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OPINIÃO POLÍTICA

Um debate evitado

Ivan de Carvalho

O jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de S. Paulo, divulgou no twitter que os dois candidatos a prefeito de Salvador com mais intenções de voto nas pesquisas eleitorais foram convidados para “um papo frente a frente” – algo similar a um debate – no portal de notícias UOL. Acrescenta que “não haverá papo” porque só o democrata ACM Neto aceitou. O petista Nelson Pelegrino não quis.

O normal é que não fosse assim. Quando há uma grande diferença de intenções de voto entre o líder das pesquisas e o segundo colocado – e evidentemente entre aquele e os demais candidatos –, o que costuma ocorrer é que o líder busque ao máximo reduzir, quando não pode evitar, as oportunidades de debate com qualquer ou vários concorrentes.

Isso tem explicação óbvia. O líder, quando aceita debater com vários concorrentes ao mesmo tempo, torna-se o alvo comum dos ataques dos que estão abaixo e querem, portanto, derrubá-lo da liderança ou impor-lhe perda de intenções de voto que permita uma redução da diferença. A lógica aparente recomenda que o líder não se exponha e essa lógica tem pautado o comportamento de muitos, no Brasil, em eleições anteriores.

Ao debater com apenas um dos concorrentes, como seria o caso se o convite do UOL fosse aceito, o líder concede (esta é a palavra adequada) ao adversário igualdade de condições na ocasião específica, uma igualdade que não existe, ao menos naquele momento, na campanha eleitoral. Assim, proporciona uma vantagem ao concorrente.

Mas proporciona ainda uma segunda vantagem. É que as atenções do eleitorado e da sociedade em geral tendem a estar mais voltadas, durante a campanha, para um candidato que esteja na liderança das pesquisas com uma vantagem muito expressiva, o que é, no momento, o caso de ACM Neto. Então o concorrente inferiorizado em intenções de voto, ao ter um confronto diretamente com ele e só com ele, usa o líder das pesquisas e, supostamente, portanto, também líder na preferência dos eleitores, como uma alavanca para ganhar também as atenções do público e passar a este suas mensagens de campanha, tentando ainda desconstruir as do líder.

Assim, a sugestão da lógica aparente seria a de que ACM Neto buscasse evitar o “papo frente a frente” no UOL e Pelegrino o aceitasse imediatamente. Não foi assim que aconteceu, segundo o jornalista Fernando Rodrigues.
Considerando que ambos os candidatos contam com atuação parlamentar destacada – Pelegrino, com mais tempo de estrada, já foi líder do PT na Câmara dos Deputados e nesta mesma Casa legislativa ACM Neto é líder do Democratas –, não dá para supor que algum deles estivesse com medo de ter um desempenho inferior ao do concorrente.

Assim, forçoso é concluir que somente ACM Neto tinha razões para, com as clássicas desculpas de dificuldades de agenda, recusar o convite (o risco de servir de alavanca para o adversário e eventual receio de se expor, quando está numa posição confortável que até sugere a conveniência estritamente político-eleitoral dele de evitar riscos desnecessários).

Mas então acontece exatamente o contrário. Pelegrino é que não aceita (a não ser que desminta o jornalista Fernando Rodrigues sobre o convite). Esta recusa não tem nenhuma lógica aparente. Pode ser que tenha alguma lógica aparentemente imperceptível. Um dia talvez alguém perceba. Ou o próprio candidato petista resolva revelar sua complexa estratégia.

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