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CRÔNICA/ TEMPO TEMPO

Quando A TARDE era em Gotham City

Janio Ferreira Soares

Na longa noite que antecedeu a viagem, ouvi ruídos de panelas penduradas no alpendre; ouvi chocalhos de vacas nos currais; ouvi o canto áspero de caburés insones; ouvi Love Me Do nas ondas de um rádio distante; ouvi meu coração batendo no travesseiro; ouvi o São Francisco a caminho do mar; acho até que ouvi o mar. Mas a única coisa que eu queria naquele momento era o som da buzina da Rural que fazia a linha Glória-Paulo Afonso avisando a hora de partir. E quando finalmente ela surgiu alvoroçando as andorinhas que viviam entre a torre da igreja e a casa paroquial, eu já estava de banho tomado, pronto para ir pegar o ônibus que me levaria pela primeira vez a Cidade da Bahia. Eu tinha lá meus 8 anos e confesso não me lembrar se a roupa que eu vestia era nova ou usada, ou se o sapato que eu calçava era fosco ou luzia. Só sei que a mala que eu carregava – não recordo se de couro ou de pano – ia bem leve de coisas, embora lotada de sonhos.

E foi assim, conduzido pelas mãos de meu tio Lindemar – um velho frequentador da Rua Chile e adjacências -, que eu cheguei à pensão de seu Brandão, na Rua Ruy Barbosa, situada numa região que parecia planejada para impactar sentidos habituados a serras, campos e quintais, com suas imensas avenidas e majestosas construções, que ao entardecer lembravam certos prédios da velha Gotham City de Batman, só que sob a proteção da mão do poeta na contraluz do crepúsculo.

Alguns flashbacks: Vovô Gepetto dando vida a Pinóquio na tela do Tamoio; minha primeira Fratelli acompanhando um sanduíche de um queijo metido que logo vi ser apenas um primo do nosso coalho; o orgulho do meu tio me mostrando o imponente prédio do ainda cinquentão jornal que ele lia e depois me dava para que eu recortasse as cópias dos cartazes dos filmes em exibição e os colasse num velho caderno escolar; o inigualável frio na barriga ao descer o Elevador Lacerda; e uma saudade danada de minha peteca assim que vi a quantidade de pombos dando sopa em frente à Sorveteria Cubana.

P.S. E amanhã, dá Robin ou Superman?

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura. Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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Comentários

Olivia on 27 outubro, 2012 at 12:56 #

Belo artigo, Janinho. Saudades da Rua Chile.


regina on 27 outubro, 2012 at 14:46 #

Caro Janio, acompanho sua prosa e suas recordações que são as mesmas de muitos de nós, vindos de passagens áridas do sertão, ao desembarcar um dia na divina e maravilhosa cidade da Bahia, a Salvador dos nossos sonhos. Essa praça do poeta e do povo acolheu muitos sonhos e gozos de antigos carnavais…
A cidade é majestosa, velha e nova, senhora e menina, rainha e escrava, por séculos é o berço do Brasil, quem a conhece não esquece jamais, por isso, às vésperas de mais uma eleição, onde os soteropolitanos sem lá muita escolha, debatem entre o regresso ou o avanço de algo malhado e manchado por mandatos que de certo não honraram a história da magnífica cidade, fico aqui, de longe, imaginando qual a saída…. Teremos que jogar os búzios ou oferecer prendas ao Senhor do Bonfim para que nos iluminem?
De todas formas, aqui, no país de Robin e Superman, a coisa não é diferente,estamos sem saída…..


Graça Azevedo on 27 outubro, 2012 at 22:31 #

Lindo o texto de Jânio, maravilhosa a prosa de Regina com direito a uma séria reflexão.


Carlos Volney on 28 outubro, 2012 at 11:38 #

Associo-me aos comentários. Realmente, o artigo de Janio é de uma beleza singular, verdadeira poesia em prosa. Como sempre acontece, aliás, em tudo que ele escreve.
Quanto ao comentário de Regina, ele nos redime. Ela sintetiza, com rara sabedoria, o sentimento de nós outros, que aínda conseguimos manter o senso crítico.
Aliás, ver diferente só os que estão dominados pela cegueira decorrente do fanatismo ou os comprometidos por conveniência sabe-se lá de que ordem.


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