O desfecho se desenhava inevitável, não?

Pois deu Haddad na cabeça. Fernando ‘Andrade’, como os manos da periferia paulistana o batizaram. O ‘poste’ ganhou com 55,7% dos votos, 680 mil a mais de que o tucano, num sprint espetacular no segundo turno. Pegou senha para o cenário nacional.

É enganoso tentar reduzir as eleições de ACM Neto e Haddad a visões simplistas, tais como a volta do Carlismo ou a vitória do Lulismo. Quem enxerga assim arrisca a dar com os burros n’água em 2014.

Nesta eleição, os dois candidatos representaram o novo, a novidade, algum frescor em seus respectivos contextos. Entenderam as novas dinâmicas, principalmente de comunicação e de avaliação do cenário político, que transformam rapidamente a sociedade brasileira.

Neto fez uma campanha quase perfeita em Salvador. Liderou desde o início, à exceção de uma escorregadela às vésperas do primeiro turno, e foi sempre quem pautou a eleição.

Levou a sério o corpo a corpo até o último dia. Não à toa, tornou-se campeão de caminhadas em três meses de campanha oficial. Gastou sola de sapato por toda a cidade e até no gueto, onde o adversário subestimou seu desempenho.

No último debate, na TV Bahia, surpreendeu ao usar as redes sociais para pegar, em tempo real, Pelegrino nas contradições. Olhava para a câmera e, com tranquilidade, pedia à sua equipe que colocasse no Facebook vídeos ou reproduções de jornais em que Pelegrino se desmentia no passado de afirmações soltas ao ar no presente. Fez o link certo com a modernidade.

Até 2014, vai se gastar muita tinta e bytes na tentativa de explicar as vitórias de Neto e Haddad. Mas o único fato até agora é que o eleitor, este soberano, deu seu recado aqui e na pauliceia desvairada. Salvador e São Paulo esperam mudanças de gestão e atitude como fez o Rio há quatro anos e confirmou no primeiro turno. Que os eleitos façam bom proveito destes votos de renovação. Nossas cidades merecem presente e futuro melhores.

Sérgio Costa é diretor de Redação do Correio, jornal de maior circulação de Salvador atualmente.

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