Marta(com Ana de Hollanda): uma cirandeira na Cultura

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ARTIGO DA SEMANA

A Ciranda de Marta Suplicy

Vitor Hugo Soares

Lia – a célebre cirandeira pernambucana, da Ilha de Itamaracá, que conquistou o País e ganhou o mundo nas asas culturais da música e da dança – não teria feito melhor. Assim, pelos feitos, ditos e subentendidos, a senadora petista Marta Suplicy é, com sobras, o principal personagem político e jornalístico (eleitoral também) desta agitada semana de setembro.

A ex-prefeita da cidade de São Paulo se evidencia como destaque, mesmo se a comparação for feita com os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, as duas faces mais nítidas e transparentes em confronto no julgamento, em Brasília, dos réus do Mensalão pelos magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF).

Penso e escrevo isso não só por ter sido a esquentada Marta escolhida para substituir a titubeante Ana de Hollanda, no sempre conturbado Ministério da Cultura no governo Dilma Rousseff. Isto é da essência da Pasta no Brasil (estou certo que em alguns outros países também).

Por estas bandas, debaixo da linha do Equador, isso acontece desde a criação do Minc, perpassando praticamente todos os governos, de todas as tendências. É bom e saudável que assim seja. Ajuda no pensar e fazer cultural no País. Agita e oxigena o ambiente ao mesmo tempo.

A opção recai sobre Marta Suplicy principalmente pelos signos e os fatos produzidos na sua posse no cargo, quinta-feira, 13, em cerimônia de múltiplas facetas simbólicas e factuais, realizada no Palácio do Planalto. É notório que segue produzindo efeitos em diferentes órbitas e ainda dará muito que falar, nestes dias agitados de campanhas eleitorais e, seguramente (podem conferir) nos meses seguintes da administração Dilma.

Não só em São Paulo, Rio de Janeiro e no Planalto Central, como previsível em razão dos personagens mais diretamente envolvidos nessa história. O bafafá nos muitos terreiros da Cultura, cujo barulho já se escutava desde o começo da semana – quando foi batido o martelo da substituição de Ana por Marta -, tende a recrudescer e a se espalhar por outros rincões e palanques do Brasil, e prosseguir mesmo depois de eleitos os novos prefeitos.

A começar pela Bahia (dos ex-ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira), de onde escrevo estas linhas. Terra afeita à polêmica, desde os tempos coloniais do poeta satírico Gregório de Matos (o demolidor Boca de Brasa) e que não costuma dispensar uma boa briga. Ainda mais se entra música, poesia, literatura e teatro no meio. Principalmente se a farinha (leia-se recursos, grana, verba) é pouca para mexer o variado pirão cultural, sem perder o ponto.

Reforço: faço este artigo de Salvador, onde o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva é aguardado, nesta sexta-feira, como estrela maior – e espécie de salvador da pátria petista, em São Paulo e outras grandes cidades do país, incluindo a capital baiana – de comício da campanha de Nelson Pelegrino.

O candidato do PT é o segundo colocado na preferência dos eleitores soteropolitanos, de acordo com os dados da nova rodada da pesquisa Ibope/TV Bahia, divulgada quinta-feira. Pelegrino tem 12 pontos percentuais a menos em relação ao primeiro colocado, ACM Neto, o nome do Democrata para o Palácio Tomé de Souza.

A manifestação de rua será à noite (escrevo no começo da tarde de sexta) na Praça Castro Alves: cartão postal turístico e marco simbólico de importantes eventos festivos, políticos e culturais na “cidade da Bahia”, como dizia Jorge Amado.

Não posso garantir, (ainda é cedo), mas seria capaz de apostar – pela sondagem de temperatura ambiente desde o começo da semana -, que antes de chegar ao palanque na famosa “Praça do Poeta”, Lula sentirá a quentura. Não só da disputa eleitoral, mas também do impacto da escolha de sua amiga (muitos preferem chamar de afilhada) Marta Suplicy para comandar o Minc.

Foi assim, sem a presença do ex-presidente, no ato festivo de posse comandado pela presidente Dilma no Palácio do Planalto. Fora Lula, estava lá praticamente todo mundo político e administrativo com apito no governo e no poder destes dias no Brasil, a começar pelo senador José Sarney, uma das figuras mais saudadas e cumprimentadas.

