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ARTIGO DA SEMANA

Eleições e Mensalão: Justiça, Política e Jornalismo

Vitor Hugo Soares

O telefone chama de São Paulo. Depois do terceiro toque, hábito antigo, atendo em Salvador. Na outra ponta da linha, entre as duas capitais envoltas igualmente em dúvidas, polêmicas e expectativas quanto a votação deste domingo (7) (acentuadas pelos resultados, para todos os gostos, embutidos nas pesquisas de intenção de voto para prefeito, colhidos pelos diferentes institutos).

Cidades igualmente complexas e emblemáticas em suas semelhanças e dessemelhanças, na distância entre o Sudeste e o Nordeste. “E aí, como vai”, escuto de saída, sem conseguir identificar direito no primeiro momento se é uma pergunta ou um jeito pessoal do interlocutor de procurar conversa. Ou as duas coisas, ao mesmo tempo?

A voz, no entanto, é inconfundível . Chega aos ouvidos com tom e sotaque que revelam e sintetizam, ao mesmo tempo, o forte traço de ligação e identificação da pessoa que fala com a Bahia e São Paulo, apesar de tanta estrada e tanto mar entre as duas regiõers do país.E por mais que persistam, ainda submersos e intocáveis, vários traços de divergências e contrastes entre uma e outra cidade. Para o bem e para o mal, é bom esclarecer.

Estou na linha com o jornalista Bob Fernandes, voz e jeito que conheço há décadas. Desde que ele, recém formado na Escola de Comunicação da UFBA, começava a estagiar na Sucursal do Jornal do Brasil (depois de passar pela equipe pioneira da Radio JB-FM Salvador), cuja redação eu então chefiava na Bahia. Na chefia da sucursal, o jornalista Florisvaldo Mattos.

Primeiro na central Rua Chile, por onde transitavam os grandes personagens e quase todos os “ruídos” (como dizia o saudoso editor nacional do JB, Juarez Bahia) e fatos políticos, econômicos e sociais mais relevantes – jornalisticamente falando. Depois em Pernambués, onde Bob começou, na vizinhança bucólica do Cabula, bairro das mangueiras e pés de laranjas de frutos mais doces e famosos naquele tempo em Salvador.

Tem sido assim desde então. Por maior ou menor que seja a distância a separar as duas pontas da ligação. Em Sampa ou Nova Iorque, em Londres ou na China. Com maior ou menor intensidade, mas sempre. Em tempos promissores ou temerários. Às vezes o telefone toca de manhã. Outras, de tarde. Algumas vezes já soou em plena madrugada.

Mania herdada pelos dois, do tipo e da qualidade do jornalismo que então se fazia no JB, onde “checar uma informação” era sagrado, quase tanto quanto o próprio fato. Em nome dessa sacralidade, qualquer profissional, político, empresário ou governante podia ser tirado da cama a qualquer hora da noite.

Em ocasiões a chamada telefonica se dá pela simples vontade mútua de conversar, falar de jornalismo, dos fatos da vez – das eleições, do julgamento no STF, do Bahêêa ou do Vitória, do Santos, da saúde, da vida. Ou para trocar impressões, informações, afetos, divergências. Sim, porque divergir é básico e salutar, no jornalismo como nas amizades.

Desta vez não é diferente. Falamos da complicada eleição paulistana e soteropolitana, mas, principalmente, da cobertura na imprensa sobre fatos e rumo do julgamento dos réus do processo do Mensalão, sintetizados nos embates dos ministros Joaquim Barbosa (relator) e Ricardo Lewandowski (revisor) no plenário do Supremo Tribunal Federal.

Na conversa, ficou no ar “um lapso de memória”. Na hora não consegui lembrar o nome de um livro que comprei há anos em Buenos Aires, li, reli e a ele tenho recorrido muitas vezes em meu ofício. São o livro e o seu conteúdo a razão destas linhas que resvalaram por desvãos da memória, fugindo da “objetividade” cobrada por seus arautos – nem sempre fiéis ao que pregam para os demais que os lêem ou os escutam.

