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ARTIGO DA SEMANA

A estrada e a história de Gilmar

Vitor Hugo Soares

Diante da primeira imagem e do título da longa (26 páginas “de demonstrações de recursos arrecadados e fontes recebedoras”) e factualmente detalhada reportagem de capa da revista Carta Capital, desta semana, – “O valerioduto abasteceu Gilmar”- um susto. O instinto aceso do jornalista parece enxergar um daqueles alertas, em letras garrafais, postos na entrada de paiol repleto de pólvora e dinamite :”PERIGO!EXPLOSIVO!”

O texto curto da chamada para a reportagem, assinada por Maurício Dias e Leandro Fortes, não é mais tranqüilizador. Ao contrário, vai direto ao ponto e faz piscar com intensidade a luz vermelha que ilumina o aviso: “Mendes (o esquentado ministro Gilmar Mendes, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal) aparece em uma lista inédita de beneficiários do caixa 2 tucano em 1998. Com ele, Jorge Bornhausen, Agripino Maia, Walfrido dos Mares Guia, o comitê da reeleição de FHC, etc.etc.”

Dá calafrio na espinha. Às vésperas de começar o julgamento dos acusados do Mensalão do PT, pelo Supremo Tribunal Federal, a matéria da revista semanal cita fatos, números, nomes, situações nada recomendáveis, principalmente em se tratando dos figurões mencionados, a começar pelo ministro Gilmar.

Aparentemente sem ligar para o alerta, o texto acende o fósforo e põe fogo no paiol. “Furdunço à vista. A conferir”, anoto ao fechar comentário no blog que edito na Bahia, postado aos primeiros minutos da madrugada de ontem (27), sexta-feira, logo que um desses tuiteiros notívagos das redes sociais me colocou frente à frente com a capa da Carta Capital e das primeiras informações do conteúdo.

O engraçado (ou estranho?) é que em seguida, mais relaxado, a memória me pegou pelo braço e levou de volta aos dias de infância no sertão baiano dos anos 50. Mais exatamente à cidadezinha de Macururé, na área do Polígono das Secas. Próxima da Cachoeira de Paulo Afonso – onde o governo Getúlio Vargas construía a grande hidrelétrica da CHESF, para levar luz elétrica às capitais do Nordeste – e às margens da rodovia Transnordestina.

Na época, a estrada vivia coalhada de caminhões carregados de produtos trazidos de São Paulo, para abastecer a região esturricada e empobrecida, transformados na volta em paus-de-arara, lotados de retirantes da seca que fugiam para “trabalhar, construir e viver no eldorado do sul do País”.

Menino, eu gostava de ficar horas seguidas na “Pensão de Dona Lolóia”, lugar que servia a comida mais deliciosa do lugar aos caminhoneiros em trânsito. Escutava ali as conversas dos motoristas e seus ajudantes com meu tio (Zé de Lolóia), uma figura fundamental na comunicação da cidade com os passantes. Uma espécie de “repórter sem microfone, redação ou estúdio”.
No entanto, um mestre de intuição e sabedoria na hora de entrevistar e colher informações. A ele os motoristas contavam tudo: “as últimas e mais quentes notícias do Sul e Sudeste”: O candidato que estava bem nas eleições em São Paulo, Rio e Minas; as mais recentes safadezas e patifarias dos políticos; os arranjos e falcatruas dos poderosos da vez; o último traído no palácio; o artista e a celebridade da moda; e por aí seguia a conversa na pensão.

Nos casos mais polêmicos “cabeludos” (como ele chamava) de falcatruas, ladroeiras administrativas, desvios funcionais, erros de juizes ou traições de alcova, meu tio cobrava detalhes. Queria minudências factuais, dados contextuais completos, informações de bastidores. E, em geral, conseguia tudo, mesmo que naquele tempo, em Macururé, fosse praticamente impossível checar fatos acontecidos no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo; no Catete, Rio de Janeiro; ou nos fechadíssimos tribunais do Sul.

Quando a narrativa trazia fato novo, polêmico e verdadeiramente surpreendente, Zé de Lolóia tinha um jeito bem humorado e todo seu de terminar a entrevista: “Se uma história cabeluda como esta pegar uma boa estrada vai longe, ninguém segura”, dizia, apontando para o estirão de cascalho da Transnordestina, que passava bem na frente da pensão onde ele vivia e ficava sabendo de quase tudo que acontecia no País.

Foi por este caminho que a memória me conduziu, depois de ver a capa, a primeira imagem, a chamada e as primeiras informações da reportagem da Carta Capital que acaba de chegar às bancas. Não cabe aqui nestas linhas reproduzir detalhes das histórias cabeludas e seus principais personagens, apresentados na longa matéria produzida a quatro mãos (e muitas cabeças, seguramente), assinada por Maurício Dias e Leandro Fortes.

Ingredientes, imagina-se, suficientes para incendiar o paiol inteiro e chamuscar muita gente (ou não?). Responda quem souber. O que posso dizer, por enquanto, é que se um caso como esse tivesse acontecido nos anos 50 e fosse contado por algum motorista na pensão de Dona Lolóia, no sertão da Bahia, certamente seria merecedor do comentário avaliativo do “repórter” Zé de Lolóia:

-Se pegar boa estrada, uma história como esta vai longe!