Ambiente ideal para as palavras definidoras do discurso da nova ministra:

“O Brasil tem a cultura como identidade. Essa riqueza se manifesta na dança, na música, na gastronomia, nas roupas e nas mais diversas expressões. Tudo isso é fruto da miscigenação tupiniquim, que vamos ‘cirandar’ e aprofundar para deixar a marca cultural no governo Dilma”. Entendeu?

Veja então o arremate:

“Muito me honra a possibilidade de fazer parte de um governo que ajudei a eleger e trabalhar em uma área que aprecio demais, e ainda mais sob o comando de uma mulher ‘arretada’ e competente a quem tanto admiro e com quem dialogo muito bem”, elogiou a nova titular do Minc. Teve mais, muito mais em Brasília, mas vamos parar por aqui .

Só “una cosita mas” antes do ponto final: tem sotaque e tempero baianos nessa história (ou não ?). A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Mariana Soares on 15 setembro, 2012 at 11:20 #

Este, para mim, foi o pior fato “político” da semana. A passagem de Ana de Holanda pelo Ministério da Cultura não foi nem uma maravilha, mas a forma como foi trocada, ou melhor dizendo, os motivos pelos quais foi trocada e, principalmente, por quem foi trocada é, para mim, simplesmente deprimente e muito me envergonha. E mais não digo porque minha saúde não me permite conviver com amargura por muito tempo.
A vida já seguiu para mim!
Bom final de semana a todos!


luiz alfredo motta fontana on 15 setembro, 2012 at 11:33 #

Caro VHS

Aqui pensando em como um “é dando que se recebe” do mais canhestro, pleno de botox, tenta se travestir de baianês.

“Arretada”?

Dilma é quando muito bronca, aquele estado de espírito próprio de sargentões nas piadas.

Ciranda culta?

Dona Marta e seu botox?

A cultura do relaxa e goza?

A ciranda de Lia passa ao longe desta bobagem.

Resta o Lula, desnudo pela reportagem de capa da Veja, fingir que é baiano, talvez até coma um acarajé…

Caro VHS, a Bahia, assim como os artigos da semana, merecem melhor axé!!!

Tim! Tim!

Em tempo: como sempre acontece com peças fora do lugar, a irmã de Chico recolheu-se ao seu estado natural, ou seja, a insignificância.


rosane santana on 15 setembro, 2012 at 13:01 #

Mino Carta, como sempre, servindo aos poderosos de plantão, colocou na capa da Carta Capital (“a Veja de Lula”, segundo Caetano Veloso), com pelo menos 10 anos de atraso, uma matéria sobre os riscos do amianto. Seguramente, será seguido pelos jornalistas “inestigativos”. Arre, quanta afronta à inteligência. Notícia da semana, no melhor português: “Marcos Valério jogou merda no ventilador do PT”.


luiz alfredo motta fontana on 15 setembro, 2012 at 14:48 #

Caro VHS

Para esquecer Marta e espantar dilma, que tal Trio Maryá?

direto do forno do blogbar:

Cantado Gil e Vandre:

http://www.youtube.com/watch?v=bbxNSrjcyao

Ou cantando Sérgio Ricardo

http://www.youtube.com/watch?v=Ru9eWHUNkj0


vitor on 15 setembro, 2012 at 15:37 #

Fontana

Mais que aprovado, poeta!

TIM TIM


Jader on 15 setembro, 2012 at 16:43 #

Editorial
14.09.2012 10:10
Pela qualidade
Mino Carta
63Terça, 11 de setembro de 2012. Onze anos se passaram desde a tragédia das Torres Gêmeas, enredo monstruoso do ódio e da insensatez. Naquele dia distante e sempre vivo, havia três semanas CartaCapital sofrera uma mudança decisiva. Nascida como mensal, tornara-se quinzenal em março de 1996 e enfim semanal no fim de agosto de 2001. Naquele momento entendemos por completo o que de fato significava o rumo recém-tomado.

A quinzenal… Contra a oligarquia financeira (21/8/96). E um capítulo do “mensalão tucano” (25/9/98)
CartaCapital acaba de completar 18 anos, a serem celebrados na festa marcada para 1º de outubro próximo, juntamente com a tradicional cerimônia destinada à entrega dos troféus das empresas e dos empresários e executivos mais admirados no Brasil. Levamos sete anos para atingir o projeto inicial, a semanal. Neste período, tivemos de vencer a escassez de recursos a me acompanhar faz 36 anos, a partir do dia em que deixei a direção de Veja. Contei com a coragem e os meios, por mais escassos, primeiro da Editora Três de Domingo Alzugaray, depois da Carta Editorial dos meus sobrinhos Andrea e Patricia.