Tenho o livro agora na minha frente. É “Entre Periodistas”. Na verdade, uma coleção de entrevistas feitas pelo argentino Teódulo Rodrigues, “obra pródiga em experiências, sentimentos, estilos diferentes”. Não são entrevistas para perguntar “o que pensa de…?”. São conversas intimistas, emocionantes algumas, agudas ou críticas outras, mas em todas elas a presença, a preocupação e o sentido do ser jornalista e fazer jornalismo.

Uma das entrevistas mais expressivas e interessantes é com o jornalista Cláudio Andrada, sobre a cobertura dos tribunais. O entrevistado revela que “o juiz tem medo do jornalista que não conhece os procedimentos da justiça”. Para terminar, um trecho exemplar da entrevista do jornalista (então no Clarim), que traduzo (precariamente):

“A justiça tem duas partes: A da justiça em sí mesma e, logo, a da política. A política está presente em todas as resoluções tomadas pela justiça em qualquer nível, seja um juiz de primeira instância ou da Corte Suprema… Na Corte Suprema, os juízes são todos representantes do povo, mesmo quando nomeados pelo Poder Executivo. É o que se chama de nomeação em terceiro grau”… E fazem política, muita política em seus julgamentos.

Os jornalistas, no entanto, em geral, têm um certo pavor dos juizes e dos tribunais. Cobram rapidez e linguagem fácil de entender – ainda mais no tempo em que os meios eletrônicos e as redes sociais se fortalecem cada vez mais e querem a notícia para já, não podem esperar um dia, como os jornais impressos. Os profisionais da imprensa não querem meter-se no meio dos autos, “que são demorados, aborrecidos e difíceis de entender”. Estão criados então o impasse e a birra mútuos. No Brasil destes dias, o caso do Mensalão tem sido divisor de águas nas relações imprensa – justiça. Para o bem e para o mal.

Mas isso fica para outra vez. Só há tempo e espaço, agora, para desejar um bom voto neste domingo de eleições.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Mariana Soares on 6 outubro, 2012 at 9:49 #

Belíssimo texto! Emoção, verdade, elegância, competência são apenas algumas das virtudes que você e Bob sempre demonstram neste e em outros espaços do jornalismo e da vida! Isso é raro, muito raro, nessa fogueira de vaidades do jornalismo, da justiça e do mundo que vivemos! Parabéns! Sigam a nos premiar com o jornalismo que praticam!
Quanto as eleições, seja em Salvador, seja em São Paulo, não há, na minha opinião, qualquer chance de êxito ou esperança – os candidatos de plantão não nos concede este direito ou ilusão!


Graça Azevedo on 6 outubro, 2012 at 12:23 #

Concordo com Mariana inclusive nos adjetivos dirigidos aos dois grandes jornalistas. Com eles aprendo sempre.
Obrigada, Vitor, por mais um sábado em sua companhia, aluna sempre.


Olivia on 6 outubro, 2012 at 12:52 #

Nada a acrescentar, dois jornalistas de responsa. Viva!
Minha torcida está toda voltada para Marcelo Freixo, no RJ, para mim, o melhor candidato do país. Aqui, minha alegria em poder votar em Waldir Pires para vereador da minha cidade. Por respeito a Salvador!


luiz alfredo motta fontana on 6 outubro, 2012 at 14:29 #

Caro VHS

Percorrer teu texto é se encantar com cadinhos de poesia, entremeados de excessos fraternos, de esperanças dos que ainda crêem, da singeleza dos que já domaram a pretensão de tudo compreender.

Sábados têm esse gosto, têm esse tom, tem esses momentos…sábados são gulosos, não se contentam com Vinicius “Porque hoje é sábado” de Moraes, agora se apresentam orgulhosos com teus textos.