A conferir.

Vitor Hugo Soares – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

rosane santana on 28 julho, 2012 at 10:19 #

Nada mudou, Vitor! A turma do PT joga merda no ventilador de todo mundo para justificar o jogo bruto, as práticas que tem adotado desde que chegou ao Palácio da Alvorada. “Nada mais parecido com um saquarema que um luzia no poder”. Tô fora, nada me escandaliza nem assusta nesse país e sigo a máxima beatnik: “Nem capitalismo nem socialismo, a ordem é ampliar a área da consciência”. No meu caso, sem ácidos e outros alucinógenos, mas com “livros, livros a mancheia e manda o povo pensar”. Viva Castro Alves!


rosane santana on 28 julho, 2012 at 10:23 #

Detalhe: O papa de tal prática no Brasil, é preciso registrar, foi o finado ACM, que sempre buscou aliciar Deus e o Diabo, como fazem os petistas, para ficar todo mundo na mesma estatura.


Inez on 28 julho, 2012 at 11:01 #

Serei um trecho desta estrada, Vitor… Como na corrida de revezamento, passando como é repassado o bastão… pela longa estrada. Parabéns pelo texto e memória . Abç.


luiz alfredo motta fontana on 28 julho, 2012 at 11:13 #

Caro VHS

Parafraseando:

Se o germicida for bom, suportaremos os odores

Nada surpreende, nem mesmo esse tiro, de última hora, num dos tais ministros não nomeados pelo PT

As instituições se apequenam, o triste é a esperança do povo

Palloci escapou, Dona Berenice também, resta agora o Dirceu

Acredite VHS, a estrada não é boa, é simplesmente o “fim da picada”

Usam togas , é verdade, caso usassem máscaras ninguém notaria a diferença

Uma pergunta que resta: com quantas laudas supremas se edifica uma impunidade?


vitor on 28 julho, 2012 at 12:55 #

Inez

Belas as suas palavras. Me comoveram. Muito.

Obrigado

Vitor Hugo


vitor on 28 julho, 2012 at 12:58 #

Inez

Belas as suas palavras. Me comoveram. Muito.
Tenho certeza de que vc deve ter poemas e muita coisa boa mais escrita, escondidas talvez em suas gavetas. Por que não manda algumas para publicar no BP?

Obrigado

Vitor Hugo


danilo on 28 julho, 2012 at 20:31 #

Senador do PT Delcídio Amaral desmente reportagem da revista Carta Capital.

abaixo a carta de Decídio ao editor Mino Carta:

Ao jornalista Mino Carta

Editor da Carta Capital

Senhor editor,

Em relação a matéria publicada na edição 708 da revista Carta Capital, onde meu nome é levianamente citado como suposto beneficiário de pagamentos efetuados há 14 anos, em Minas Gerais, esclareço, indignado, o seguinte:

1 – A reportagem se baseia em “documento” de um suposto esquema de caixa 2 que teria ocorrido na campanha eleitoral de 1998, época em que eu não desenvolvia nenhuma atividade político partidária, nem em Minas Gerais nem em qualquer outro lugar do país. Disputei o primeiro cargo público em 2002, quando, com muito orgulho, me tornei o primeiro senador eleito pelo Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso do Sul.

2 – Se essa “suposta” lista fosse verdadeira, seguramente teria sido utilizada durante a CPMI dos Correios, até para desqualificar os seus integrantes. O próprio advogado do acusado a quem a revista atribui a elaboração do abominável documento nega, com veemência, que seu cliente seja o responsável pelo mesmo, atribuindo sua autoria a um conhecido psicopata e estelionatário recorrente em fraudes diversas em Minas Gerais, que já foi preso e continua respondendo criminalmente por esses mesmos motivos. (Links dos desmentidos publicados ontem: http://bit.ly/QoeFTE e http://bit.ly/O5LNN4 )

3 – Orgulha-me, e não poderia ser diferente, a imparcialidade, a isenção, o equilíbrio e a serenidade que Deus me concedeu para presidir a CPMI dos Correios, fato que incomodou e, ao que parece, ainda incomoda, muita gente em diferentes pontos do país.

4 – É estranho – ou talvez não – que a reportagem seja publicada justamente às vésperas do julgamento do “mensalão” pelo Supremo Tribunal Federal, o que, para mim, demonstra o inequívoco propósito diversionista de suas intenções, subestimando a inteligência do povo brasileiro.

5 – Aos patrocinadores desse malfadado “documento”, que lembram a famigerada “Lista de Furnas”, outra desastrada trama engendrada por quem tenta confundir a opinião pública em benefício próprio, deixo um conselho: se os fatos apurados pela CPMI dos Correios lhes açoitam, tomem banho de sal grosso!

6 – Estou tomando as providências jurídicas que o caso requer, não só em relação aos autores dos “documentos” e também à revista, mas, eventualmente, às suas indevidas repercussões.

Campo Grande (MS) , 28 de julho de 2012

Delcídio do Amaral Senador (PT/MS)


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