Foram 36 anos intensos de empolgação profissional e de aprendizado diligente, e até humilde, em busca de uma fórmula viá­vel em tempo das nossas vacas magérrimas, sem risco para a prática do jornalismo honesto. No caso de CartaCapital, buscamos produzir uma semanal de qualidade para um público idem. Tratou-se de caminho oposto àquele perseguido, salvo raras exceções, pela mídia nativa, confiante ao apostar na mediocridade da plateia, quando não na ignorância, donde disposta, com inesgotável determinação, a abaixar o nível e obscurecer o cenário. De caso pensado e transbordante vocação para tanto.

Qualidade é indispensável quando o objetivo é respeitar a audiência, na exposição da verdade factual, na fiscalização isenta do poder e na melhor lida com o vernáculo, diariamente aviltado por quem não sabe entender que jornalismo é uma forma importante e desafiadora de literatura. E no exercício do espírito crítico como motivador de vida inteligente. Nada disso resulta na intenção de impor ideias, e sim de estimular o espírito crítico dos próprios leitores na elaboração de opiniões independentes, do pensamento nosso ou de quem quer que seja.

… e a semanal. A tragédia de 11 de setembro de 2001, e as consequências que dilataram seu raio (26/9/2001)
No dia 11 de setembro de 2002, ­CartaCapital já percebia os males que brotariam da tragédia como flores malignas, enquanto a mídia nativa fixava-se no confronto entre civilizações, incapaz de desmascarar a hipocrisia dos poderosos ou conivente com eles. Da mesma forma, ficamos na barricada contra o neoliberalismo dos adoradores do deus mercado, responsável por uma tragédia muito mais imponente do que a derrubada das Torres, de efeitos ainda mais capilares e profundos com a crise global desencadeada pela oligarquia financeira.

Sim, aprendemos a produzir uma semanal de qualidade com uma equipe de poucos efetivos, graças, inclusive, a lições recebidas pelo acima assinado em empregos e estágios na Europa, onde redações bem menores que as nossas dão vida a publicações infinitamente melhores. Contamos, em compensação, com um grupo de colunistas e colaboradores sem par na mídia nativa e não é por acaso que The Economist, provavelmente a semanal mais influente do mundo, nos quis como parceiros no Brasil. Por causa disso, inclusive, descortinamos para os nossos leitores uma visão do mundo única nas nossas latitudes, valorizada também pelos direitos do Observer.

O descaso reservado aos eventos planetários, a observação provinciana e fragmentária de fatos que envolvem fortemente o País amiúde explica as lacunas dos privilegiados do Brasil. Nós não arredamos pé da convicção de que existe um bom número de brasileiros habilitados a perceber a pobreza dos clichês propostos pela mídia do pensamento único, os preconceitos, a arrogância, a má-fé. E, portanto, cidadãos maduros para figurar na plateia de uma mídia efetivamente pluralista, aberta ao livre debate das ideias.

PS: Para aqueles que insistem em nos acusar de receber vultosas verbas publicitárias do governo federal para defendê-lo recomendamos a leitura dos dados divulgados pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República e publicados pela Folha de S.Paulo. Desde o início do governo Dilma, CartaCapital faturou 118,8 mil reais em anúncios da administração direta. A TV Globo ficou com quase um terço de toda a verba federal: 52 milhões dos 161 milhões de reais. A Editora Abril, incluída a operação na internet, recebeu mais de 1,5 milhão. O Grupo Folha (jornal e internet) ficou com 1,47 milhão.


rosane santana on 15 setembro, 2012 at 18:59 #

Em tempo: A Secretaria de Comunicação da Presidência da República informa somente a respeito da publicidade referente a administração direta. Empresas públicas, autarquias e fundações possuem orçamento próprio. A acrescentar, seria de bom tom e honesto mesmo, esclarecer as relações mantidas entre Carta Capital e o governo mineiro, durante a gestão de Aécio Neves. Em São Paulo, especialmente, até os focas de redação sabem disso.


rosane santana on 15 setembro, 2012 at 19:02 #

Aliás, todo mundo conhece até o mensageiro junto a “Aecinho”.


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