==================================
OPINIÃO POLÍTICA

A desocupação da Assembléia

Ivan de Carvalho

Ao deixarem ontem a Assembléia Legislativa, onde ocupavam uma área do prédio principal há mais de três meses, os professores estaduais em greve há 102 dias perderam um símbolo do movimento, mas não deram qualquer sinal claro de arrefecimento da greve por causa disso. A decisão de desocupar foi difícil. Primeiro, a assembléia geral, pela manhã, deliberou pela continuidade da ocupação e “resistência pacífica” à ação policial. À tarde, tomou-se a decisão de desocupar sem esperar por eventual ação policial. A desocupação ocorreu às 17:30 horas.

Os sinais de enfraquecimento continuaram sendo os mesmos que já existiam antes da desocupação – uma certa fadiga que tende a ocorrer em toda greve muito prolongada e sem perspectiva de obter o resultado desejado e divergências internas no movimento. Quando a assembléia geral de ontem se preparava para votar a continuidade da greve, uma dirigente da APLB propôs discutir e por em votação o fim do movimento. Tomou uma vaia e fechou o bico. Mas deixou exposta uma divergência.

Os professores decidiram continuar a greve e, em Salvador, fazer na segunda-feira uma assembléia no Colégio Central. Se a greve persistir, eles terão que consolidar esse local ou arranjar algum outro para fazer suas assembleias. Vale assinalar que o Colégio Central, ainda que se deva levar em conta ser um estabelecimento de ensino, é uma propriedade do Estado, controlada pelo Poder Executivo, que, se quiser, interdita o prédio (já que não estão sendo realizadas atividades de ensino ali). Problema será interditá-lo se os grevistas já estiveram dentro.

A desocupação do Saguão Nestor Duarte, contíguo ao plenário e onde estavam circunscritos os grevistas, ocorreu da maneira ideal para o presidente da Assembléia, Marcelo Nilo, posto em circunstâncias políticas que o levaram a determinar à Procuradoria Jurídica da Casa o ajuizamento de uma ação de reintegração de posse. Ele afirma que a idéia foi dele mesmo, mas ninguém acredita, como já assinalado antes neste espaço, pois é evidente que, do ponto de vista político, o grande interessado direto era o Poder Executivo.

A desocupação, com apenas 03:30 horas de atraso em relação ao prazo acordado judicialmente entre a Assembléia e a APLB e determinado pelo juiz Ruy Eduardo Almeida Britto, da 6ª Vara da Fazenda Pública, ocorreu sem presença de oficial de justiça e força policial.

O comando da greve e os grevistas simplesmente chegaram à conclusão de que deviam acatar a decisão judicial. Os professores saíram cantando Coração de Estudante e reafirmando a continuidade da greve. Muitas professoras chorando, a emoção à flor da pele.

O único incidente ocorreu quando os grevistas vaiaram intensamente uma equipe de reportagem (duas pessoas) de programas da TV Record, levando-os a se retirarem. Não houve agressão física. Outros repórteres que estiveram no local foram recebidos e puderam fazer normalmente seu trabalho.

Talvez caiba registrar a aparição de um grupo de cerca de 40 estudantes que foi à Assembléia pedir aos professores para encerrarem a greve. Não consegui saber quem o levou.

Be Sociable, Share!

Comentários

Tamara Guerra on 22 julho, 2012 at 17:17 #

Sou de uma geração que tive pais advindos do governo ditatorial. Talvez, pelo que eles viveram “na pele”, nunca fui incentivada a ingressar em grupos estudantis. Porém, na adolescência já me deslumbrava com os versos de Renato Russo “Somos os filhos da revolução/Somos burgueses sem religião/Somos o futuro da nação/Geração Coca-Cola”.
Comecei também a entender os desabafos poéticos de Cazuza, o poeta da burguesia contra a burguesia; desse modo, compreendi que minha geração também não ia passar sem deixar marcas. Ah, para minha sorte, deparei-me com grito s de “Diretas Já! ”musicalizado com os versos “De quem essa ira santa /Essa saúde civil /Que tocando a ferida /Redescobre o Brasil?
Que orgulho, eu fazia parte da geração que ia escolher pela primeira vez um Presidente da República. Fiz a escolha. Mas, aquele o qual tinha escolhido, também por mim seria destituído. E, lá fui eu, universitária, ideias revolucionárias (sempre humanitárias, nunca radicais ou partidárias) com a cara pintada, indo às ruas na esperança de “corrigir” o erro da minha escolha.
Houve aprendizado, desilusão, descrença… Mas, surgiram novas expectativas e ideais, e consequentemente, a esperança.
Contudo, há alguns dias, me vejo totalmente cética, diante do que estou vivenciando com os colegas, professores do Estado da Bahia. Sentimento esse, que luto para não aflorar no meu coração. Percebi que os valores de justiça que eu tanto pregava, nem sempre serão aplicados com veemência. Fui vencida a compreender que não vale a pena lutar contra as regras do sistema ou por uma mídia oportunista e sensacionalista. É difícil representar uma classe desprestigiada e discriminada, a qual é incen tivada a trabalhar só pelo amor à profissão.
Todos nós, alguns até hoje, embarcamos no mundo do fazer aprender, acreditando; eu percebi que enquanto alguns dizem que tudo parece utopia, não me importo: sou educadora porque também sou utópica, necessariamente utópica, porque crente que, na complexidade do cotidiano, minhas lições podem ir além dos livros, podem fazer mudar, ao menos um pouco a posição do mundo, ou a posição do homem ao pisar nele e “fazer-se homem”.
Me emocionei hoje ao ver vídeos de colegas chorando na assembleia, esses, que como eu, apesar do desgaste emocional, ainda buscam coragem e perseverança para lutar por um ideal coletivo. Hoje, constatei que ainda posso acreditar, mesmo que ainda esteja muito distante, em uma “revolução” na educação.
Para os que desistiram, apenas lamento.

Professora Tamara guerra,em 20 de julho de 2012.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos