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OPINIÃO POLÍTICA

Formação militar
Ivan de Carvalho

O líder do Psol na Câmara dos Deputados, deputado Chico Alencar, protocolou, na quinta-feira, requerimento em que cobra explicações sobre o “canto” de apologia à violência que soldados da Polícia do Exército entoaram em treinamento pelas ruas do Rio de Janeiro. De vez em quando acontece uma dessas coisas que pregam um susto e deixam as pessoas estupefatas, uma espécie de doideira sem doido identificado, mas que não podem acontecer por acaso e, exatamente por isto, devem ser levadas muito a sério.
Foi o que fez o líder do Psol, Chico Alencar. O jornal O Globo, na sua coluna Panorama Político, publicou a nota seguinte: “Soldados do quartel do 1º Batalhão da Polícia do Exército, onde funcionava o DOI-Codi na ditadura militar, corriam ontem pela manhã na Rua Barão de Mesquita, no Rio, cantando: ‘Bate, espanca, quebra os ossos. Bate até morrer’. O instrutor então perguntava: ‘E a Cabeça?’ Os soldados respondiam: ‘Arranca a cabeça e joga no mar’. No final o instrutor perguntava: ‘E quem faz isso?’ E os soldados respondiam: ‘É o Esquadrão Caveira!”.
O deputado Alencar justificou seu requerimento alegando que o “canto” é uma “clara indução à violência e ofensa aos princípios universais dos direitos humanos. Diante dos abomináveis cantos de guerra e tortura que os soldados da Polícia do Exército no RJ são estimulados a gritar”, o líder do Psol e a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, por seu presidente, deputado Domingos Dutra, tomaram algumas providências:
1) Oficiar ao ministro da Defesa para que determine o imediato fim destes brados em toda e qualquer unidade das Forças Armadas; 2) Requerer informações sobre a ciência que o Ministério tem do fato, quais são as autoridades diretamente responsáveis pelo treinamento, se isso é usual nas práticas militares e desde quando; 3) emitir nota de repúdio de membros da Comissão de Direitos Humanos; “encaminhar denúncia, como resquício da ditadura e da tortura, à Comissão Nacional da Verdade”; apresentar proposta de audiência pública da Comissão de Direitos Humanos para debater “Educação Militar e Direitos Humanos”.
Bem, das providências enumeradas, a única discutível, talvez mesmo sem sentido, é a de “encaminhar denúncia, como resquício da ditadura e da tortura, à Comissão Nacional da Verdade”. Afinal, o que é que a Comissão Nacional da Verdade vai fazer com isso? O caso não se enquadra nas finalidades legais dela, finalidades estas que já estão envolvidas em polêmica mesmo sem a ajuda de tal e tão estranho “canto”.
Quanto às demais providências, são todas perfeitamente adequadas. E o tema precisa ser abordado em profundidade, como precisa ser mensurada a extensão, no meio militar, da “pedagogia” de ensino que explodiu nesse “canto” celerado nas ruas do Rio.
Claro que aos soldados seus comandantes precisam incutir, além dos princípios básicos de hierarquia e disciplina, sem os quais as forças armadas não seriam operacionais e não cumpririam suas finalidades, uma cultura de bravura e de ânimo combativo, mas não – até porque não haveria qualquer finalidade legítima ou aceitável nisso – ideias de crueldade, de bater, espancar, quebrar os ossos, bater até matar e, para completar, arrancar a cabeça e jogar no mar.
Não se formam soldados assim. Formam-se monstros. E não é isto o que a sociedade brasileira quer que seus soldados sejam.

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