================================================== As espumas flutuantes dos canaviais

Na manhã de 12 de abril de 2012, o poeta Fred de Souza Castro, da Geração Mapa, concedeu-me um longo depoimento, com ênfase em seu trabalho na TV Itapoan e na vida boêmia e cultural de Salvador, nos anos 50 e 60. Por considerar belo o trecho em que Fred se refere a Brotas e aos canaviais de Santo Amaro da Purificação, a cidade de sua infância, recorto o momento inicial da entrevista desta alma lírica e macia que morreu em 8 de outubro, aos 81 anos.
(Claudio Leal)

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Você foi fundador da TV Itapoan por acaso, não queria ir, não é isso? Antes disso, trabalhou na TV Tupi?
Fred de Souza Castro – Eu queria fazer cinema. Era a minha. O pessoal todo da turma de Glauber (Rocha) queria fazer cinema. Glauber realmente foi uma figura maior, ainda pouco conhecido. Muito pouco. De repente, o “Jornal do Brasil”, do Rio, o “Caderno B”, trouxe uma notícia de que haviam aberto um curso de formação profissional para televisão. Cheguei lá, fiz o teste, dei sorte, passei e fiz curso. Voltei depois deste curso.
Em que ano?
Aí, rapaz… Em 1959, por aí. Voltei para preparar as equipes aqui para a TV Itapoan. Os diários e as emissoras dos Associados estavam se preparando.
Já em 1960.
Em 60 foi a inauguração da TV Itapoan. Vim para cá (Salvador). Botamos a TV Itapoan no ar. Que, aos trancos e barrancos, se firmou, até que os diários e as emissoras dos Associados entraram em uma grande crise, com a morte de Assis Chateaubriand. Ele é uma pessoa que esculhambam muito, mas eu não esculhambo. Assis Chateaubriand fez realmente coisas de que o Brasil precisava. Trouxe para a Bahia, para Salvador, aquele menino que era um grande radialista…

Antonio Maria. Você conheceu Maria?
Antonio Maria. Conheci porque eu pertencia à “Hora da Criança”, um programa de rádio de Adroaldo Ribeiro Costa, que era meu conterrâneo. A “Hora da Criança” me deu essa possibilidade de conhecer várias pessoas e de fazer rádio, o áudio da televisão. Nessa época, morei pela primeira vez em Brotas (bairro de Salvador). O meu amor por Brotas vem dessa primeira etapa. Eu aqui vi uma extensão de Santo Amaro, do meu quintal, da minha beira de rio, do meu canavial. Apesar de não ter canavial aqui, tem a memória do canavial, com o chamado Engenho Velho e outras coisas que eu ia juntando. Se tinha um engenho, tinha cana. E tinha realmente: Engenho Velho da Federação, Engenho Velho de Brotas… Isso me deu a vontade de conhecer mais essa terra que não era a minha, mas se parecia muita com a minha, que era Santo Amaro, embora eu não tenha nascido em Santo Amaro. Nasci em São Gonçalo dos Campos, mas fui ser criado em Santo Amaro, porque lá estava minha família.

Uma vez, você me descreveu o movimento do canavial agitado pelo vento. Como era isso?
O canavial, quando tá “frechado”… O pessoal chama “frechado”, que é realmente a expressão correta: faz aquelas flechas, que viram cavalinhos de flechas. Cavalinho de flechas por isso: são aquelas flechas das canas cortadas no canavial que dão início a isso. Parece uma cabeleira do cavalo. Quando o canavial tá “frechado” – e eu digo “frechado” porque é como dizem, o que acho correto -, quando o vento passa, você vê o verde das canas, das folhas de cana, e aquele branco do cimo das folhas de cana assim balançando. Que é como as ondas, a espuma das ondas. Lembra até um poema de Arthur de Salles (1879-1952): “Brincam doudas como as crianças as espumas leves com as maretas mansas”.

Lembrei de “Espumas Flutuantes”, de Castro Alves.
E as “espumas flutuantes”, de Castro Alves… O Arthur de Salles morou em Brotas, perto de mim, no Pepino, e tinha uma irmã que morava na Boa Vista. E morava exatamente no local, talvez até ele sugerisse a ela, Dona Silô. Ele vinha de lá do Pepino, de tardezinha, com aquele cabelo assim, olhando e ouvindo, talvez, alguns poemas de Castro Alves, principalmente um que ele lembrava sempre: “A Boa Vista”. Aprendi muito com Arthur de Salles. Ele me deu muita informação. Era uma pessoa boa. E ele vinha olhar a “torre amiga” da qual Castro Alves falava quando retornava das caçadas, quando retornava a essa fazenda, Boa Vista. Boa Vista por isso: de onde se via. Brotas era um lugar muito bonito. Ainda é. Ali ele (Arthur de Salles) parava na porta na casa de dona Silô, irmã dele, e batia um longo papo, que envolvia uma série de coisas. Inclusive, eu me lembro de uma vez em que eu estava lá. Ele tinha um sobrinho chamado Luciano Salles, que já morreu. Luciano pertencia também à “Hora da Criança”. Tornou-se compositor mais tarde, poeta também. Luciano era muito amigo meu. Quando Arthur de Salles chegava, nós aguçávamos os ouvidos porque era sempre um aprendizado, não só porque ele trouxesse novidades, como também por ele ter uma maneira de falar que era poesia pura, no cotidiano, no dia-a-dia

Claudio Leal é jornalista. Soteropolitano do bairro de Itapagipe, mora em São Paulo.

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