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CRÍTICA/CINEMA

Um divã para dois

Maria Aparecida Torneros

O título do filme em inglês é Home Spring, mas na versão em português ganhou o nome de “Um divã para dois”, ressaltando a terapia de casal que é, na verdade, o conteúdo principal da história.

No sábado primeiro de setembro, véspera do meu aniversário, 63 anos, gostei de ir à sessão de cinema com duas amigas com quem costumo ver os filmes e depois comentar sobre eles, num papo que me agrada muito, porque ambas são inteligentes e sensíveis, Rosana e Bernadette. Lá fomos nós!

Durante a sessão, em certos momentos, ouvi uma delas dizendo: – eu não quero isto pra mim, eu me recuso!

As cenas traziam a insatisfação da esposa que se sentia abandonada enquanto fêmea por aquele marido com quem vivia há tantos anos.

O realismo da história me fez repensar não só sobre a minha nova idade que é a mesma da atriz Meryl Strip, cuja interpretação é um show no lugar daquela mulher que , repentinamente, questiona porque não há mais paixão no seu relacionamento.

Concluí, também , que, diferentemente das minhas amigas, ambas mais novas que eu
pelo menos uma década, já vivenciei a experiência de ter sido casada por quase 25 anos e estar na vida de solteira há quase 15.

Em muitas cenas, revivi episódios que, para mim e milhões de mulheres maduras com longas convivências, já não surpreendem. O acordo da paixão entre homem e mulher é construção e desconstrução, podendo contar com pinceladas de sorte, que, consolidam a amizade e o bom sexo, não necessariamente na ordem ou na proporção dos sonhos sonhados, 20 ou 30 anos antes.

As pessoas mudam. Podem superar-se, podem se cristalizar e até estão sujeitas a se deixarem dominar pelas rotinas do dia-a-dia, as idades lhes roubam hormônios e impulsividade, o mundo dito moderno muitas vezes lhes é imposto como lugar de prazeres e dores, sem a possibilidade de rever conceitos, na maioria dos casos.

Não há fórmula para salvar longas e desgastadas uniões. Há escapes e há chances que conservam casais unidos por décadas, com intensidade de emoções ou com apaziguamento de desejos. No filme, o roteiro impõe uma luta em que a personagem feminina se dispõe a travar em prol do seu amor aparentemente extinto.

Sempre existiram os amores fora dos casamentos, como provável saída honrosa para períodos de entre-safra. Na cultura ocidental, nossos bisavós e avós, com certeza, viveram situações assim, e nem pensaram em terapias, pois o tempo em que conviveram até sua viuvez, se encarregou de sanar carências com que lidaram, sem o divã.

O modelo de casal estereotipado é objeto de questionamento pelas sociedades onde os divórcios tornam viáveis as novas tentativas de uniões bem sucedidas. A novidade do enredo é justamente o fato de o casal encarar seus desencontros pessoais e sexuais, diante do terapeuta que lhes prescreve exercícios e tarefas para se reencontrarem enquanto amantes e se apaixonarem novamente entre si.

Um filme moderno que leva a muitas reflexões sobre a vida a dois na idade madura, a chance de realizar sonhos de amor que pessoas acima de 60 anos possam ter e alimentar, e até mesmo a possibilidade racional de viver e encontrar a felicidade, no casamento, dinamizando o modelo dele e se adequando aos seus interesses renovados, com bom humor e aceitação da vida em todas as suas fases.

Maria Aparecida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro , edita o Blog da Cida, amiga e colaboradora do Bahia em Pauta desde a primeira hora.

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Comentários

Rosana Melo on 11 setembro, 2012 at 23:17 #

Adorei a crônica que retrata bem o que é o filme “Um divã para dois”, sob o olhar sensível de Cida Torneros.


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