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OPINIÃO POLÍTICA

Mudança de percepção

Ivan de Carvalho

Depois dos oito anos de mandato de Lula e já transcorrido ano e meio do mandato da presidente Dilma Roussef, alguns observadores começam a identificar o que se poderia chamar, numa classificação simplista, de fadiga em relação ao PT.

Mas não se trataria somente de uma fadiga devido ao já longo tempo de mando petista e da certeza de que este mando vai, no mínimo, chegar aos 12 anos.

Seria o início de uma conscientização, em segmento da sociedade que esteve e pode ainda parcialmente estar sensibilizado pelo PT e suas lideranças, de que este partido já não exibe em relação aos demais o diferencial que apresentava antes de chegar ao poder e que foi, gradualmente, atraindo simpatias.

Em outras palavras, ganha terreno uma mudança percepção: o PT de hoje não é o mesmo dos tempos em que estava na oposição. Ele, em muitas coisas, tornou-se igual àqueles partidos aos quais se opunha ou com os quais concorria. E, quanto a outras coisas, até acrescentou algumas inovações que podem ser consideradas defeituosas e que os outros partidos não apresentavam, pelo menos publicamente.

Um exemplo marcante quanto a esta última ordem de coisas é a mobilização que vem sendo feita e, mais do que isso, a que já vem sendo anunciada para defender os réus do Mensalão, o maior escândalo de corrupção da história brasileira. Essa mobilização ocorre, organicamente, dentro do PT, como também em seus braços sindical e de movimentos sociais, comandados geralmente por filiados ao partido.

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) anunciou que vai às ruas defender a absolvição dos réus a serem julgados a partir do dia 2 de agosto pelo Supremo Tribunal Federal.

Parece que a CUT – e não demora para aparecerem na mesma esdrúxula mobilização também o MST dos sem-terra e o MST dos sem teto, entre outros – está considerando o julgamento pela mais alta corte de justiça do país alguma espécie de Fla-Flu, sem qualquer preocupação sobre a culpabilidade ou não dos réus. Se a CUT e o PT (pela voz de tantos, mais recentemente do seu presidente nacional, Rui Falcão) já os julgaram, o que há de querer, então, o STF metendo o bedelho no caso?

Essas coisas podem estar começando a saturar uma opinião pública que via no PT uma alternativa ética e já começa a convencer-se de que o partido perdeu o seu foco anterior à chegada ao poder federal. Isso se reflete nos Estados, naturalmente e a esta dificuldade somam-se outras, eventuais. Os ventos que sopravam a favor na economia em quase todo o governo Lula – e que lhe permitiram transformar os reflexos da crise norte-americana em uma “marolinha” um pouco mais forte do que foi apresentada pelo governo – agora sopram contra.

Dificuldades com retração no consumo, com inflação, com inadimplência, com a queda nas projeções de crescimento do PIB, com o custo da dívida pública, com alguns orçamentos estaduais – como ocorre na Bahia, onde leva à impossibilidade de atender expectativas da população e reivindicações setoriais – tudo isso soma-se àquela percepção de âmbito nacional sobre o desvio do partido do governo quanto a seu antigo foco ético.

Considere-se, para completar o quadro, a perspectiva de uma longa crise econômica na “zona do euro” que, somando-se à lenta e reticente recuperação norte-americana, já afeta economias como as da China, Rússia e Índia. Isso não é bom para o Brasil nem para quem o esteja governando.

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Comentários

vangelis on 12 julho, 2012 at 11:26 #

Disse o saudoso Brizola: “Cuidado com o sapo barbudo, vive num pântano, é escorregadio e mentiroso”
Foram muitos sinais dessa mudança, a saída dos intelectuais do partido, Chico Oliveira, Plinio de Arruda e outros, a forma ditatorial da executiva nacional(que controla a maior central sindical a CUT e dentro dela a maior corrente sindical chamada de ARTICULAÇÃO) para com os seus filiados, vide as atitudes tomadas contra as Senadoras Heloisa Helena e Marta Suplicy, escanteada para viabilizar a candidatura do Hadad a Prefeito de São Paulo. Hoje, também, foi publicada a anulação da convenção do PT de Juazeiro, pela executiva nacional, e consequentemente a candidatura a Prefeito do Joseph Bandeira a fim de manter as alianças com o PCdoB com vistas às eleições em Salvador, que de sobra levou de arrastão a candidatura de Alice Portugal do PCdo B. Em Recife outro imbroglio com o Mauricio Rands candidato a Prefeito, foi preterido pelo partido, entregou o mandato de deputado federal e desfiliou-se do PT. Com isso preserva-se para uma futura filiação ao PSB do Governador Eduardo Campos. Com tudo isso o maior sinal dessa mudança foi a aliança árabe formada pelos “emires” de São Paulo Maluf e Hadad promovida pelo Lula estampada na foto que ficará para a história como o símbolo da transformação desse partido que um dia foi formado por bases de trabalhadores. Lembro-me de 1979, dia e mês caíram no esquecimento, no auditório do Colégio Antonio Vieira, a reunião convocada pelos sindicatos baianos onde foi apresentado o projeto da criação de um partido que representasse os trabalhadores, tendo em vista que os partidos de esquerda estavam na clandestinidade. Lula e várias lideranças da esquerda alí presente onde houve uma votação simbólica para criação do partido a partir das bases dos trabalhadores. Alí eu estava, por puro acaso, como delegado sindical e ficou apenas na minha lembrança o meu voto contrário a esse partido. Não fui vidente, somente hoje vejo que estava correto naquele NÃO!


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