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Postado em 27-07-2012
Arquivado em (Artigos) por vitor em 27-07-2012 23:14


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DEU NO TERRA MAGAZINE

POR BOB FERNANDES, DIRETO DE LONDRES

Na largada em Pequim, há quatro anos, numa impactante e bela cerimônia, a China evocou seus cinco mil anos de história. A Inglaterra trouxe Shakespeare para o instante zero da abertura dos Jogos Olímpicos de Londres 2012.

Britanicamente às 21 horas uma câmera sobrevoa campos, rios e mares da Inglaterra. Pouco depois soa o sino de 27 toneladas. No sino, uma inscrição de Shakespeare em “A Tempestade” sinaliza ao que assistirão os 53 mil espectadores do Estádio Olímpico e estimados 4 bilhões de telespectadores mundo afora:

– Não tema, a ilha está cheia de ruídos

Na direção do espetáculo “Ilha da Fantasia”, de R$ 87 milhões, o cineasta Danny Boyle, dos bem sucedidos “Quem quer ser um milionário?” e “Trainsppoting” e dos obscuros “A praia” e “Uma vida menos ordinária”.

Na montagem do show, um diretor com um pé no cinema e outro no teatro, Stephen Daldry, que assim como Boyle já trabalhou no Royal Court Theatre de Londres.

Com seu passado de grandes êxitos e fracassos no cinema, e diante do roteiro anunciado para o espetáculo desta sexta-feira, 27 de julho, houve quem, com ironia, na véspera tenha evocado o nome da última obra, e sucesso de Boyle no teatro: Frankenstein.

No gramado do estádio, Boyle expõe um mosaico da cultura inglesa. Da sociedade pastoril, rural, à era eletrônica. No início do show, no gramado, as múltiplas referências.

Lado a lado, o críquete, o badminton, o futebol e o rugby, os verdes campos e os piqueniques, e os animais: trinta carneiros, duas cabras e três vacas, dez galinhas e dez patos, nove gansos…

(Jacarés, tatus, papagaios e onças no Rio 2016?)

A dominar a cena, no topo de uma colina erguida no fundo do gramado, o pilriteiro: essa árvore, uma viagem às lendas e mitos da longeva Inglaterra. Do condado de Glastonbury, o pilriteiro evoca lendas do Rei Arthur e do Santo Graal.

Glastonbury, a lendária aldeia onde 30 anos depois da morte de Jesus teria nascido o cristianismo no país e que teria guardado, na primeira igreja britânica, o Santo Graal.

Nuvens carregadas são parte indissociável do cenário cotidiano na Inglaterra, mas numa semana de verão de 30 graus e céu límpido, até nuvens cenográficas foram criadas pela equipe de Danny Boyle.

Como chumaços de algodão doce, nuvens embaladas e içadas nos quatro cantos do gramado. O clima, o tempo, outra referência da cultura britânica. No popularesco diário The Sun, uma pista do que viria.

Na edição dessa sexta do The Sun, uma frase atribuída à Rainha:

– Depende do clima (sua presença, e como, na festa de abertura)

Elizabeth II, como quase tudo no espetáculo, apareceu, antes, na tela. No Buckingham, numa referência ao Rio 2016, crianças com boné do Brasil, enquanto, resoluto, James Bond desembarca em busca da Rainha.

Num helicóptero da Marinha Real, Elizabeth II, sempre na tela, embarca com James Bond e sobrevoa Londres. Canhões de luz apontam para o céu e há quem espere o impossível. Na tela, seguida por Bond, Elizabeth II salta de paraquedas.

No estádio, um canhão de luz ilumina a tribuna de honra, foca a rainha e o príncipe Philip. Aplausos e um longo oohhhhh ecoam pelo estádio olímpico.

Quatro horas antes da abertura, a rainha recebeu uma centena de chefes de Estado no Palácio de Buckingham. Da chegada à saida para o Parque Olímpico, uma complexa operação.

Como todos foram do Palácio para o estádio em ônibus, cada presidente, primeiro-ministro, príncipe ou ditador, foi etiquetado. Por um mix de segurança e logística, cada um dos chefes de estado e sua respectiva posição foi monitorado via satélite.

Assim, na volta da cerimônia, cada um deles foi deixado exatamente ao lado da sua limousine. Alugada pela embaixada do Brasil, a de Dilma Rousseff é blindada.

Até a véspera, suspense. Rússia e China não haviam anunciado quem os representaria no encontro com a rainha e na cerimônia de abertura. A gafe diplomática ficou por conta de Mitt Romney, candidato à presidência dos Estados Unidos.

O republicano disse haver “sinais desconcertantes” sobre a capacidade de Londres fazer uma olimpíada com êxito. O primeiro-ministro inglês, David Cameron, respondeu com um coice. Recordou as olimpíadas de Atlanta, em 1996, e os Jogos de Inverno em Salt Lake City em 2002:

– Estamos fazendo os jogos numa das cidades mais movimentadas, ativas e cheias de vida no mundo… é claro que é mais fácil fazer os Jogos no meio do nada…

Carl Lewis, herói olímpico norte-americano também fez seu disparo:

– Alguns americanos não deveriam jamais sair do país…

Boyle, o diretor do show, segue a história. Na sequência, chaminés se erguem do chão e mostram a revolução industrial, que pela Inglaterra começou a mudar o mundo em meados do século XVIII.

No salto seguinte, a mais forte marca do espetáculo criado pelo cineasta Danny Boyle: a cultura pop. O cinema. A música. Numa sucessão de imagens, Charles Chaplin, Rolling Stones, Beatles, The Who, Sex Pistols, Elton John, Punks, New Have…

“Vou fazer um filme ao vivo”, anunciou Danny Boyle antes da cerimônia. Mr. Bean em cena, interagindo com a Orquestra Sinfônica de Londres, personifica a intenção do cineasta.

Mr. Bean arranca gargalhadas da plateia e lembra a todos o tempo em que vivemos. Ao mesmo tempo em que “toca” a pianola na orquestra e sonha com o filme “Carruagens de Fogo”, Mr. Bean navega no seu smartphone.

Quase no encerramento, uma mensagem pela paz e o futuro do mundo. Ao lado de Muhammad Ali e do secretário-general da ONU, Ban Ki-moon, a ex-ministra do Meio Ambiente do Brasil Marina Silva.

Bonito o espetáculo, e mais do que nunca, pensado e criado para televisão, para as telas grandes e pequenas. Um show de abertura com diferenças marcantes em relação aos Jogos de Pequim.

Na China, no centro, à frente e acima de tudo, o foco na presença humana. Uma presença coletiva, diluída na história e contada através dos quatro tesouros dos cinco mil anos da vida chinesa: a tinta, o tinteiro, o pincel e o pergaminho, o papel…

Em Londres, um show pop e tecno.

Em Pequim, para narrar sua longa história no Ninho de Pássaro, movimentos coletivos e coordenados ao extremo. Um espetáculo de arrepiar pela precisão, surpresas e disciplina.

Em Londres, um show em grande parte escorado na aparição de ícones da cultura inglesa contemporânea.

Na China, a história de uma civilização distante, quase desconhecida, cheia de mistérios para o mundo ocidental.

Em Londres, na cinematográfica leitura da história inglesa, um show que misturou a Rainha e James Bond, Mr. Bean e a Orquesta Sinfônica, Charles Chaplin, Beatles e Rolling Stones, David Beckham, os punks, a new have e Santo Graal… faltaram as batatas.

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