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OPINIÃO POLÍTICA

A teoria do poste

Ivan de Carvalho

As eleições para a prefeitura de São Paulo estão revelando um fenômeno – o de que o ex-presidente Lula não é capaz de eleger o poste que quer onde quer. Precisa talvez ter algum cuidado na escolha do poste, mas é essencial que saiba reconhecer o lugar em que pode colocá-lo ou não.

O que o animou tanto a julgar-se com capacidade incondicionada de eleger um poste foi a eleição da presidente Dilma Rousseff.

Esta senhora havia sido ministra das Minas e Energia e depois ministra-chefe da Casa Civil. Foi aí que o então presidente Lula resolveu fazê-la sua sucessora, já que, miseravelmente, a Constituição o proibia de candidatar-se a um terceiro mandato e as circunstâncias o proibiam de tentar uma mudança constitucional, como fizera o seu amigo da Venezuela, o presidente-ditador Hugo Chávez.

Então escolheu um poste, uma pessoa sem atuação política partidária e eleitoral anterior, uma emigrante do PDT para o PT (o que lhe dificultaria, mesmo na presidência, adquirir uma ascendência muito forte no partido) e colocou-a como candidata a presidente da República.

Havia a poderosíssima máquina do Poder Executivo federal, havia o PT e uma montanha de partidos aliados, entre os quais sobressaíam, entre muitos, o PMDB, o PSB e o PP, havia a esqualidez e a falta de combatividade das oposições e havia a enorme popularidade do presidente Lula.

E era o presidente apresentando o poste escolhido para suceder ao presidente. Uma eleição na mesma linha, no mesmo nível. Deu certo, maravilhosamente certo.

A vaidade e a soberba encontraram campo fértil e germinaram generosamente. E então veio o ex-presidente Lula e, tendo Marta Suplicy à disposição, optou por lançar um poste, Fernando Haddad, para a prefeitura de São Paulo. Venceria, claro, e poderia reivindicar a vitória como dele e só dele, dando uma demonstração de força.

Mas eis que entra na história o que Nelson Rodrigues chamaria talvez de “o Sobrenatural de Almeida”. O PMDB, para dar um sinal de vida, decide lançar um candidato, Gabriel Chalita, que na pesquisa Datafolha divulgada ontem aparece com oito por cento das intenções de voto. Os tucanos conseguem convencer José Serra a disputar, ele entra com uma rejeição enorme e crescente (o Datafolha aponta 46 por cento de rejeição para ele, o que representa o inferno em sua campanha) e Serra cai da liderança, que teve assim que lançou a candidatura, com cerca de 35 por cento das intenções de voto, para modestos 20 por cento na mesma pesquisa. E o petista Haddad vai subindo à maneira de uma lesma – o patamar habitual do PT nas eleições na cidade de São Paulo é de 33 por cento (um terço do eleitorado), mas Haddad subiu um ponto apenas da pesquisa anterior para a desta semana e está com 17 por cento.

Até que de 17 para 20 seria motivo de alegria, estaria perto de alcançar aquele que era o adversário principal, José Serra. Era, mas não é mais. Tudo indica que Serra e Haddad vão disputar para ver qual dos dois vai enfrentar no segundo turno o Sobrenatural de Almeida, o candidato Celso Russomano, do PRB, que caiu da penúltima para a última pesquisa de 35 para 32 por cento. Com um tempo inexpressivo na TV e rádio para a propaganda eleitoral, Russomano está realizando uma façanha. Tem ainda uma enorme vantagem sobre os concorrentes mais próximos.

Parece que a teoria do poste, no que diz respeito a Lula, não se aplica a eleições locais. Eleições locais, padrinhos locais. Isso pode ser verdade não só em São Paulo, mas também em Salvador, Recife, Fortaleza, Belo Horizonte.

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Comentários

Gracinha on 13 setembro, 2012 at 3:37 #

Excelente análise! Parabéns!


rosane santana on 13 setembro, 2012 at 8:19 #

Assino embaixo, Gracinha!


Jader on 8 outubro, 2012 at 14:05 #

Acho que voce se enganou sobre a teoria do poste!!!!!!!!!!!!!!! O sapo barbudo tem muito mais carisma do que nossa vã filosofia.


jader on 9 outubro, 2012 at 9:57 #

Paulo Moreira Leite: O vencedor foi o Lula; o PSDB, o grande derrotado
publicado em 8 de outubro de 2012 às 14:49

por Paulo Moreira Leite, no seu blog, sugestão de Ricardão Carioca

Eu pergunto quando tempo nossos analistas de plantão vão levar para reconhecer o grande vitorioso do primeiro turno da eleição municipal.

