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OPINIÃO POLÍTICA

História sem fim

Ivan de Carvalho

A revista Veja publicou uma reportagem baseada, segundo informou, “em revelações de parentes, amigos e associados” de Marcos Valério, um dos operadores financeiros do Mensalão. O conteúdo da reportagem publicada na edição desta semana da revista é bombástico e, entre as várias informações que o constituem, a mais explosiva é a de que o ex-presidente Lula não apenas sabia do esquema chamado de Mensalão pelo presidente do PT, Roberto Jefferson, mas detinha o comando do esquema. E que esteve com Marcos Valério do Palácio do Planalto.

A repercussão nacional da reportagem foi instantânea e não poderia ser diferente. Dois fatos tornam a reportagem ainda mais crítica do que seria normalmente – a proximidade das eleições de 7 de outubro e o julgamento, em curso, do escândalo do Mensalão (Ação Penal 470) pelo STF. São certamente esses fatos duas das principais razões pelas quais a mídia nacional e até mesmo os partidos de oposição estão tratando com cautela máxima e notória discrição a reportagem-denúncia de Veja. Outras razões talvez existam. Pelo que contém a reportagem é intuitivo que sim.

A reportagem recebeu três desmentidos importantes até a noite de ontem. Um, esquisito, do advogado de Marcos Valério. Primeiro, disse que não desmentiria nem confirmaria a reportagem, porque “não houve entrevista” de Valério. Depois, disse que conversou com Valério e este desmentiu tudo, incluindo o conteúdo da reportagem. Diante disso, a Veja e a credibilidade de sua reportagem – que seria seguida por algumas outras matérias aprofundando o mesmo tema – ficam numa posição incômoda.

No domingo, o jornalista Reinaldo Azevedo, em seu blog abrigado no site de Veja, insistiu com os “petralhas” para que cobrassem da revista a divulgação da “fita”, isto é, de gravações que comprovassem a reportagem. Dava a entender claramente que os “petralhas”, ao contrário de seu comportamento em outras ocasiões, estavam “quietinhos”, não estavam pedindo a fita, por temerem que ela fosse mesmo apresentada, por saberem que existia. Mas, no twitter, algumas pessoas ligadas ao PT e, em maior número, pessoas independentes, começaram a pedir a divulgação da fita.

Ontem, os rumores e algumas notícias apontavam para a existência da fita. E para um impasse na Veja: a fita seria, na realidade, uma entrevista de Marcos Valério, que no entanto a teria concedido sob a condição de que o que nela disse fosse divulgado como revelações colhidas junto a parentes, amigos e associados dele. A negativa do conteúdo da reportagem em nome de Valério, por seu advogado, teria rompido o trato, tornando legítima a divulgação da fita, como prova das revelações de Valério contidas na reportagem. Mas da sucursal de Brasília, que fizera a reportagem, teria surgido uma objeção à divulgação da fita. O assunto ainda estaria para ser resolvido.

Os dois outros desmentidos a que me referi: em São Paulo, o governador Jaques Wagner declarou: “Até onde eu sei, Lula nunca esteve com Marcos Valério”. Paulo Okamoto, um muito conhecido amigo de Lula e que, segundo parte do noticiário, seria o responsável por acalmar e ajudar Marcos Valério nas crises emocionais e necessidades materiais, disse que somente soube da existência de Valério depois que estourou o caso do Mensalão. Mas, neste caso, e daí?

O PSDB preparou minuta de um pedido ao Ministério Público para instaurar uma investigação a partir da denúncia de Veja, mas discute o assunto hoje com o Democratas e o PPS para chegar a uma decisão. E o procurador geral da República, Roberto Gurgel, indicou que o Ministério Público Federal deve examinar o caso, mas somente após o julgamento do Mensalão, para não tumultuar o julgamento.

