wagner x professores:tempo quente no interior e capital

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ARTIGO DA SEMANA

Buenos Aires (PE), Corinthians e eleições

Vitor Hugo Soares

Nos mais de cinco mil municípios do País, mas principalmente nas cidades do Nordeste, o fogo cresce e as chamas queimam. Não só em razão dos festejos de São João e de São Pedro – animados apesar da seca – mas também pela campanha eleitoral que começa quente como é comum nas disputas municipais – prometendo briga, polêmica e muitas surpresas de São Paulo a Salvador, de Recife a BH.

É tempo de alvoroçada corrida dos partidos, dos candidatos e de seus chefes políticos para propor as últimas barganhas, combinar os derradeiros acordos, ou fazer aquelas ameaças de última hora, definitivas e em geral irresistíveis para esfomeados comensais do banquete do poder (tomar cargos e sinecuras, por exemplo) antes do fechamento das chapas para as convenções, os comícios e as urnas.
Enquanto o tempo esquenta na política, aproveito o friozinho dos dias chuvosos em Salvador para uma leitura de “Periodismo Informativo e Interpretativo”, de Concha Edo, professora de Redação Jornalística da Universidade Complutense de Madri, autora também de “Do papel à tela. A Imprensa na Internet”, uma das primeiras obras de consistência sobre este fenômeno avassalador na comunicação, que atualmente assombra e surpreende tanta gente.

O livro que tenho nas mãos estuda e analisa o impacto da Internet na notícia, as fontes e os gêneros. A autora trata do alvorecer do século XXI, que nos colocou diante de uma nova encruzilhada para o jornalismo. Até onde sei a obra não foi ainda traduzida para o português e publicada no Brasil.

A edição que agora leio foi adquirida na última passagem por Buenos Aires. Em colossal livraria da capital portenha, e não da simpática cidadezinha homônima de Pernambuco. Esta, batizada por um pároco argentino encantado com o clima e a beleza do lugar, está localizada a uns 70 quilômetros de Recife. Por estes dias, também em ritmo de forró, bandeirolas juninas coloridas enfeitando as ruas na fase de pré-campanha eleitoral.

A Buenos Aires pernambucana foi mostrada pela Rede Globo na manhã de ontem (29), dia de São Pedro. Incendiada, no entanto, pelo clima apaixonado e apaixonante de disputa das finais da Taça Libertadores das Américas entre o brasileiro Corinthians e o argentino Boca Junior. Magnífica pauta. Gol de placa jornalístico marcado pela apresentadora Ana Maria Braga em seu programa matinal diário.

Merece reprise para quem viu e para quem perdeu (fica aqui a sugestão) no Fantástico deste primeiro domingo de julho, à noite. Vésperas do jogo decisivo no Morumbi, em São Paulo, seguramente em chamas na política e no futebol, tomada pelas paixões de “bandos de loucos”, na perfeita definição de Ronaldo, o Fenômeno, da torcida corintiana.

Na Bahia destes dias de fogo, o olhar escapa de repente das páginas do livro da professora de Madri e das imagens da bela reportagem no programa de Ana Maria, para um vídeo que “bombou” em acessos esta semana no YouTube. As cenas foram tomadas de um palanque político eleitoral com a presença do governador Jaques Wagner (PT), armado na praça pública de Campo Formoso, cidade das serras das pedras preciosas no sertão baiano. Ocupada por professores da rede estadual em greve há quase 90 dias e seus jovens alunos sem aula.
O vídeo é emblemático deste período nervoso e combustivo, para o bem e para o mal, na medida em que mostra não só a exploração política e eleitoral de sempre, mas também a nova força demolidora da Internet, em sua velocidade e efeitos avassaladores no terreno da comunicação de massas.

Na praça lotada, docentes e discentes vaiam o discurso do governador. No palanque, Jaques Wagner, o antigo dirigente sindical petroquímico em Camaçari, um dos fundadores nacionais do Partido dos Trabalhadores, provavelmente tomado pelo clima, perde o “fair-play”. Resolve reagir de forma incomum e surpreendente em relação ao seu marketing habitual, estilo “de dialogador bem humorado e bonachão”.

Dedo em riste, o governador da Bahia – o deputado Marcelo Nilo (PDT), presidente da Assembleia Legislativa, o aplaude ao lado – encara a turba. Chama os professores que o vaiam de covardes e petulantes.
“Vocês deviam estar na sala de aula. A minha vida inteira foi de carteira assinada e salário é a contraprestação do trabalho. Vocês não trabalham e se depender de mim não terão salário. O salário vai voltar quando vocês forem trabalhar. Eu nunca vi ninguém ficar em casa anunciando as férias e ainda ter a petulância de querer salário”, discursa Jaques Wagner. E o ambiente pega fogo.

Alguém filmou com câmera digital ou telefone celular e postou no YouTube. Imagens e áudio nada recomendáveis para qualquer político ou administrador público, menos ainda um governador. Resultado: o que em outras campanhas levaria dias para fazer o percurso Campo Formoso-Salvador, em minutos percorria a Bahia, o Brasil e o mundo, causando os estragos previsíveis.

O desfile cívico do 2 de Julho em Salvador promete na segunda-feira!! Mais não digo, a não ser que no vídeo do You Tube tem mais (muito mais) e está na Rede. É só conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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