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ARTIGO/OPINIÃO

Zé Dirceu nas entrelinhas

Maria Aparecida Torneros

Ler ou escrever sobre o Zé Dirceu, requer saber reler as entrelinhas da sua história

Políticos, os há, de toda sorte, ordem, origem, identificação ideológica, trajetória baseada em sorte ou oportunidade, perseverança, estilo próprio, carisma que vem de berço, ou crescente ao longo dos anos, com simpatia respeitável ou questionáavel antipatia, arrogância detestada ou coragem admirada, liderança reconhecida, capacidade de engendrar estratégias e de conciliar acordos, narcisismo acalentado, poder de persuasão, olhar futurista, sorriso largo ou contido, palavra amena ou arrebatadora, postura e presença constantes, arroubos defensivos e ataques desfechados para atiçar ou derrubar inimigos.

Um dos personagens em questão poderia ser qualquer bom profissional da política internacional ou nacional, com o nome citado nas primeiras páginas dos principais jornais que informam sobre a vida que circula nos meandros do poder de nacoes ou povos ao redor do mundo e precisamente nos bastidores da performance eleitoral que o Brasil assume em regime de arregimentaçao de votos ou de simpatizantes que gerem votos para que se atinja objetivos plenos de vótorias em pleitos espalhados em cidades, estados, regioes, rincoes longinquos, lugares onde a brasilidade sacode ideias e expectativas, sob a egide do embate de idéias, atitudes, propostas, números alcançados , indices atingidos, qualidade de vida ampliada ou melhorada ou ainda sonhada por centenas de milhares de criaturas cuja necessidade maior parece alicersar-se na confianca que depositara em alguem que os protegera muito mais do que os representara em postos ou cargos de comando.

Um tribunal superior, a chamada Alta Corte, acaba de condená-lo como “chefe de quadrilha”, com pompas teatralizadas e televisionadas, confundindo-se com período eleitoral e quase duas décadas de poder do PT, partido que ele comandou e onde milita diuturnamente desde sua fundação.

Percebe-se que há desses políticos, em forma e conteúdo, sim, deles, existem aos milhares, pelo mundo, nas histórias contadas em livros biográficos ou romanceados, e nos relatos memoráveis dos bastidores, que um dia, podem virar filmes de grande circuito, porque as historias de políticos lendários como é o caso do Zé Dirceu, rendem sinopses atraentes ao mesmo tempo em que incitam a curiosidade dos públicos mais diversos e atentos

Um brasileiro cuja história pessoal se confunde com as últimas 5 décadas da vida nacional, tal a sua vocação de fênix a ressurgir dos rolos compressores em que se viu metido ao longo dos tempos, nas perseguições da ditadura militar, na vida clandestina, na cassação, no ressurgimento à luz do comando do PT, por dezenas de anos, no papel fundamental que exerceu durante as campanhas que levaram o presidente Lula ao topo do Poder, e ainda, no efeito avassalador que a informação e a contra-informação exerceram no episódio apelidade de “mensalão”, que, a partir de 2005 espoucou como se fora um meteoro gigante a bombardear a vida republicana em pleno mandato do poder petista, prato cheio para a oposição aturdida. Agora, a condenação do STF e sua reação de bravo guerreiro a clamar que lutará para provar sua inocência.

O Zé explode na mídia nacional trazendo a sua figura para o primeiro plano novamente! Digno de ser observado à luz do seu tempo, da sua geração, dos modelos aos quais se viu atrelado, mas sobretudo, da capacidade de se reinventar, como ele mesmo disse, quando tudo parece destruído por uma tempestade avassaladora, em efeito dominó de inquisição extemporânea, onde a subjetividade na interpretação da lei é facultada a um grupo seleto de senhores e senhoras que estudam o comportamento legal dos cidadãos e a eles é delegada a missão de julgar e apenar os que são réus em processos quilométricos, de zilhões de folhas, que talvez já não confundam nas barafundas das intenções , nem as almas penadas, aquelas que certamente vagam por corredores estreitos da justiça sonhada em tantas eras medievais ou antigas, modernas ou contemporâneas, justificando-se poderes e democracias com armas , guerras, bombas ou com palavras, milhares de palavras, ou ainda, com atos, atos, atos institucionais ou institucionalizados.