Não, não foi Eduardo Campos, embora o PSB tenha obtido vitorias importantes no Recife e em Belo Horizonte.

Também não foi o PDT, ainda que a vitória de José Fortunatti em Porto Alegre tenha sido consagradora. Terá sido o PSOL? Os “novos partidos”?

O grande vitorioso de domingo foi Luiz Inácio Lula da Silva e é por isso que os coveiros de sua força política passaram o dia de ontem trocando sorrisos amarelos.

Nem sempre é fácil reconhecer o óbvio ululante. É mais fácil lembrar a derrota do PT no Piauí, ou em São Luís.

Nosso leitor Roberto Locatelli lembra: o PT passou o PMDB e foi o partido que mais acumulou votos na eleição. Tinha 550 prefeituras. Agora tem mais de 612.

Vamos combinar: a principal aposta de Lula em 2012 foi Fernando Haddad que, superando as profecias do início da campanha, não só passou para o segundo turno mas entra nessa fase da disputa em posição bastante favorável. Em São Paulo se travou a mãe de todas as batalhas.

Imagino as frases prontas e as previsões sombrias sobre o futuro de Lula e do PT se Haddad tivesse ficado de fora…

A disputa no segundo turno está apenas no início e é cedo para qualquer previsão.

Mas é bom notar que as pesquisas indicam que Haddad é a segunda opção da maioria dos eleitores de Celso Russomanno. Uma pesquisa disse até que Haddad poderia chegar em segundo no primeiro turno, mas tinha boas chances de vencer Serra, no segundo. Qual o valor disso agora? Não sei. Mas é bom raciocinar com todas as informações.

Quem assistiu a pelo menos 30 minutos dos debates presidenciais sabe que Gabriel Chalita já tem lado definido desde o início – como adversário de José Serra. O que vai acontecer? Ninguém sabe.

O próprio Serra tem uma imensa taxa de rejeição, que limita, por si só, seu potencial de crescimento.

O apoio de Russomanno tem um peso relativo. Se ele não conseguia controlar aliados quando era favorito e podia dar emprego para todo mundo, inclusive para uma peladona de biquini cor de rosa descrita como assessora, imagine agora como terá dificuldades para manter a, digamos, fidelidade partidária…

O mais provável é que seu eleitorado se divida em partes mais ou menos iguais.

Não vejo hipótese da Igreja Universal ficar ao lado de José Serra. Nem Silas Malafaia com Haddad.

A votação de Haddad confirma a liderança de Lula e a disposição dos eleitores em defender o que ele representa. Mostra que o ambiente político de 2010, que levou a eleição de Dilma Rousseff, não foi revertido. Isso não definiu o resultado em cada cidade mas ajudou a compor a situação no país inteiro.

Os 40% de votos que Patrus Ananias obteve em Belo Horizonte mostram um desempenho bem razoável, considerando o tamanho do condomínio adversário.

Quem define a boa vitória de Lacerda como uma vitória de Aécio sobre Dilma incide no pecado da ejaculação precoce.

O grande derrotado do primeiro turno, que mede a força original de cada partido, não aquilo que se pode conquistar com alianças da segunda fase, foi o PSDB.

O desempenho tucano sequer qualifica o partido como oponente nacional do PT. Perdeu eleição em Curitiba, onde seu concorrente tinha apoio do governador de Estado, desapareceu em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, terra do vice de José Serra em 2010 – que não é tucano, por sinal. Se a principal vitória do PSDB foi com um candidato do PSB é porque alguma coisa está errada, concorda?

Respeitado por ter chegado em primeiro lugar em São Paulo, Serra já teve desempenhos melhores.

As cenas finais da campanha foram os votos do julgamento do mensalão, transmitidos em horário nobre durante um mês inteiro. Tinham muito mais audiência do que os programas do horário político.

Menino pobre e preto, Joaquim Barbosa já vai sendo apresentado como um contraponto a Lula…

Antes que analistas preconceituosos voltem a dizer que a população de renda mais baixa tem uma postura menos apegada a princípios éticos – suposição que jamais foi confirmada por pesquisadores sérios — talvez seja prudente recordar que o eleitor é muito mais astuto do que muitos gostariam.

Sabe separar as coisas.

Aprendeu a decodificar o discurso moralista, severo com uns, benigno com outros, como a turma do mensalão do PSDB-MG, os empresários que jamais foram denunciados na hora devida…

Anunciava-se, até agora, que a eleição seria nacionalizada e levaria a um julgamento de Lula.

Não foi. O pleito mostra que o eleitor não mudou de opinião.

O eleitor mostrou, mais uma vez, que adora rir por último.


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