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A FILA ANDA E A VIDA SEGUE

Maria Aparecida Torneros

Ontem, faz pouco tempo, talvez uns 40 anos, acho… ele era um jovem que cantava sobre o sonho da Califórnia, a era hyppie, ir para São Francisco, atravessar o país, os oceanos, viver a liberdade e protestar contra a industrialização desenfreada…
Scott McKenzie, aos 73 anos, nos deixou, esta semana, e nos legou uma das mais lindas interpretações da nossa geração… a mesma que amava os Beatles e os Rolling Stones, a que precedeu outras tantas que nos sucederam e vão em frente…afinal, a fila anda…a vida segue…

Os amores chegam, às vezes ficam, noutras, se esfumaçam, deixam rastros nos ares, nos céus, talvez repercutam nas almas voadoras de seres sonhadores ou até se transmutem em palavras lindas que possam refletir sentimentos idos, que passaram… tudo realmente passa… e pode ser que passe para o outro lado das ilusões eternas..aqueles desejos nunca realizados mas tão fortes que nos proporcionaram a sensação da realidade em emoção ou pensamento… uma capacidade humana intransferível e pessoal…conviver com idéias, imaginar histórias, criar paisagens, esculpir corpos, conceber canções, entregar-se aos incríveis meandros da ideologia do tempo, que passa, corre, voa, engana, nos atropela e até nos ilude, com jeito de quem nos eterniza na tal juventude que nos abandona de repente…

Lançar mão de truques é uma das alternativas viáveis…manter-se alegre, sintonizar os novos tempos, acompanhar a conversa dos meninos, informar-se sobre os modismos, talvez malhar mais do que gostaria, cuidar dos bíceps, dos glúteos, dos cabelos, pintá-los, esconder sua brancura, recorrer à cirurgia plástica, quem sabe um botox, ou um trato na pele cansada, ou um bom implante para ter dentes estupidamente bonitos… mas o que fazer com a alma e o coração experientes e ainda abobalhados diante das surpresas da vida? exercícios para a memória? muitas palavras cruzadas? cursos alternativos para a terceira idade que nos reciclem os movimentos, dançar, caminhar, gargalhar, namorar, apaixonar-se de novo, acreditar num amor pré-fabricado, moldá-lo ao seu gosto, aquecer no micro-ondas, e , no ponto certo, consumi-lo…em hora marcada, em cidade combinada, em noite pré-determinada, sem esquecer de fotografar, expor no face, no blog, passar o resto da vida relembrando, ou quem sabe, convivendo… enquanto o tal novo caso de paixão com a própria imagem dure ou perdure, ou não endureça na razão direta da constatação de que o tempo urge, por que não redirecionar os caminhos?

Por que não trocar de pares, por que não tentar novos acordos, acordar para o amanhã, que, na verdade, é agora…

A geração do Scott cantou a liberdade de ser com Paz e Amor…
Viver Paz e Amor quer dizer ir em frente…não se prender a medos ou esconderijos de si mesmo…

Andar por aí, pelo mundo, com proposta de amar e ser amado acima e além de contratos pré estabelecidos, não enganando ninguém… indo pra São Francisco , como preconizou a canção, que resume tudo num verso, ” há toda uma geração com uma nova explicação”.

É desta geração que estou falando, duma geração que se expõe e vai às ruas aos 20 anos, que se ferra e se esfola aos 30, que se doa à família que constrói, aos 40, que se surpreende com a lentidão das mudanças aos 50, que se reprograma para recomeçar aos 60 e que se envolve com a Paz do verdadeiro Amor aos 70, para viver a plenitude, dos 80, 90 ou 100… não da sua sexualidade ou da sua beleza física, mas sim, da maior conquista, pois é possível, finalmente, alcançar a superação de um mundo em movimento, perceber que as pessoas passam por nós com uma estranha vibração, acima e além do curto tempo em que temos a ilusão de conhecê-las… elas se encantam, passam, seguem em frente, vão cantar noutra freguesia e até, vão amar novamente em outros planos, num processo infinito… porque, é evidente, há toda uma geração com uma nova explicação…e é desta geração que estou falando…

Se você está indo para São Francisco
Certifique-se de usar algumas flores em seu cabelo
Se você está indo para São Francisco
Você encontrará algumas pessoas gentis lá

Para aqueles que vêm a São Francisco
O verão será repleto de amor
Nas ruas de São Francisco
Pessoas gentis com flores em seus cabelos

Por toda a nação, como uma estranha vibração
Pessoas em movimento
Há toda uma geração com uma nova explicação

Cida Torneros, escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro

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Comentários

regina on 22 agosto, 2012 at 20:47 #

Caríssima amiga Cida: Você e San Francisco tem muito a ver uma com a outra. “Amor e Paz” foi o nosso sonho nos anos 60/70 e passado para os nossos descendentes, portanto é o sonho deles também nos anos 80, 90, 2000 e por ai vai… não tem que morrer e não morrerá enquanto acreditarmos nele. San Francisco foi meu porto quando decidi ir atrás do sonho além do horizonte, aqui encontrei pelo menos um terreno fértil para a possibilidade…
Estou te esperando para percorrer suas ruas, subir e descer ladeiras, dançar nos parques, sentar “on the dock of the bay, wastin’ time…”
(http://www.youtube.com/watch?v=mrb1TCQwxXA) ser meninas como ontem, hoje e amanhã….


Janio on 23 agosto, 2012 at 21:31 #

Maravilha, Cida.


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