Peninsula de Itapagipe: beleza, cultura e
hiatória abandonadas

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ITAPAGIPE AMEAÇADA

Claudio Leal

O desânimo dos eleitores marca a campanha a prefeito de Salvador, mas não deve encobrir a urgência de salvar a cidade das boas ideias dos principais candidatos, os quais se engalfinham ao mesmo tempo que seguem distantes do resgate de uma jóia colonial. As más ideias tropeçam em seus próprios rendados. Mais importante é rebater aquelas palavras folheadas pelo bom-mocismo.

Há um alto grau de escrúpulo na sentença do crítico americano H.L. Mencken, de que todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive. Na capital baiana, antes e depois da eleição, contestar os discursos vulgares, os projetos de fonte contaminada, os estupros imobiliários e a possibilidade de um “deus ex machina”, é uma tarefa fastidiosa, e contudo inevitável para atenuar as vergonhosas trapalhadas dos administradores do circo.

No horário eleitoral, o candidato Nelson Pelegrino (PT) filosofa que o bairro do Uruguai ostenta buracos porque “falta compromisso”. E, impune, prossegue: a prefeitura não recupera a ladeira de São Caetano porque “falta competência”. Lamentavelmente, os homens públicos voltaram aos programas que recorrem às muletas dos “buracos” para exercer a mais rasa e medíocre lição de urbanismo.

Mário Kertész (PMDB), que acertou ao destacar o atraso da aplicação do “bilhete único” no transporte público soteropolitano, caiu no formato de programa popular, com fabulações televisivas previsíveis. Aliás, em 2012, se há um traço definidor da batalha por votos, este é o da linguagem degradante dos balaios dos publicitários, na terra que se vangloria de nutrir o País com raras beldades do egotismo. O PT e seus gênios da comicidade apresentam um garoto “Pé de Pranta”, assim escrito, ostentando gírias e banalidades. Líder das intenções de voto, em pesquisas de mais de um instituto, ACM Neto (DEM) revigora a “saudade” de condutas autoritárias, ao insistir que a cidade precisa de um prefeito com “pulso firme” – um perigoso apelo aos impulsos de uma parcela da sociedade simpática a ações violentas do Estado. Nada estranho a quem já prometeu “dar uma surra” em um presidente da República. Com pulso firme ou fraco.

Para o registro: até hoje, nem sinal do debate sobre o projeto da bilionária e faraônica ponte Salvador-Itaparica, defendido pelo governador Jaques Wagner (PT), de consequências maléficas para a “mobilidade urbana”, este conceito em voga, além dos danos ambientais esperáveis para a baía de Todos os Santos. O poder das empreiteiras no financiamento e no desfazimento das campanhas é um bom argumento para não se tocar no assunto. Como ressaltou o romancista João Ubaldo Ribeiro, em recente entrevista ao programa “Roda Viva”, as construtoras assumiram o papel de determinar as obras estatais prioritárias. Sim, inclusive aquelas.

Uma “boa ideia” que sobrenadou no discurso de Pelegrino merece mais atenção, quando não a repulsa dos moradores da península de Itapagipe, uma das lindas paisagens da maltratada “Salvadolores” do historiador Fernando da Rocha Peres. No debate da TV Aratu/Sbt, conduzido pelo jornalista Casemiro Neto, em agosto, o petista perorou que Salvador não precisa crescer apenas para o norte, mas igualmente para as bandas da Cidade Baixa e de Itapagipe. A tese não é nova, mas o porta-voz é impróprio.

A indiferença dos últimos prefeitos deixou essa fatia urbana a salvo das barbáries imobiliárias, agravadas na gestão de João Henrique Carneiro. Agora, Pelegrino traz uma ameaça subjacente: se a capital precisa crescer para Itapagipe, pressupõe-se que a região é um terreno baldio, onde se vai impor um novo modelo de ocupação (espigões, quase certo), desenhado em pranchetas “competentes” e “comprometidas”. Da Calçada à Ribeira, há dezenas de milhares de moradores, donde é possível garantir, mesmo de uma estação espacial, que “há cidade” em Itapagipe. Para retocar sua beleza, as demandas são mínimas: revitalização das praças e das áreas à beira-mar, segurança pública, limpeza, restauração de prédios históricos e respeito ao baixo gabarito dos prédios (uma das características definidoras da urbanidade desse recanto lambido pela baía).

Em 2009, a prefeitura de Salvador lançou e, após protestos populares, retirou um decreto de vastas desapropriações na Cidade Baixa e na península. Para a surpresa das almas ingênuas, descobriu-se que algumas empreiteiras, as de sempre, desejavam impor seus condomínios a zonas ainda virgens do novorriquismo. Em respeito a sua trajetória e à paz dos itapagipanos, Nelson Pelegrino precisa dar mais detalhes do façanhoso projeto. E revelar se atende ou não às ambições do setor imobiliário. Na primeira oportunidade de esclarecer questões essenciais ao jogo político, levou um escorregão. Em resposta a uma reportagem do portal “IG”, a respeito da doação legal de R$500 mil da construtora OAS para sua campanha – empresa por ele investigada numa CPI, em 1992 -, o petista se esquivou: “Só digo o seguinte: as minhas doações estão todas registradas conforme a lei. A única coisa que eu tenho a declarar é essa”. Pode ser uma boa tirada, mas, incomodamente, confere aos eleitores a maldição dos maus pensamentos.


Claudio Leal, ex-morador de Itapagipe, é jornalista.

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Comentários

Graça Azevedo on 3 setembro, 2012 at 12:43 #

Triste Bahia…


rosane santana on 3 setembro, 2012 at 14:36 #

Tomo emprestado o epíteto de João Carlos Teixeira Gomes, para lhe chamar de “Pena de aço”. Dá-lhe, Cláudio!Isso, sim, é jornalismo de orgulhar o Brasil, porque não possui interesses ocultos, disfarçados, mas verdades claras, cristalinas.


Mariana on 3 setembro, 2012 at 17:11 #

Joia rara mesmo é você, Claudinho! Parabéns por mais uma bela análise!
Ler o que você escreve, mesmo que a noticia não seja das melhores, é sempre um deleite!


Olivia on 3 setembro, 2012 at 20:39 #

Todos os domingos visito essa maravilha que é a cidade baixa da Bahia, tão linda e tão mal cuidada, sempre volto triste para casa diante de tanto abandono. Bacana, Claudinho, o guardião de Itapagipe.


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