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OPINIÃO POLÍTICA
João Henrique olha para cima

Ivan de Carvalho

O prefeito de Salvador, João Henrique, está, para 2014, mirando o Palácio de Ondina. Ele já deixou isso claro duas vezes nos últimos dias, mesmo sem dar uma declaração direta. Teve o cuidado de incluir palavras desnecessárias para que não ficassem, isoladas, apenas as essenciais. No entanto, as essenciais estavam lá.

Ele ainda se deu ao luxo de argumentar que, segundo pesquisas, está bem avaliado no interior do Estado, atribuindo isso à administração que faz na capital e ao trabalho feito por seu pai, João Durval, quando foi governador.

Assim, João Henrique considera “natural” uma caminhada para o Palácio de Ondina. Numa estocada implícita, mas evidente, no governador Wagner, às voltas com a greve dos professores, lembrou que o senador João Durval, quando governou a Bahia, valorizou o funcionalismo, um exemplo que João Henrique diz ter seguido na capital. Quer dizer: já começou a campanha para 2014.

É uma hipótese razoável que João Henrique possa estar pensando tanto em suceder a Jaques Wagner quanto numa cadeira de senador ou mesmo de vice-governador. Mas ele fixa o alvo preferencial e deixa os outros como meras alternativas.

Hoje, é costume dizer que o futuro político dele não existe – pelo menos quanto às eleições majoritárias de 2014 –, mas só negará que o prefeito é um visionário e se considera um predestinado quem não o conhece. “Eu, que sou cego, mas só peço luzes, que sou pequeno, mas só fito os Andes”, dizia em seus versos o poeta Castro Alves. João Henrique deve ter lido isso. Só olha para cima.

E sobe. Vereador, com atuação de destaque, inclusive (os adversários dizem que sobretudo) na mídia. Deputado estadual, também com destaque, como simples vice-presidente da Comissão de Defesa do Consumidor. Soube usar o mandato e o cargo para tornar-se conhecido, com impressionante senso midiático, como defensor dos consumidores.

E então, sem que ninguém previsse com razoável antecedência – a não ser, provavelmente, ele próprio – lançou-se candidato a prefeito por um pequeno partido na Bahia, o PDT. Deu o grande salto quando, percebido como grande oportunidade pelo PSDB, ganhou o apoio deste partido. Com isso, a candidatura adquiriu credibilidade política e assegurou tempo confortável na propaganda eleitoral “gratuita” na televisão e no rádio. O apoio tucano facilitou novas adesões partidárias. E assim ele chegou ao Palácio Thomé de Souza.

Na reeleição, estabeleceu-se um consenso geral de que era impossível. Ele fez uma manobra política impressionante, entrando no PSDB e ganhando a ajuda do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, para obras na cidade e para a campanha, além do tempo do PMDB para TV e rádio. Foi reeleito, enfrentando o PT e aliados, o governo do Estado, o governo federal e até o PSDB, com o qual já estava rompido. Foi um caso de passarinho comer onça.

Pois aí está João Henrique outra vez, com a sua rejeição, tão falada em 2008. Interessante é que, não podendo o governador Wagner disputar nova reeleição, o PT está sem candidato natural. Na aliança governista existiriam alternativas fora do PT, mas aposto a pele que o PT não abre mão da candidatura própria ao governo. Nas oposições o panorama também não é animador – ACM Neto, se estiver na prefeitura teria dificuldade em deixá-la e, se não estiver, poderá disputar o governo, mas após ter perdido duas eleições seguidas para prefeito. Paulo Souto se desmobilizou. Geddel e o PMDB precisariam crescer muito. Se fica assim, tudo japonês, porque não João Henrique, ele pensará – ou já está pensando.

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