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CRÔNICA/ ELEIÇÕES

ACM Neto, Pelegrino e as garças

Janio Ferreira Soares

Se me fosse dada a chance de participar de um debate entre os prefeituráveis de Salvador, aproveitaria a oportunidade para questioná-los com perguntas que fugissem do óbvio e que pudessem mostrar o lado B dessa galera que, pelo visto, é fã de Roberto Carlos, já que todos andam cantando em uma só voz Eu Te Darei o Céu e Como é Grande o Meu Amor Por Você, eleitor, mas depois costumam assoviar Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, canção perigosamente próxima da simbólica É Meu É Meu É Meu, essa sim, a mais tentadora melodia do Rei e a favorita dos negros gatos de arrepiar, que levam a vida miando atrás de um bom prato pelos telhados das caladas noites pretas.

Mas voltando a minha fictícia participação como inquiridor dos aspirantes a cadeira de João Henrique – e, pelas promessas absurdas, igualmente candidatos ao papel de Judas nas páscoas vindouras -, começaria perguntando se algum deles já pegou um jeep sem capota de manhã cedinho, arriou o para-brisa, colocou Toninho Horta para tocar e saiu dirigindo por uma estradinha de terra apenas para observar o Sol enxugando o que a trovoada da noite molhou. Entre olhares diagonais e testas franzidas, provavelmente algum dos postulantes arriscaria um “veja bem, meu rapaz, como é mesmo seu nome?”, e aí tentaria me enrolar com a velha tática que teve em Brizola o seu maior representante, que consiste em discorrer horas e horas sobre um assunto sem, no entanto, respondê-lo.

Na sequência eu perguntaria se alguém percebeu que o Céu que precede outubro já mostra seus sinais e que as primeiras estrelas já estão com um lume diferente, às vezes parecendo lamparinas, noutras, semelhantes à luz da Lua que dança na derradeira poça que o Sol pós-trovoada não conseguiu secar.

Você deve estar se perguntando o que tem a ver essas questões com as urgências de Salvador. Para ser sincero, nada. Mas confesso que eu me sentiria mais tranquilo se minha cidade fosse gerida por alguém que, além de mobilidade urbana, também entendesse das migrações das garças ao entardecer.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco, onde as garças ainda voam ao entardecer

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Comentários

Olivia on 15 setembro, 2012 at 20:46 #

Esse Janinho é tudo de bom e mais alguma coisa. Além de belo cronista, ainda é muito bom de música, trazer Toninho Horta pra roda não é pra qualquer um. ‘Manuel Audaz’, por favor, maestro!


Janio on 15 setembro, 2012 at 21:14 #

Olivinha, a música é exatamente essa, acompanhada de um isopor cheio de cervas brancas, reds e irlandesas, e mais um telescópio pra quando a noite chegar. Você, Claudinho, Vitor e quem mais chegar, terão um lugar especial. Sugiro o capô. Saudades.


gilson on 15 setembro, 2012 at 21:21 #

Tô nessa, grande Jânio!!! Um abraço


Olivia on 15 setembro, 2012 at 21:45 #

Sabia que a música era essa, adoro. Toninho Horta é um dos maiores músicos do mundo, só o Brasil não sabe, uma pena. Vamos nessa, Janinho. Saudades!


Olivia on 15 setembro, 2012 at 22:22 #

Olha aí, amigos, Manuel, o Audaz, com o maravilhoso Toninho Horta:@moliviasoares: Manuel, o Audaz, o maravilhoso Toninho Horta http://t.co/cf7ZHxku


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