Quino e Mafalda:quimica perfeita entre criador e criatura
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ARTIGO DA SEMANA

A irônica presença de Mafalda

Vitor Hugo Soares

“O tempo passa, o tempo voa…”. Assim cantava antiga peça musical marqueteira, para vender à incautos e metidos a sabidos, as maravilhas de uma caderneta de poupança de instituição financeira privada que se esfumaçou. Sumiu no meio de um desses apagões que de vez em quando atingem economia e governo no Brasil (no resto do mundo também), em geral, depois de mais ou menos largo período de oba-oba e cegueira.

Podem ficar sossegados: este é um texto de vivência e opinião, mas não pretendo, nas próximas linhas, dar uma de analista econômico ou falar sobre os atuais labirintos e contradições que cercam a CPI do Cachoeira, o julgamento dos acusados do Mensalão, ou dos espúrios acordos e estranhas transações com vistas às eleições municipais, este ano, principalmente nas capitais – de Salvador a São Paulo, de Recife a Belo Horizonte.

Na verdade, o “gancho jornalístico” e o ponto de partida deste artigo semanal nem estão no Brasil, da petista Dilma Rousseff, mas na Argentina, da peronista Cristina Kirchner. Para ser mais exato, dirijo as vistas e a memória para a província de Mendoza – terra de assados deliciosos e vinhos melhores ainda -, onde o notável cartunista Joaquim Lavado “Quino” festejou 80 anos na terça-feira, 17, cercado de admiração e honras merecidas ao talento que deu Mafalda ao seu país e ao mundo. Um dos personagens mais incríveis, irônicos e instigantes dos quadrinhos em todos os tempos.

Na América Latina e no mundo, diga-se a bem da verdade.

Tiro o boné, bato palmas e canto parabéns para Quino, em meu recanto na Bahia, enquanto revivo com emoção e encantamento os meus primeiros e surpreendentes encontros com Mafalda, nas ruas e quiosques de Buenos Aires, no começo dos anos 70. Ainda agora, quando seu criador faz 80 e ela própria passou dos 40, me surpreendo, me emociono sempre e fico cada dia mais intrigado com a atualidade desta incrível e indomável garota, e das paixões que ela desperta desde que surgiu nas margens do Rio da Prata.

“Na vida real, eu nasci em 15 de março de 1962”, disse Mafalda em uma carta de apresentação. Quino, pai da menina, prefere o registro que celebra o aniversário da garota em 29 de setembro de 1964, dia em que ela apareceu, pela primeira vez, nas páginas de Primeira Plana como personagem de HQ.

Tendo esta data como parâmetro, o meu primeiro encontro com Mafalda só aconteceu quando a impossível menina de classe média festejava 10 anos e já se transformara em paixão dos argentinos de todas as classes, embora ainda praticamente desconhecida no “Brasil do milagre econômico”, envolto nas brumas da censura e empulhações da ditadura que fez o país virar as costas para o que acontecia no resto do continente.

Então, jovem repórter do Jornal do Brasil, na sucursal de Salvador, caminhava curioso pela Avenida Corrientes, em Buenos Aires. Foi quando avistei pendurada no quiosque de periódicos, a revista com o desenho da garota de rosto enfezado, olhar maroto, e língua afiada. Uma paixão que nasceu à primeira folheada, como confessei em artigo e conversas na Bahia, ao voltar da viagem.

Das camisetas com desenhos da personagem mais universal de Quino, que comprei na capital portenha, a mais bonita dei de presente à Margarida ( também jornalista e na época minha namorada) o que lhe valeu o apelido de “Mafalda”, na redação do jornal A Tarde, onde ela trabalhava na época.

Os editores das tiras de quadrinhos argentinas tiveram uma brilhante idéia, que contribuiu em muito para alargar a presença de Mafalda no mundo meio fechado dos chamados “intelectuais descolados”, em geral “de esquerda”, que precisavam se esconder para ler os HQs de Disney e outros criadores. Publicaram a saga completa da garota portenha em edição bonita e luxuosa, “que qualquer adulto pode exibir sem sentir vergonha”, como assinalou um escritor e jornalista argentino ao escrever sobre a criação de Quino.

E isso permite ter sempre em mãos – e agora diante dos olhos, com a internet – a presença de Mafalda e comprovar sua incontestável contemporaneidade. Aí vão, para terminar, algumas perguntas e frases tão incômodas quanto antológicas da garota, para comprovar a força da sua presença:

– “Não é certo que todo tempo passado foi melhor. O que acontecia era que os que estavam pior ainda não haviam se dado conta”
– “Por onde há que se empurrar este país para levá-lo adiante”?
– “O drama de ser presidente é que se alguém se põe a resolver os problemas de estado, não lhe resta tempo para governar”
– “Não será, por acaso, que esta vida moderna está tendo mais de moderna que de vida?
– “Parem o mundo, eu quero descer.”

Fantástica Mafalda! Parabéns e longa vida, Quino!

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Graça Azevedo on 21 julho, 2012 at 9:48 #

Longa vida e viva Quino!


Mariana Soares on 21 julho, 2012 at 10:43 #

Lindas e poéticas suas palavras, meu irmão, neste lindo sábado na capital do país…Adoro a sua sempre delicada crônica dos sábados, mesmo quando o tema não é tão ameno como este…Viva a você, sempre e todo o dia!


luiz alfredo motta fontana on 21 julho, 2012 at 14:56 #

Caro VHS

Tim Tim!!!

Quer uma boa tira?
Quer um bom rock?
Quer uma bela canção?
Quer um grande ator?
Quer um bom futebol?

Não ultrapasse os 60′, no máximo os 70′

A ressalva é que, naqueles tempos, irá encontrar apenas ditaduras nesta América do Sul.

Agora, quando muito, releituras equivocadas, entre o nada em abundância, a instântaniedade do suplérfluo, a viscosidade do midiático.

E, no lugar das tais ditaduras, pastiches democráticos”, feitos de engodos e falsas lideranças, meras cópias de um passado nunca resolvido.

Socorro!!!

Onde está o último número dos “Sobrinhos do Capitão”?

Tim Tim!!! com um “Cuba Libre”!!!


vitor on 21 julho, 2012 at 16:09 #

Tim Tim, poeta !

Com Cuba Libre, sim. Minha bebida preferida nos 60/70. Com limão curtido por vinte minutos no copo antes da bebida , como me ensinou Zé Paulino,( “para apurar o sabor único da mistura de Rum e Coca-Cola)um garçom do “Tavares”, em Belo Horizonte. Nunca esqueci. E ainda recomendo.

Tim Tim

Vitor Hugo


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