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CRÔNICA

Prelúdio para Gabriela e Zé Dirceu

Janio Ferreira Soares

Talvez os mais jovens não saibam, mas houve um tempo em que as músicas das trilhas sonoras das novelas eram previamente encomendadas a determinados compositores, que recebiam dos autores um resumo do que iria acontecer durante as tramas e aí criavam temas exclusivos para acompanhar personagens e situações. Foi assim em 1975, quando foi lançado o LP com as belas canções da primeira versão de Gabriela, que acertadamente foram mantidas na atual reedição – quando nada, para conservar um pouco da essência analógica das impagáveis criações que nasceram através das teclas da velha Remington do nosso gênio Amado.

E como é bom ouvir outra vez o som cheio do piano abrindo espaço para os primeiros versos de Coração Ateu, belíssima composição de Sueli Costa, que escolta o romance de Mundinho e Gerusa, cujos acordes tanto podem despertar a ira do Coronel Ramiro, quanto à curiosidade de minhas filhas em querer saber “de quem é essa música tão linda, pai?”, como também me trazer de volta certos cheiros e circunstâncias que só as grandes canções têm o poder de resgatar.

Pena que agora os frequentadores do Bataclan e do Vesúvio sofrerão uma concorrência, no mínimo, desleal. Trata-se do julgamento dos réus do mensalão, que promete lances dignos dos melhores folhetins. E aí eu fico pensando em como seria se os próprios acusados pudessem escolher a sua trilha sonora.

– Senhor José Dirceu, o senhor já escolheu o seu tema?

– Meritíssimo, vou de Tim Maia; Réu Confesso e Vale Tudo.

– E o senhor, seu Roberto Jefferson? Jefferson, para ser coerente com seus instintos mais primitivos, talvez optasse por Depois da Queda, o Coice, do Paralamas. Enquanto isso, um arrependido Bispo Rodrigues apelaria para Um Milagre, Senhor, com Nélson Ned, e Marcos Valério ficaria com outro Nélson, o Gonçalves, e as sugestivas Hoje Quem Paga Sou Eu e Nem às Paredes Confesso. Longe dali, de bengala, chapéu, bigode e óculos escuros, Luiz Inácio está parecidíssimo com o Cego Aderaldo. No jeitão, na rima das derradeiras sílabas e na esperteza.

Janio Ferreira Soares, cronista baiano, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na tríplice divisa do Rio São Francisco.

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