Fred:”(Só o morto é único)”.

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Por: Claudio Leal

Fred de Souza Castro

Meses atrás, depois de um longo depoimento gravado, o amigo Fred de Souza Castro, poeta com alma de poeta (o que costuma ser raro), entregou-me um livro de inéditos. Pensou em chamá-lo de “A loucura adiada”, mas, ao que parece, adiou a loucura e o projeto. O título provisório é “Kitanda de bem dizer”. Fred lamentava a dificuldade para editá-lo na Bahia. Entre esses inéditos, pincei um poema, o qual publico em tributo de um dos principais intelectuais baianos. Sem a licença prévia do pintor Ângelo Roberto, digo que também é uma homenagem dele, seu grande irmão e pastor de noites comuns.

O MORTO

Ali segue o morto,
em seu caixão trabalhado,
como uma moeda no cofre.

Já não sofre;
a morte o iguala
às coisas inertes:
cristais,
metais,
o som do espaço.

Seu tempo flui
como areia fina
em ampulheta.

O morto é um anjo;
sequer um homem.
(Um anjo entornado
em seu caixão trabalhado).

Agora é a hora dos adeuses:
um demorado desfilar de olhares
sobre o vazio do lado.

Como carta lacrada
encerram o morto;
meninos e meninas retornam ao lúdico,
iguais em tudo.
(Só o morto é único).

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Comentários

Rai Costa on 9 outubro, 2012 at 16:09 #

Fred Souza Castro não é só um poeta que escreveu livros e passou. Fred é eternidade presente em palavras que podem ser encontradas em livros, em estantes e instantes de lembranças, como agora. Fred Souza Castro e Jehová de Carvalho já estão fazendo a felicidade dos anjos, deuses ou orixás. E viva a Bahia dos anos 40 a 70 que nos trouxe muitos Fredis. Hoje Salvador ficou mais pobre.


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