Já a crônica sobre o judiciário…

É deserta de bons analistas, jornalistas, articulistas, ao que parece, as redações, muito de temor reverencial, escalam para a cobertura dos tribunais raia miúda, os novos em treinamento, os que buscam uma promoção, os que ainda não conhecem o mundo, excessões feitas, é claro, aos eventos notáveis, como o mensalão, e tome improviso nas opiniões.

Assim permanece pobre a crônica, traduzida em mesuras , em salamaleques, em cortesias submissas, desprovidas de teor crítico, jamais desnudando personagens quase sempre obscuros.

Assim, artigos escoam falando sobre Excelências, em perspectivas planas, sem profundidade, conformando o mundo pelo que parcamente absorvem de caudalosas laudas prenhes de citações doutrinárias ou da dita jurisprudência, esta que pode ser coleção de acertos ou, até mesmo, de erros crassos.

Os juízes temem os jornalistas, mas também o fazem por desconhecerem o mundo, e os jornalistas receiam as redações, que jamais perdoariam acidentes de percurso com tal nobre e temido poder.

É a vida…

Mas…

Hoje é sábado!!!

Tim tim!!!


regina soares on 6 outubro, 2012 at 16:14 #

Aqui, de longe, e sem as ferramentas, dependendo de minusculo teclado do iPhone, nao posso deixar de adicionar minha voz ao unisono dos aplusos ao artigo de Hugo que, como sempre, revelam apresso e lealdade aos amigos e a inquietude qto a realidade politica das cidades que pesam na balanca cultural e economica do nosso Brasil. No mais, tirar o chapeu ao poeta, o sentido critico e alerta e mais que preciso…


Jader on 6 outubro, 2012 at 16:18 #

Da Época

O lugar de Genoino

Paulo Moreira Leite

Nossos crocodilos ficaram sentimentais. Em toda parte vejo lágrimas que acompanham os votos que condenam José Genoino.

Na imprensa, em conversas com amigos, ouço o comentário, em tom de solidariedade. Parece consciência pesada, em alguns casos.

Não estamos diante de um melodrama mas de uma tragédia.

Genoino está sendo condenado num julgamento marcado por incongruências, denuncias incompletas e presunções de culpa que começam a incomodar estudiosos e acadêmicos. Foi isso que explicou Margarida Lacombe, professora de Direito da UFRJ, em comentário na Globo News. Sem perder suavidade na voz, a professora falou sobre necessidade de provas contundentes quando se pretende privar a liberdade de uma pessoa. Não falou de casos concretos, não criticou. Fez o melhor: informou. Lembrou como esse ponto – a liberdade – é importante.

Vamos começar.

O STF que está condenando Genoino absolveu Fernando Collor com o argumento de “falta de provas.”

É o mesmo STF que, em tempos muito mais recentes, impediu que o país apurasse, investigasse e punisse a tortura ocorrida no regime militar.

Então ficamos assim. José Genoino, vítima da tortura que o STF impediu que fosse apurada, será condenado por corrupção, ao contrário de Fernando Collor.

Parece o Samba do Crioulo Doido do Stanislaw Ponte Preta. É. Mas não é o texto. E a “realidade brasileira”, como se dizia no tempo em que a polícia política perseguia militantes como Genoino.

Não há provas materiais contra Genoino e tudo que se pode alegar contra ele é menos consistente do que se poderia alegar contra Collor. Mas as provas da tortura são abundantes. Estão nos arquivos do Brasil Nunca Mais e em outros trabalhos. Foram arrancadas na dor, no sofrimento, na porrada, no sangue e, algumas vezes, na morte. Em plena ditadura, 1918 vítimas da tortura deixaram registros dessa violência nos arquivos da Justiça Militar. Nenhuma foi apurada e, se depender da decisão do STF, nunca será.

Collor foi beneficiado porque provas muito contundentes contra ele foram anuladas. Considerou-se, na época, que a privacidade do tesoureiro PC Farias havia sido violada quando a Polícia Federal quebrou o sigilo de um computador que servia ao esquema. Essa decisão – em nome da privacidade — salvou Collor.

