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DEU NO TWEXTRA

ADRIANA FERREIRA SILVA
DE SÃO PAULO

Billie Holiday tinha apenas 23 anos quando cantou pela primeira vez “Strange Fruit”.

Ela estava no palco do Café Society, “a única boate de Nova York realmente integrada”, descreve o jornalista americano David Margolick, referindo-se ao fato de que este era um dos raros locais em que brancos e negros eram tratados como iguais, em 1939, nos Estados Unidos.

Mas mesmo ali, continua Margolick, Billie Holiday teve medo de interpretar “uma canção que atacava de frente o ódio racial, numa época em que nem se sonhava com a música de protesto”.

“Não houve nem mesmo uma tentativa de aplauso quando eu terminei”, escreveu Holiday em sua autobiografia. “Então uma pessoa começou a aplaudir nervosamente. De repente, todo mundo estava aplaudindo.”

Nos 21 anos seguintes, até sua morte, aos 44 anos, Billie Holiday causou comoção todas as vezes que entoou “Strange Fruit”, música que descrevia o horror dos linchamentos de negros nos Estados do sul do país.

A trajetória dessa triste canção inspirou Margolick a escrever “Strange Fruit – Billie Holiday e a Biografia de uma Canção” (2000), que chega agora ao Brasil.

O livro começou como uma reportagem publicada na revista “Vanity Fair”, onde Margolick, 60, atua como editor-assistente desde 1995.

“Meu interesse ocorreu por diferentes razões”, explicou Margolick à Folha. “Encontrei o álbum que tinha a música e fiquei intrigado com seu título. Pensei que os estranhos frutos pudessem ser cerejas ou maçãs. Quando entendi do que se tratava [negros enforcados em árvores], fiquei em choque e, ao mesmo tempo, fascinado.”

A atração de Margolick pelo tema cresceu quando ele descobriu que o autor de “Strange Fruit” era o intelectual Abel Meeropol.

Judeu e comunista, ele adotou os filhos do casal Julius e Ethel Rosenberg, executados em 1953 sob a acusação de serem espiões a serviço da extinta União Soviética.

Estavam unidos, então, três assuntos importantes para Margolick: além da própria Holiday, as ações radicais de judeus e a luta dos negros por igualdade de direitos.

“Um judeu escreveu a canção, que foi apresentada no palco do Café Society, cujo proprietário era judeu, e lançada pela gravadora de outro judeu. E foram judeus que compraram, ouviram e falaram sobre ela”, afirma.

“Isso não é coincidência e lembra que os judeus eram aliados dos negros na luta pelos direitos civis nos EUA.”

Durante as pesquisas, Margolick se surpreendeu com o fato de que “Strange Fruit” ficou restrita ao círculo de brancos intelectuais. “Ela foi pouco discutida entre os afro-americanos por ser um tema doloroso e incômodo.”

Dor que ninguém conseguiu exprimir como Billie Holiday. “Quanto mais trágica se tornava sua vida [ela era viciada em heroína], mais contundente era sua interpretação. É difícil imaginar alguém que representasse ‘Strange Fruit’ como Billie. Era como um tapa na cara.”

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