Há um Zé em cada brasileiro ou brasileira que nasceu sob a égide do Gigante Adormecido que sonhava acordar para as liberdades sem arbitrariedades. Talvez haja mais de um Zé, um mito que ultrapassou o criador , esta criatura que venceu e perdeu, que lutou e luta, que argumenta e esbraveja, é referência de embates e como ele mesmo diz: a luta continua! O personagem é maior que o enredo, disso eu não tenho dúvida. Daí, que é preciso acompanhar detalhadamente tudo o que está nas entrelinhas da história do Zé Dirceu, para não se perder o foco das cenas de atores que fazem do Brasil um grande espetáculo em torno de seu despertar para uma fase pós colonizada, ainda que ainda doam as diferenças sociais, o país avança, apesar de tudo, no modelo ainda dominante da medição do PIB, mas é possível sustentabilizar o processo de desenvolvimento, é necessário repensar e reformar a prática viciada da política brasileira, é factual que se formulem oportunidades para as novas gerações no sentido de melhores oportunidades de educação, cultura, saúde e meio ambiente. É bom lembrar que há uma Dilma que viabiliza e segura a peteca nacional com a batuta de uma dona de casa experiente, enquanto a nação se movimenta e brada por melhores dias, à custa de palavras, atos, leis, reformas, esperanças e até injustiças.

Cida Torneros é escritora e jornalista, colaboradora da primeira hora do Bahia em Pauta, mora no Rio de Janeiro

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 23 outubro, 2012 at 18:18 #

A biografia de um homem é feita pelos seus atos, e Zé, o Dirceu, entre outras coisas, é um quadrilheiro condenado, num processo em que teve todas as oportunidades de defesa, além do esforço inusitado do filho da amiga da mulher de Lula, em produzir voto alentado para sua absolvição.

Lendário ou não, Zé Dirceu, é réu condenado, esperando a dosimetria. Essa singela operação contábil que parece transformar ministros em estagiários cheios como ficou dmeonstrado na tarde de hoje.

De resto as paixões, os juízos de cunho pessoal, tão afeto ao conceito de camaradagem, mas que felizmente não escrevem a história.


vangelis on 23 outubro, 2012 at 23:45 #

O texto é bom, todavia, como Brasileiro discordo de que haja um Zé em mim. Não quero estragar a minha estória de vida como trabalhador, muito construí e pouco usufruí. Contudo diferentemente do Zé não a enlameie…


danilo on 24 outubro, 2012 at 0:25 #

vade retro, satanás! afasta minh´alma deste Zé. também não tenho parte com este santrapantonoso do dinheiro público.

aliás, estes arroubos (ops, a palavra cai bem pro Zé), de amor pelo petismo lembram aqueles textos que se escreviam para defender Collor.

e, na época, os lullo-petistas adoravam ler e insuflavam os jornalistas da revista Veja para denunciar as maracutaias do collorido ex-presidente.

agora, os personagens mudaram, e Zér virou corrupto e quadrilheiro.


Cida Torneros on 24 outubro, 2012 at 7:15 #

Como boa democrata, agradeço os comentários, respeito o direito de manifestação, do mesmo modo que sei que respeitam o meu. Um adendo, nunca fui petista, mas serei sempre brasileira, independente para pensar, expor e compreender que há momentos em que a emoção nacional é balizada pela construção midiática direcionada aos interesses vários e maiores das classes dominantes. Não sou juíza, admiro os que trabalham com a lei, a seu contento, crendo que julgam conscientemente e baseando-se nos autos, como profissional de comunicação acompanho os fatos nacionais há 42 anos, modestamente, o
observando e registrando, e, aos 63 anos, conheço bem, por força das circunstâncias, os meandros e os bastidores da organização político-partidária, em termos de avanços e retrocessos, mas, sobretudo, preciso dizer que a foto acima, aliás, é do registro de uma festa em que estava, em SP, há uns anos atrás, e encontrei o Zé, que conheci nos meus tempos de estudante secundarista. Insisto que ele é um personagem digno de um , ou de vários longa-metragens, de muitos livros, de muitas elocubrações ou adjetivos ofensivos ou elogiosos, mas o que me faz escrever sobre ele é justamente a conclusão do quanto há de instigante na vida brasileira em termos de busca por culpados exemplares para lavar a honra nacional enquanto continua tudo como dantes no quartel de abrantes, enquanto não se fizer verdadeiras reformas políticas, com investimentos altos em educação, saúde e meio ambiente. Obrigada por lerem minhas humildes considerações. Abraços cristãos para Luiz Alfredo, Vangelis e Danilo.


luiz alfredo motta fontana on 24 outubro, 2012 at 8:36 #

Saudades de um tempo em que “bandoleros” eram interpretados por “Errols flyn” e encantavam as mocinhas das matinées.

Tempos outros, crimes outros, agora resta um Zé, cada dia menos Dirceu e distante de Vladimir Palmeira ou Luís Travassos, um simples e decadente Zé, condenado por integrar uma quadrilha, cujo mentor, todos sabem, mas ninguém viu, afinal, nunca antes neste país..

