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CRÔNICA/SOTERÓPILIS

O Canto do Ypiranguinha

Gilso Nogueira


Parece pintassilgo ou filhote de bem-te-vi o passarinho que, volta e meia, pousa, todo prosa, na rede da janela da minha sala.

A netinha, quando o avista, nas férias, festeja sua chegada, entre sorrisos cor-de-rosa e admiração Luluzinha, como se ele fosse o Flamengo.

Creio que os dois se entendem, minha neta e o passarinho, na linguagem universal, e misteriosa, das maravilhas da natureza.

A visita da minúscula criatura de Deus acontece, invariavelmente, de segunda a sábado.

Domingo, imagino, o bichinho amarelo e preto deve ter outros compromissos, pois não nos dá a alegria de sua chegada, com seu canto agudo e rápido, tão ligeiro quanto o vôo que empreende, na fuga, ao pressentir ruído e movimento dos donos da casa.

Tentei, hoje, pela manhã, fotografá-lo, e consegui, graças ao recurso de uma Canon australiana fabricada no Japão.

Posicionei-me atrás do vidro da janela, revestido com película que garante privacidade domiciliar, na terra do muro baixo, e fiz a foto.

Muro baixo?

Era assim que o ex-governador Octávio Mangabeira classificava a bela Salvador, a capital da Bahia.

Para ele, o local onde o absurdo, tantos, como, por exemplo, o ônibus não parar, no ponto, ao aceno dramático de uma mulher grávida, tinha ( e tem ) precedente.
A cena da incivilidade urbana sobre rodas testemunhei semana passada, na Avenida Centenário, aquela que, um dia, foi considerada a menina dos olhos da prefeitura da cidade.

Não é mais, por conta da falta de cuidado com o seu jardim central, onde foram gastos milhões de reais, ao ser implantado, e de sinalização de suas pistas, espaço que muitos motoristas imaginam ter sido construido, há anos, para dirigir como se eles estivessem participando de alguma prova automobilística, o que acontecia no final dos anos 1960, e início de 1970, em corridas promovidas pela federação baiana desse esporte.

Mas, aqui, antes que minha idéia bata asas, como o passarinho que fugiu sacando o click de seu admirador, quero exaltar, em tempo, a volta triunfal do simpático Botafogo Sport Clube, hoje já apelidado de Botafogo da Bahia, sábado passado, à primeira divisão do futebol baiano, com a faixa de campeão da sua Série B, depois de derrotar a briosa equipe da Jacuipense, de Conceição do Jacuípe, por 2 x 0.

Como torcedor do Esporte Clube Bahia, daqueles que preferem, na atualidade, o conforto de uma poltrona ao cimento de uma arquibancada, gritei gol, apaixonadamente, ao assistir, pela TV Educativa, o Canal 2, os tentos do time que ocupa o coração de quase todos os amantes do futebol da terra de Gabriela.

Creio que o único a discordar dessa tese, agora, é um “sujeito” baixinho, pequenino, todo alegre, fofo que só ele, vestido com as cores do velho Ypiranga – o maior rival do alvirubro, o Botafogo – que canta na minha janela, chova ou faça sol, como eterno vencedor.

Gilson Nogueira é jornalista

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