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crônica/lugares e gente

Antigamente

Gilson Nogueira

A boca vermelha daquela loura era um convite ao mergulho no paraíso azul do Farol da Barra. Até o mar que vestia minha alma dos pés à cabeça não se conteve e invadiu a faixa de areia onde as crianças brincavam, para se espreguiçar após o gozo matinal. O sol, da sua majestosa visão da orla de Salvador, piscou e disse-me: “ Vá em frente, cara !”
Ao chegar suado em casa como tampa de cuscuzeiro, abri o chuveiro. E vi escorrer a manhã de sábado que ficou na pele. Um fogo líquido feito lava de paixão contida foi pelo ralo. O sabonete escorregou da mão e me fez gargalhar ao lembrar dos anos em que a Turma do Campo da Pólvora, no bairro de Nazaré, era conhecida como a mais brigona do Brasil, em todos os tempos.

Êpa, que “viagem”, essa minha, só para falar que, na esquina da história, onde a lenda faz ponto, diariamente, diversos nomes de porradeiros célebres do Campo da Pólvora, Rua da Mangueira, na Mouraria, Ribeira, Itapagipe, Rio Vermelho, Barbalho, Porto da Barra, Lapinha e Liberdade, dentre outros bairros-celeiros de bons capoeiristas, e pugilistas amadores, soteropolitanos, são rememorados por aqueles que viveram a Salvador dos anos 1950 a 1970, sem a violência de hoje, que mete medo, até, ao gato angorá de uma amiga que não perde a novela das sete.

Aliás, a lembrança do pessoal que dava um boi para não entrar em uma confusão e uma boiada para não sair dela surgiu, assim, no embalo da saudade, ao receber mensagem do amigo Liberato, engenheiro civil, ex-presidente da Federação Universitária Bahiana de Esportes, a lendária FUBE, ex-nadador, filho do primeiro homem a atravessar, a nado, a Baía de Todos os Santos, Manoel Liberato de Matos, e goleiro do Ypiranga, “O mais querido”, o time amarelo e preto, dono do escudo mais bonito da América do Sul.

Alvinho, como o chamo, envia-me texto, via internet, após ler, no BP, crônica em que louvo a amizade planetariamente e diz:

“ É como se eu estivesse vivendo “in locum” todos os acontecimentos da velha Cidade do Salvador, nas suas observações.Transportei-me, também, para seus momentos no Rio de Janeiro, ao lado da sua netinha. Seu encontro na Barra com Ildásio Tavares e a bronca que você deu nele por ele já ter “ido embora”. Lembrei-me de Ildásio nos babas do Boulevard América enladeirado.Também no Boulevard Suíço, suas conversas com Dr. Ely Sampaio,junto com Ildásio tratava, na época, dos contos de Adonias Filho, poeta Carlos Cunha, os quadros do vizinho, ali bem perto, Presciliano Silva, as análises cinematográficas de Walter da Silveira, onde esses gigantes das artes e das letras eram figuras de destaque no Boulevard Suíço. Sem falar no Prof. Hamilton Nolasco, grande professor de Física da UFBA.

Faltou você abordar e pretendo ainda ler alguma coisa sua sobre o Colégio São Bento: Dom Norberto, Dom Augustinho, etc

E os babas no Miguelinho com João Amaro, Pereira, Elísio, Vinicius, Ângelo e o neguinho Gilberto.O Fluminense de Geraldo nos babas na quadra de Arnaldo Silveira, na Independência. Tudo isso são temas que gostaria de receber como crônicas “confeitadas” com seus arranjos poéticos e manejos lingüísticos invejáveis. Djalminha do Campo da Pólvora, com sua pose, indo visitar o velho Elísio, que minha mãe o chamava de Nogueirinha. Que Saudades!Estou à espera. Um abraço, seu amigo Alvinho.”

Outro, irmão, quase esqueci de dizer, aqui, através do BP, do nazareno Vítor, irmão do grande Genival Soares, Chico, Bahia até embaixo d`água, o seguinte: No arquivo de jornais da Tribuna da Bahia, repousa matéria minha, redigida nos anos 1970, com o título Não se briga mais como antigamente.

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador da primeira hora do Bahia em Pauta

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