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Postado em 21-07-2012
Arquivado em (Artigos) por vitor em 21-07-2012 11:21

ARTIGO

Eu não sou cachorro, não

Janio Ferreira Soares

Se vivo fosse, o grande Waldick Soriano estaria fora do contexto. Como se não bastasse à extinção das apaixonadas cartas de amor escritas por machões com os olhos rasos d’água e o coração cheio de mágoa, também seria muito complicado para o nosso bregueiro maior pegar o microfone de uma boate cheirando a gardênia e a continental sem filtro e mandar o seu grande sucesso, aquele mesmo em que ele dizia que não era cachorro para ser tão humilhado. É que atualmente os cães estão sendo tratados com tantos salamaleques e pedidos de desculpas públicas, que só não estão dando autógrafo porque ninguém teve a brilhante ideia de tatuar um au-au em suas patas para que elas sejam carimbadas ao lado das assinaturas de Thiaguinho e Michel Teló – embora isso seja tão somente uma questão de certas adequações ao novo estilo totó de ser star.

Aproveitando a onda, Angeli, o genial cartunista da Folha de São Paulo – e, a exemplo de Waldick, também um outsider que prefere virar um conhaque no balcão de um pé sujo numa cinzenta tarde paulistana a dar um selinho em Hebe Camargo numa vernissage do Itaú Cultural –, fez mais uma daquelas charges que valem por um editorial inteiro.

Nela, vários senadores engravatados e com focinhos de cães (alguns babando), olham para um colega abandonado no meio do plenário e disparam: “adeus, cachorro sarnento!”. E o mais bacana é que, para fugir do óbvio, nenhuma das excelências caninas retratadas possui o bigode de Sarney, nem o olhar de agosto de Collor, tampouco o semblante pequinês de Renan. Mas basta uma acurada na visão para sabê-los ali, implícitos, igualmente com seus ossos e segredos enterrados sob as tetas da infinita madre, a comemorar a ruína de um colega que até há pouco latia sob a proteção da coleira da impunidade e agora vive zanzando feito um vira-lata pelos becos cantando Eu Não Sou Cachorro, Não – acompanhado por cinco pulgas amestradas que fazem o backing vocal. Seu sonho, dizem, é ser atropelado por um BMW conversível de um pagodeiro e depois ser adotado por ele.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, do lado baiano do Rio São Francisco

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Comentários

Eu não sou cachorro, não « ZÉducando on 22 julho, 2012 at 12:00 #

[…] Eu não sou cachorro, não (Janio Ferreira Soares, A TARDE, 21/07/2012) […]


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