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Comentários

Graça Azevedo on 18 setembro, 2012 at 14:00 #

Caro Ivan
Considero a Veja uma revista irresponsável. E nada tem a ver com aspectos políticos e ideológicos. Trata-se do ocorrido com uma família bem constituida, que possuia uma escola em SP, e teve sua vida arrasada por uma reportagem sensacionalista da revista. Acusaram os donos/ diretores da escola de pedofilia. Posteriormente ficou comprovada a inverdade das acusações. A família perdeu tudo, incluindo a possibilidade de recomeçar, pelo menos na área onde atuava. E ficou por isso mesmo. Tive a oportunidade de conversar com pessoas ligadas às vítimas, é de estarrecer o que sofreram. Hoje, tudo que vem da Veja para mim, até prova em contrário, está sob suspeição.
Não sou a favor de censura (em 68 era aluna de Ciências Sociais na UFBa, simpatizante do Partidão)pois sei o que ocorre quando a imprensa é calada. Mas, tem que haver limites e punições graves para quem dissemina a mentira.


luiz alfredo motta fontana on 18 setembro, 2012 at 14:27 #

Lula deve amar esta suspeição.

Fernando Collor também, depois da entrebista de capa de Pedro Collor, também coloca, como Graça Azevedo, a Veja sob suspeição.

Bom lembrar que no caso da Escola Base, não foi um único veículo de imprensa envolvido, restando inclusive, autroridades policiais. O caso se prolonga na Justiça, mas já houveram algumas condenações em primeira instância, entre estas, salvo engano, a Globo.


luiz alfredo motta fontana on 18 setembro, 2012 at 14:40 #

Nestes tempos, em que Lulas e Dilmas ditam comportamentos, a ordem é sempre tirar o sofá da sala.


Graça Azevedo on 18 setembro, 2012 at 15:34 #

Sr Fontana, é muito desagradável me ver comparada a Collor. Lástima que as opiniões sejam respondidas de forma ofensiva.
O caso da escola foi levantado pela veja. Como deu ibope outros meios engrossaram a fileira das acusações levianas.
Quando se fará justiça? De um lado um poderoso órgão de imprensa, do outro uma familia falida moral e financeiramente. Quem ganhará e quando? Como diz o amigo Vitor Hugo: a conferir!
Pobre de quem, sem poder ou dinheiro, cair nas mãos da imprensa inescrupulosa.


Graça Azevedo on 18 setembro, 2012 at 15:36 #

Completando: eu conversei com gente ligada à familia. Minha indignação vem daí. A Veja foi criminosa no caso.


luiz alfredo motta fontana on 18 setembro, 2012 at 15:50 #

Nenhuma ofensa

Color tem atirado contra a Veja todos os dias, por isso a lembrança, ele um senador, você uma experiente articulista.

Ficamos assim

Já o sofá realmente incomoda

A imprensa errou como um todo mas, como é, ao que parece, necessário atacar quem desnuda o Lula.

Que saia Valério e que retorne a Escola Base.

Sem ofensas é claro.


Graça Azevedo on 18 setembro, 2012 at 16:45 #

Não sou articulista, muito menos experiente, nem mesmo sou jornalista.
E devo ser bem limitada intelectualmente porque não entendi o que o senhor quis dizer na sua resposta. E acho agressivo juntar, numa mesma frase, um bandido e uma escola destruida por uma mentira.


luiz alfredo motta fontana on 18 setembro, 2012 at 17:25 #

Caro Ivan de Carvalho.

Caso notável o Mensalão.

Todos os passos, desde sua eclosão, depende da pauta de algum órgão da imprensa.

O único ato, expontâneo, a entrevista de Roberto Jeffersom que eclodiu o caso, foi, também pautado com a sempre lembrada e celebrada participação de Renata Lo Prete.

Minstério Público, polícia, judicário, e sobretudo partidos de oposição, andaram a reboque.

Dá para entender o rancor de Lula.