E as mocinhas já não têm por quem chorar…


vangelis on 24 outubro, 2012 at 10:21 #

A grande virtude do cristão é o perdão, todavia, quem fez pacto, como o Fausto, com o anhangá, o belzebu, o capiroto, o coisa-ruim, o cramulhão, o demo, o pé de cabra, o rabudo, o sete-pele, o tranca-rua, o tinhoso ou mesmo o zaneta, não será perdoado por este que levará a sua alma suja para as profundas dos infernos de Dante. Espero que ao lá chegar não troque a placa de entrada “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate” por uma outra “Sob nova direção”…


Olivia on 25 outubro, 2012 at 7:10 #

Tá faltando delicadeza, Cida, a estupidez e a mediocridade avançam. Um abraço.


Cida Torneros on 25 outubro, 2012 at 21:25 #

Olívia beijo. Sou da Paz!


Lala on 2 Maio, 2017 at 17:21 #

Lala on 2 Maio, 2017 at 17:23 #

Muito interessante associar o Dirceuzinho à entrelinhas …. kkkkkk


Mariana Soares on 3 Maio, 2017 at 10:56 #

Creio que já falamos algumas vezes sobre a admiração que sinto por vc, Cida, especialmente, no que toca ao Zé Dirceu, não por ele, é claro, que só tem de mim indignação e ojeriza. Mas, pela sua quase obstinação em tentar nos mostrar algo dele que só vc consegue enxergar. Morrerei defendendo o direito de vc expressar o que sente e a respeito, cada vez mais, por isso.
Quanto a mim, no entanto, detestaria sequer imaginar ter eu na minha vida/história qualquer traço, por mínimo que fosse, desse “Zé”. Não! Isso, nunca! A honestidade e a coisa pública para mim são sagrados! Aprendi com meu pai e vou levar comigo pela eternidade.
Hoje, para mim, é um dia de luto absoluto pela decisão do STF que tirou Ze Dirceus na cadeia. Estou absolutamente sem esperança e indignada.


Cida Torneros on 3 Maio, 2017 at 12:00 #

Bom dia Mariana e muito prazer, Lala. Obrigada por comentarem artigo antigo. Sou livre, como vocês, para opinar e respeitar. Conheci ZD no tempo das passeatas de 67/68. Eu namorava Zé Luiz até era o presidente do grêmio dos alunos secundárias do Colégio Pedro II. Em finais de 68 perdi ambos de vista. Soube muitos anos depois que o meu Zé Luiz se enganou na luta armada e desapareceu tendo milita do no MR8.. Em 69 entrei para a UFF onde cursei jornalismo, profissão que exerci mais de 40 anos. Em 74 iniciei o mestrado em Comunicação comunicação na UFRJ onde defendi teses sobre Comunicação e inconsciente.. Dediquei me a trabalhar em assessorias de imprensa nas áreas de saúde, obras e meio ambiente. Também editei nos anos 80 um jornal para a colônia espanhola no Brasil. O acaso fez eu reencontrar ZD em sampa qdo ele já assumira com ministro do primeiro governo Lula no qual nunca votei e contei isso a ele. Por trocarmos é mais por algumas vezes até 2013, sempre ventila os a hipótese de eu escrever um biografia pirata, a não consentida.
Vivi minha vida de mãe de família tranquilamente, tenho mãe de 90 e filho de quase 40. Depois das passeatas de 68 só voltei às ruas na campanha das diretas já, na Candelária. Hoje estou aposentada. Tenho 67. Desisti de escrever a biografia do personagem mas como minha tese sob orientação do mestre Moniz Sodré foi ” Comunicação e inconsciente” aprendi a observar o quanto a personalidade humana é frágil ao julgar e estereótipos criaturas. Lala, realmente são elas, as tais entrelinhas, que indefinem o mundo em que vivemos. Todos estamos decepcionados. Com praticamente tudo. Mesmo assim lutaremos até o último momento para defender o direito da liberdade de expressão. O ZD terá muitas histórias para contar ao seu biografia oficial, Fernando de Moraes. Espero que publiquem. Atualmente estou lendo a biografia consentida de Fidel Castro. Um esperado trabalho de pesquisa da jornalista Claudia Fúriati.
Mariana, se deixei transparecer obstinacao a você foi um erro da sua interpretação.. Houve um tempo em que, antes dos 13 anos que fiz de terapia, eu fui obstinada pelo meu filho. Ele cresceu e o liberei do grude. Só isso. Convivo com um sonho ainda mas é praticamente utopia. Um Brasil como povo feliz, justiça do com direitos respeitados. Não sou filiada a nenhum partido político e gosto de ser católica praticante. Deus as abençoe!


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