João Cabral: filho comparou papeis a “porcarias”

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DEU NO TERRA MAGAZINE

POR CLAUDIO LEAL

Um dos principais arquivos literários do Brasil, a Fundação Casa de Rui Barbosa, sediada no Rio de Janeiro, não deve participar do leilão da correspondência de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), promovido pela Babel Livros, por iniciativa dos filhos do poeta e diplomata. Apesar de abrigar o acervo de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e do próprio Cabral, a CRB diz que se interessa por “partes muito específicas, uma carta num lote”. A diretora do Centro de Memória e Informação da fundação, Ana Pessoa, avalia que “as cartas mais interessantes” já foram publicadas no livro “Correspondência de Cabral com Bandeira e Drummond” (Ed. Nova Fronteira), organizado pela professora e pesquisadora Flora Süssekind.

Restrições legais são apontadas pela assessoria jurídica da casa: “Como vai pré-definir o preço? Não temos instrumentos administrativos para entrar em leilão. Lamento não ter sido oferecido antes, mas não temos instrumentos”, afirma Ana.
O 56º Leilão da Babel Livros ocorrerá em 10 e 11 de agosto, no Rio de Janeiro. Os lotes incluem bilhetes dos catalães Joan Miró, Joan Brossa, Antoni Tàpies e Modest Cuixart.

Após a divulgação do evento por Terra Magazine, a repórter do jornal “O Estado de S.Paulo”, Roberta Pennafort, entrevistou o filho do poeta, Luis, que comparou a papelada a “porcarias”: “Não dá para guardar porcaria ao longo da vida, o sentimento não precisa de papel. Não precisamos disso para lembrar dele. Tem um valor sentimental, mas fica empoeirando na casa da minha irmã. Pode ter um colecionador que aproveite melhor.”

O lote de 13 cartas de Vinicius tem um lance mínimo bem modesto: R$ 600,00. Drummond arranca um pouco mais com suas 35 peças empoeiradas: R$ 1.200. Antes do arremate, esses valores costumam subir. Ana Pessoa sustenta que a publicação em livro diminui o interesse da compra: “Nossa meta não é colecionar. Nossa missão é tornar público”, distingue. A equipe de acervo ponderou que, “na medida que estas cartas estão publicadas, minimiza serem compradas”.

A reportagem questinou: se os documentos de Bandeira, Drummond e Vinicius também estão no arquivo (além do próprio autor de “Pedra do Sono”) e já ganharam visibilidade editorial, por que não há interesse pelos novos lotes? E mais: a coleção levada à Babel Livros não é a parte mais valiosa da correspondência de João Cabral, compondo o diálogo literário de alguns dos maiores poetas em língua portuguesa? A gestora considerou estas perguntas como “opinião pessoal” do repórter.

O professor-emérito da USP, Antonio Candido, 94 anos, o mais importante crítico literário do País, prefere não entrar na discussão, por não saber detalhes do acervo, mas opina: “Posso dizer que é um acervo muito importante. Não conheço, não avalio a decisão dos filhos, não acompanhei a questão. Apenas digo que deve ser muito importante”.

O site do órgão vinculado ao Ministério da Cultura (MinC) não limita suas atribuições ao ato de “tornar público”: “A missão da Fundação Casa de Rui Barbosa é promover a preservação e a pesquisa da memória e da produção literária e humanística, bem como congregar iniciativas de reflexão e debate acerca da cultura brasileira.”

Pesquisadores ouvidos por Terra Magazine contestam as justificativas e destacam que a preservação de manuscritos enriquece trabalhos biográficos e estudos comparativos. Uma das fontes observou: se assim fosse, a Carta de Pero Vaz de Caminha, publicada em milhares de livros, não precisaria mais ganhar poeira no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal.

A diretora do Centro de Memória e Informação admite: “Nosso preocupação é sumir (a correspondência) com um colecionador particular e não ficar público”. A casa não costuma entrar em leilões para aquisição de manuscritos, o que poderia desestimular as doações das famílias de autores brasileiros.

O jornalista e escritor Humberto Werneck, em sua coluna no “Estadão” (05/08), criticou o desinteresse da família e do Estado pelo acervo de João Cabral de Melo Neto: “Se me permitem um breve editorial em plena crônica, direi que considero um escândalo a obtusa naturalidade de quem, numa faxina em casa, se livra assim de documentos preciosos da nossa vida literária. Escandaloso também que, divulgada a notícia do leilão, não tenha havido uma corrida de instituições públicas das quais se espera empenho em preservar tamanhos tesouros, salvando-os, mais que da poeira, da insensibilidade de quem os vê como descartáveis papéis velhos.”

Desde a publicação do católogo, cresceu a procura pelo acervo de Cabral, segundo o leiloeiro Raul Barbosa. Outros objetos pessoais foram vendidos em leilões anteriores. Membro da Academia Brasileira de Letras, o poeta Lêdo Ivo ironiza: “Espero que as minhas cartas enviadas a João Cabral, que andam perdidas, apareçam no próximo leilão. Quero comprar!”.

O acadêmico foi um dos grandes amigos e correspondentes do poeta pernambucano, mantendo uma “amizade exemplar” de 1940 a 1999. “É muito esquisito. É uma das coisas mais acidentadas da história literária brasileira. A família tentou vender a biblioteca ao governo de Pernambuco, que não quis. Várias instituições não quiseram comprar. E acabou tudo num sebo, no Rio. Venderam até coisas fajutas, como um smoking. Ora, embaixador não usa smoking, usa fraque! E, na Academia, ele usava fardão. É tudo muito esquisito”, lamenta o escritor.

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Comentários

vangelis on 7 agosto, 2012 at 14:59 #

Essa matéria só referenda o que tenho dito sobre o descaso com a cultura no patropi…


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