Ao mais, destaque para a coluna de Eliane Cantanhêde, hoje na folha de são Paulo, que reproduzo abaixo:

—————————————————-

Chama o Okamoto!
Eliane Cantanhêde

BRASÍLIA – A não entrevista de Marcos Valério à revista “Veja” vale menos pelo que mostra e mais pelo que não mostra, mas insinua. É um recado, um aviso, uma ameaça.
Antes do julgamento, havia a crença de que o mensalão “não ia dar em nada”. Com o andar da carruagem, está dando em muita coisa: os empréstimos eram fictícios e houve desvio de dinheiro público, corrupção passiva, lavagem de dinheiro. E, ontem, o relator Joaquim Barbosa concluiu: houve compra de voto, sim. O mensalão existiu.
Bate o desespero. Quanto mais o Supremo expõe o grau de comprometimento de cada um, mais os réus revelam o seu grau de compromisso com o esquema. Intensifica-se uma aposta de anos em Brasília: quem vai “abrir o bico” primeiro?
Os maiores candidatos são os três destacados para o papel de principais vilões: Delúbio, do “núcleo político”, Pizzolato, do “financeiro”, e Valério, do “operacional”. Mas Pizzolato é um mequetrefe no PT e, para Delúbio, é uma questão de alma. Porém Valério serve a qualquer senhor e tem bolso, não alma, lealdade.
Como diz o procurador Roberto Gurgel, ele é “um jogador”. Dá as cartas, blefa e manipula as fraquezas dos demais jogadores. Sem nada a perder, é capaz de qualquer coisa.
Sua não entrevista não é o fim, é apenas o começo. Ele joga Lula no meio da mesa, sente a repercussão e avisa, como publicou o repórter Ricardo Noblat ontem, que tem fitas gravadas capazes de balançar a República petista. Assim, abre a porteira e deixa mais à vontade outros réus que, como ele, não admitem morrer sozinhos e entram na faixa do “perdido por um, perdido por mil”.
Quando a coisa aperta, Valério diz que lhe enviam o faz-tudo de Lula, Paulo Okamoto: “A função dele é me acalmar”. Pois quanto mais o julgamento avança, mais trabalho para Okamoto. Tem muito “jogador” precisando ser “acalmado”. Só não dá para saber exatamente como.


danilo on 18 setembro, 2012 at 17:32 #

é muito exagero e um tanto de “mi mi mi” querer comparar a força de um veículo de comunicação com o poder estabelecido de um partido que já comanda, dirige, e controla quase todas as instâncias do estado.

e por quê, cargas d´água, então, o PT, como detentor do governo, não cancela a concessão pública que permite o funcionamento da Globo?

falta coragem ou será que não é mais conveniente apontar e conviver com um (falso) inimigo, para com isso inflar o fígado da militância tonta?

e mais, nunca é demais lembrar que, para os lullo-petistas, na época de Collor e de Fernando Henrique, a revista Veja era uma aliada para reverberar o denuncismo e as bravatas do PT.

ô gente de memória curta, ou de má fé mesmo.


luiz alfredo motta fontana on 18 setembro, 2012 at 18:05 #

Doce vida de leitor

Tóffoli terá de se explicar

Deu na Revista época:

—————————————-

Uma certidão da comissão executiva do PT se destaca entre os documentos apresentados ao Banco Rural para compor o cadastro que o partido fez para obter o empréstimo de R$ 3 milhões, sob análise do Supremo Tribunal Federal. Na ata, constam nomes de dirigentes do partido que se tornaram réus no mensalão: José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares. Aparece também, na condição de delegado do PT, o então advogado da legenda, José Antônio Dias Toffoli. O Rural inseriu a certidão nos autos do mensalão, analisados por Toffoli, agora na condição de juiz do Supremo Tribunal Federal. O ministro não se manifestou. Seus auxiliares dizem que a certidão foi expedida dois anos antes do empréstimo e que o fato de ele ter sido delegado do PT é conhecido.


luiz alfredo motta fontana on 18 setembro, 2012 at 18:08 #

Lula I, “o antes nunca visto”, e com tantas viúvas de plantão, anda mesmo sem sorte.

Quanto ao Tóffoli, o moço de Marília-SP, apenas um delegado do PT agora em cheque. Ou teremos mais surpresas?


luiz alfredo motta fontana on 18 setembro, 2012 at 18:25 #

Vida de leitor é assim, um sofá atrás do outro.


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