ARTIGO

Finalmente, aterrissei no Brasil!!!

Maria Aparecida Torneros

Comecei a voltar ao Brasil, de uma viagem de três semanas, que fiz à Espanha, entre os meses de setembro e outubro. Na verdade, peguei o vôo em Barcelona, com paradinha em Madri, e o aibus me trouxe ao Rio, há quase uma semana.

Entretanto, tudo parecia estranho em mim, nestes dias desde a chegada ao Tom Jobim. Encarei logo a campanha eleitoral nos seus últimos momentos e me ajeitei como pude para decidir sobre o futuro da cidade, observando os movimentos dos eleitores e a sempre inflamada festa democrática que propõe rodízio de poder.

Retomei a companhia da minha mãezinha idosa, com quem passo os finais de semana, reiniciamos as trocas de frases quase soltas, lugar que atingimos quando o tempo nos dá um legado de vida longa junto daquela que já foi ativa e forte e agora claudica, depende, esquece muitas coisas, mas conserva a vivacidade de algumas lembranças ainda fortes, tornando-me uma criança sessentona a circundar sua presença e atender suas solicitações, que incluem, evidententemente, pequenos favores e atenções, como comprar sorvete e pipocas, na famosa inversão de papéis a que a idade nos conduz.

Minha vivência das semanas passadas na Costa Blanca me imputaram sentimentos vários, diante de uma Europa aflita por crise financeira, mas também de um mundo à parte em que nórdicos, russos, cidadãos do Reino Unido, cada vez mais invadem e escolhem aquela região ensolarada da Espanha, para desfrutarem suas aposentadorias em terras ibéricas que as acolhem entre muitos empreendimentos imobiliários e diversos novos hábitos culturais, que é possível identificar nos out doors em línguas díspares, nos restaurantes de comidas típicas inglesas, russas, e ainda, na convivência inteligente dos nativos espanhóis que nas lojas, shoppings, etc, dominam inglês e outros idiomas, com desenvoltura globalizada.

Aqui, revejo e falo com amigos e amigas diminuindo a saudade natural e acompanho os noticiários, incluindo julgamento do Supremo sobre o tema “mensalão” e os resultados eleitorais em todo o país.

Não posso deixar de citar que, apesar de não ter acompanhado antes a tal novela que virou febre, Avenida Brasil, foi justamente, ontem, ao assistir curiosa o tal capítulo do massacre da personagem Carminha, que me vi, finalmente, de volta à minha terra.

Diálogos fortes, ódios expostos, traições reveladas, tudo de uma vez só e pude entender o quanto a história atingiu o âmago do público noveleiro, em função de intrigas, vinganças, necessidade de justiça, e agora, vejo na televisão, mais um capítulo da votação que os ministros do Supremo fazem ao julgar os acusados do episódio que há 7 anos sacudiu a nação com a indicação de uma prática velha conhecida, que em termos de nossa história, no sentido de troca de favores entre parlamentares e governos, partidos e financiamentos de campanhas ou coisa que o valha.

Ver os detalhes expostos como se foram contas de um grande colar, me remete a uma lavagem de roupa suja que a família brasileira estimula tanto quanto torce pelo castigo das personagens mentirosas da novela das nove, há qualquer coisa mais profunda, talvez um apelo inconsciente da sociedade que não conseguiu julgar a contento as injustiças da ditadura militar, mas que se coloca em guarda para julgar com rigor aparente os eventos de empréstimos fraudulentos ou não, que partidos costumavam fazer, para salvar suas finanças, como parece indicar situação repetida em instituições como o PSDB, em Minas Gerais, e o PT, em termos nacionais.

Além do mais, ao identificar que o Partido dos Trabalhadores acaba de obter a maior votação em números redondos nas eleições municipais desta semanas, finalmente, tenho a certeza, aterrissei no Brasil, pois concluo que o povo votou independente da grande produção que se armou para a transmissão do julgamento, indicando que este país é contraditório e ainda aprende a exercer a democracia com passos de quem pisa em ovos.

Buscamos culpados para modelos viciados que, no fundo, podem ser evitados com reformas tão pleiteadas, que demandam coragem para serem implementadas, e que, a novela das nove causa tanto frisson porque , como assisti um participante do programa da Ana Maria Braga definir: há uma “cornitude” necessitada de justiça.

Realmente, acabo de voltar ao Brasil, cheia de galhos na cabeça, traída pela minha própria brasilidade, identificada com mazelas locais, e até esperançosa de que deixemos de lado tanta hipocrisia e enfrentemos com galhardia, decisão e trabalho, nossos reais problemas, que são educação, saúde, reformas eleitorais e eliminação dos “lixões” sociais onde ainda sobrevivem nossos podres poderes.

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro e colabora com o BP desde os primeiros dias do site blog baiano com antenas para o mundo.

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