Você pode dizer que os tempos eram outros e que agora não se aceita mais tanta impunidade. Aceita-se. Basta lembrar que, na mesma época, o mensalão do PSDB-MG virou fumaça na Justiça Comum. E quando Márcio Thomaz Bastos tentou mudar o julgamento do mensalão federal, alegou-se que era no STF que os crimes graves são punidos.

Vamos continuar.

Genoino está sendo condenado porque “não é plausível” que não soubesse do esquema. “Plausível”, informa o Houaiss, é sinônimo de aceitável, razoável. Olha o tamanho da subjetividade, da incerteza.

Isso porque ele assinou o pedido de empréstimo de R$ 3,5 milhões para o Banco Rural e por dez vezes refez o pedido. Não é plausível imaginar que um presidente do PT fizesse tudo isso sem saber de nada, acreditam três ministros do Supremo.

Mas fatos que são líquidos e certos não comoveram a acusação com a mesma clareza.

O empresário Daniel Dantas deu R$ 3,5 milhões para amolecer Delúbio Soares e Marcos Valério e cair nas graças do esquema. Não foram R$ 3,5 milhões subjetivos mas inteiramente objetivos.

Um pouco mais tarde, seu braço direito Carla Cicco assinou um contrato de R$ 50 milhões com as agências de Marcos Valério para transformar a turma do PT em geléia. Chegaram tarde. Depois de pagar a primeira prestação, a casa caiu e eles suspenderam o pagamento.

Como não gosto de pré-julgar, não acho que Daniel Dantas seja culpado por antecipação. Não acho mesmo. Vai ver que estava tudo lá, bonitinho. Também podia ser ajuda para o Fome Zero rsrsrsrsrs

Ou quem sabe fosse tudo para Valubio.

Mas não teria sido melhor que ele fosse ouvido no tribunal, para mostrar sua inocência?

Não teria sido uma forma de mostrar que a Justiça é cega?

Mas ela não foi.

O esquema privado do mensalão, informa a CPMI, chegou a R$ 200 milhões. Quantos empresários foram lá, dar explicações? Nenhum.

Alguém acha plausível, aceitável, razoável, que fossem inocentados por antecipação?

Não há nada “plausível” que se possa fazer com R$ 200 milhões?

Só a Telemig, que pertencia ao grupo Opportunity, de Daniel Dantas, entregou mais dinheiro às agências de Valério do que o Visanet, que jogou o petista Henrique Pizzolato na vala dos condenados logo nos primeiros dias.

O que é plausível, neste caso?

Nós sabemos – e ninguém duvida disso – que Genoino fazia política o tempo inteiro. Fez isso a vida toda, com tamanha inquietação que, numa fase andou pela guerrilha do Araguaia e, em outra, ficou tão moderado que parecia que ia preencher ficha de ingresso no PSDB.

Chegou a liderar um partido revolucionário à esquerda do PC do B e depois integrou as correntes mais à direita do PT.

Então vamos lá. É plausível imaginar que Genoino tenha ido atrás de recursos de campanha? Sim. É plausível e até natural. Basta deixar de ser hipócrita para compreender. Política se faz com quadros, imprensa, propaganda, funcionários. Isso custa dinheiro.

Isso fez dele um dirigente que subornava adversários para convencê-los a mudar de lado, como quer a acusação? Não.

Eu não acho plausível, nem aceitável nem razoável. Duvido inteiramente, aliás.

E se eu tiver errado, quero que me provem – de forma clara, contundente. Sem essas suposições, sem um quebra-cabeças que joga com a liberdade humana.

Sem fogueira de tantas vaidades.

Não chore por nós Genoino.

Alegou-se que a tortura não poderia ser apurada para preservar a transicão democrática.

A democracia avançou, as conquistas foram imensas. Mas os perseguidos, no fundo, bem no fundo, são os mesmos.

Não é um melodrama. É uma tragédia.


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